Corria o ano de 1973, sob o punho de ferro do general Emilio Garrastazu Médici, e Brasília orgulhava-se de ser uma bolha de segurança impecável, onde as famílias de classe média deixavam suas crianças brincando sem sobressaltos pelas superquadras. A Ditadura gostava de alardear que o crime e a desordem eram privilégios da subversão e da decadência moral do Ocidente. 

Entretanto, nos bastidores do poder, a civilidade de paletó e gravata escondia uma fauna bem menos edificante. A juventude dourada dos gabinetes ministeriais e dos corredores do Congresso circulava pela cidade com a prepotência de quem se sabia acima de qualquer lei. Enquanto os jornais puxa-sacos exaltavam o milagre econômico e a moralidade dos costumes, os salões e sítios no entorno do Distrito Federal testemunhavam farras regadas a entorpecentes e abusos impunes. 

O ápice foi atingido quando o próprio aparelho repressor, montado com tanto esmero para caçar opositores políticos, viu-se diante de um crime brutal cometido no seu quintal. Bastou que a poeira das investigações ameaçasse bater à porta do Ministério da Justiça para que o discurso de lei e ordem ruísse como um castelo de cartas, transformando a busca pela verdade em uma grande farsa orquestrada pelo próprio Estado. 

O desaparecimento na porta da escola 

Na terça-feira 11 de setembro de 1973, por volta das 13h50, Ana Lídia Braga, de apenas sete anos, foi deixada pelos pais como de costume no Colégio Madre Carmen Salles, na L2 Norte, e desapareceu sem que ninguém percebesse de imediato; a falta só foi notada quando a empregada da família, Rosa Santana, foi buscá-la ao fim das aulas. 

Avisada às 17h, a polícia intensificou as buscas, e por volta das 19h45 o delegado José Ribamar Morais recebeu um telefonema anônimo exigindo resgate de dois milhões de cruzeiros; a menina chegou a ser colocada ao telefone, chorando e pedindo pela mãe, mas nenhum outro contato foi feito depois disso. 

Ana Lídia Braga na época do crime (Crédito: Reprodução)

A testemunha, o homem loiro e o corpo encontrado 

Testemunhas relataram à polícia terem visto um homem alto, magro, claro e loiro, vestido com calça marrom, levando a menina para longe da escola naquela tarde. No dia seguinte, o corpo de Ana Lídia foi localizado por policiais entre a Avenida das Nações e a Universidade de Brasília, seminua, coberta de terra, com os cabelos cortados rente ao couro cabeludo e sinais evidentes de violência física e sexual. 

Segundo os peritos, a morte teria ocorrido por asfixia, por volta das seis horas da manhã daquele dia, e próximo à vala rasa em que o corpo foi deixado havia marcas de pneus de moto e dois preservativos, pistas que, em tese, poderiam ter conduzido rapidamente a investigação a um culpado, mas que, como se verá adiante, foram tratadas com um desleixo tão consistente que parece deliberado, segundo reportagem publicada pelo Correio Braziliense por ocasião dos 50 anos do crime. 

Enterro de Ana Lídia. Como dizia Hemingway, os menores caixões são os mais pesados (Crédito: Reprodução)

Os principais suspeitos 

Ao longo da investigação, quatro nomes se consolidaram como os mais citados. O primeiro é Raimundo Lacerda Duque, funcionário do DASP subordinado à mãe de Ana Lídia, apontado inicialmente pelo próprio inquérito policial, junto ao irmão da vítima, como responsável pelo crime; a suspeita levantada por diferentes reportagens é a de que o irmão, Álvaro Henrique Braga, então com 18 anos, teria entregado a irmã a Duque para quitar dívidas de drogas, conforme reconstituição feita pelo Correio Braziliense. 

E a partir daqui a coisa começou a ficar muito próxima dos poderosos de plantão da Ditadura. 

O segundo nome é o de Alfredo Buzaid Júnior, o “Buzaidinho”, filho do então ministro da Justiça Alfredo Buzaid, responsável justamente pela pasta que comandava a censura; o terceiro é o filho do senador Eurico Resende, então vice-líder da ARENA (o partido do governo) no Senado, identificado nas reportagens ora como Eduardo Rezende, ora como Eduardo Ribeiro Resende, e apelidado de “Rezendinho”. Segundo a reconstituição publicada pela VICE Brasil a partir do processo, testemunhas afirmaram que os dois teriam permanecido no sítio da família Resende, em Sobradinho, com a menina, enquanto Duque e o irmão dela se afastavam. 

Um quarto nome, esse com estatura política ainda maior, também circula nas reconstituições do caso: a do futuro presidente da República Fernando Collor de Mello, que em 1973 tinha 24 anos. Collor chegou a ser citado entre os suspeitos, mas não foi comprovado seu envolvimento no crime. O assunto voltou à tona na campanha eleitoral de 1989 e em 2014, num debate eleitoral em Alagoas, quando a candidata Heloísa Helena mencionou boatos que também associavam Collor ao caso. Nenhuma dessas menções corresponde a indiciamento formal ou prova documental; permanecem no campo do boato político, o que, tratando-se de um processo já tão poroso, tampouco surpreende. 

Raimundo Lacerda Duque com as mãos para trás e Álvaro Henrique Braga de óculos olhando para a câmera (Crédito: Reprodução)
   

As falhas grotescas da investigação 

Chama atenção, em qualquer leitura do processo, o tamanho do desleixo pericial. Não se tirou molde de gesso das marcas de pneu de moto encontradas junto ao corpo para compará-las com o veículo do irmão da vítima, e não houve levantamento sério sobre quem havia comprado os preservativos localizados na cena, numa Brasília em que farmácias eram poucas e o item, para os costumes da época, digamos, incomum. 

A esse desleixo técnico somou-se a interferência política. Documentos do acervo da Aeronáutica obtidos pelo Correio Braziliense mostram que integrantes do regime militar rejeitaram indícios que apontavam para o envolvimento de Buzaid Júnior, classificando a suspeita como “manobra de grupos a serviço da subversão”; o Ministério Público, por sua vez, chegou a ser afastado do acompanhamento do caso. 

A imprensa amordaçada pela Ditadura

Em 20 de maio de 1974, jornais, rádios e emissoras de televisão de todo o país receberam um comunicado do Departamento de Polícia Federal com o seguinte teor, reproduzido pela obra “A Imprensa Amordaçada”, de Jávier Godinho, sobre o caso: “De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação através dos meios de comunicação social escrito, falado, televisado, comentários, transcrição, referências e outras matérias sobre caso Ana Lídia e Rosana.” 

O episódio é tratado por pesquisadores como uma das provas mais cabais de que a censura política não se limitava a músicas ou organizações políticas ditas subversivas. Ela também podia ser usada para proteger sobrenomes incômodos de um crime contra uma criança. Reportagens publicadas por ocasião dos 50 anos do crime observa que a proibição tornou o trabalho de reconstituição histórica do caso particularmente difícil décadas depois, já que boa parte da cobertura da época simplesmente não existiu. 

Javier Godinho, autor de livro no qual se debruçou sobre o caso (Crédito: Reprodução)

O sítio em Sobradinho e a noite decisiva 

De acordo com a reconstituição do caso, as investigações indicaram que Ana Lídia foi levada ao sítio da família de Eurico Resende, em Sobradinho, então vice-líder da ARENA no Senado. Testemunhas relataram que, à noite, Álvaro Henrique Braga e a namorada, Gilma Varela de Albuquerque, deram uma saída, deixando a menina com Buzaid Júnior, com o filho do senador e com Raimundo Lacerda Duque. 

Segundo essas mesmas fontes, ao retornarem ao sítio, os dois teriam encontrado a menina já sem vida, e a decisão seguinte teria sido descartar o corpo próximo à Universidade de Brasília. Nenhuma dessas informações, é bom repetir, resultou em condenação: permanecem, décadas depois, como reconstituição baseada em depoimentos de testemunhas e no próprio processo, não em sentença judicial. 

Álvaro Henrique Braga (alto à esquerda), irmão da vítima; Alfredo Buzaid Júnior (alto à direita), filho do Ministro da Justiça; Eduardo Ribeiro Resende, o Resendinho (abaixo e à esquerda), filho de senador Eurico Resende; e o traficante da alta roda Raimundo Duque (abaixo e à direita) 

A reabertura treze anos depois e as testemunhas que morreram 

O processo foi reaberto em 1986, treze anos após o crime, depois que a repórter Mônica Teixeira, da Vídeo Abril, afirmou dispor de testemunhas capazes de comprovar o envolvimento de Buzaid Júnior, e sustentou que ele, ao contrário do que a imprensa noticiara em 1975, ainda estaria vivo em 1985. 

A reabertura, no entanto, foi acompanhada por um detalhe sombrio: algumas das testemunhas convocadas a depor morreram logo depois de serem intimadas. Nenhuma dessas mortes foi formalmente associada ao processo por decisão judicial, mas a coincidência entrou para a crônica sombria do caso Ana Lídia como mais uma peça de um quebra-cabeça que a Justiça nunca terminou de montar. 

Imprensa noticia a rebertura do caso

Uma exumação controversa 

Em 1975, Alfredo Buzaid Júnior supostamente morrera tragicamente em um acidente automobilístico. Quando a Justiça autorizou a exumação do seu cadáver em 1986 para sanar dúvidas se ele realmente havia falecido ou se sua morte fora forjada para retirá-lo do país, uma trapalhada estarrecedora aconteceu. Os peritos desenterraram por engano o corpo de Felício Buzaid, avô do suspeito, falecido em 1966. 

Realizada uma segunda tentativa de exumação na sepultura correta, o cadáver apresentado trazia uma particularidade perturbadora: todos os dentes haviam sido removidos da arcada dentária. Como na época não existiam exames de DNA e a identificação dependia do confronto odontológico, a perícia ficou impossibilitada de comprovar cientificamente a identidade dos restos mortais.

Qual foi o desfecho do caso? 
 

Do ponto de vista judicial, o desfecho do Caso Ana Lídia representa um dos mais conhecidos episódios de impunidade da história jurídica brasileira. O irmão da vítima, Álvaro Henrique Braga, e o comerciante Raimundo Lacerda Duque chegaram a ir a julgamento, mas foram formalmente absolvidos por falta de provas conclusivas. 

Eduardo Resende cometeu suicídio anos mais tarde, em 1990. Alfredo Buzaid Júnior teve sua morte mantida nos registros oficiais após os suspeitíssimos laudos. Ninguém jamais cumpriu pena pelo rapto, tortura, estupro e assassinato da menina de 7 anos. O crime prescreveu formalmente sem apontar nenhum culpado aos olhos da lei. 

Parque infantil em Brasília homenageia Ana Lídia (Crédito: Reprodução)

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