O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) enviou técnicos ao Instituto Médico-Legal (IML) para realizar uma “perícia independente” nos corpos das vítimas da megaoperação das polícias Civil e Militar, realizada nesta terça-feira (28) nos complexos do Alemão e da Penha. A ação terminou com ao menos 136 mortos, entre eles quatro policiais, configurando a operação mais letal da história do estado.
Durante a madrugada desta quarta-feira (29), moradores da Penha levaram cerca de 60 corpos até a Praça de São Lucas, na Estrada José Rucas, em protesto contra a demora no recolhimento das vítimas. A cena, registrada em vídeos e fotos, evidenciou o colapso do atendimento estatal após o confronto armado que se estendeu por mais de 12 horas.
MPRJ envia técnicos e acompanha investigações
Em nota divulgada pela manhã, o MPRJ informou que a perícia independente será conduzida por especialistas do órgão, em conformidade com suas atribuições legais.
“O MPRJ informa ainda que técnicos periciais foram enviados ao Instituto Médico-Legal (IML) para a realização de perícia independente, em conformidade com suas atribuições legais. As informações referentes aos desdobramentos da operação foram encaminhadas pelo Plantão de Monitoramento para análise da 5ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada do Núcleo Rio de Janeiro”, afirmou o comunicado.
O órgão destacou que está acompanhando de perto os desdobramentos da operação e que todas as informações coletadas serão avaliadas pela promotoria responsável.
Moradores relatam horror na Penha
Moradores relataram que os corpos foram encontrados em uma área de mata entre os complexos do Alemão e da Penha, principal foco da operação. Testemunhas afirmaram que alguns cadáveres apresentavam marcas de tiros, ferimentos nas pernas e perfurações por faca nas costas.
Os corpos foram alinhados na Praça de São Lucas e cobertos por lençóis, enquanto familiares e amigos tentavam fazer o reconhecimento das vítimas sem qualquer apoio oficial. Uma Kombi foi improvisada para transportar parte dos corpos até o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, onde equipes médicas receberam dezenas de feridos e vítimas fatais.
A imagem de dezenas de corpos dispostos lado a lado chocou o país e reacendeu o debate sobre a política de segurança no estado.
Guerra urbana e quatro policiais mortos
A megaoperação, que mobilizou 2,5 mil agentes das polícias Civil e Militar, tinha como objetivo desarticular a estrutura do Comando Vermelho (CV), principal facção criminosa do Rio, e apreender fuzis de uso restrito. De acordo com a Secretaria de Segurança, foram apreendidas mais de 90 armas, entre elas fuzis de guerra, rádios comunicadores e 200 quilos de drogas.
Apesar do cerco e do uso de veículos blindados e helicópteros, parte dos criminosos conseguiu escapar por túneis e passagens subterrâneas entre casas e becos — uma estratégia semelhante à utilizada durante a invasão do Alemão em 2010.
Entre os mortos estão quatro policiais: Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho, comissário da 53ª DP; Rodrigo Velloso Cabral, da 39ª DP; e Cleiton Serafim Gonçalves e Heber Carvalho da Fonseca, ambos do Batalhão de Operações Especiais (Bope). O nome dos outros 124 mortos, todos civis, ainda não foram divulgados.
Operação sob questionamento
A escalada de violência e o número recorde de mortes provocaram reação de entidades civis, autoridades públicas e organismos internacionais de direitos humanos. O MPRJ, que já havia se posicionado em outras ações de alta letalidade, busca assegurar a independência das investigações e garantir que os procedimentos de perícia sigam protocolos internacionais.
A expectativa é que a perícia conduzida pelo Ministério Público ajude a esclarecer as circunstâncias das mortes e a verificar eventuais abusos ou irregularidades cometidos durante a operação.





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