MPF estuda pedir fechamento da rampa de voo livre da Pedra Bonita após mortes

Procurador avalia abrir inquérito civil para apurar condições da atividade em São Conrado, onde acidentes deixaram cinco mortos no último ano

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A sequência de acidentes fatais com asas-deltas e parapentes em São Conrado, na Zona Sul do Rio, pode levar o Ministério Público Federal (MPF) a pedir à Justiça o fechamento da rampa de voo livre da Pedra Bonita. Segundo reportagem do jornal O Globo, o procurador Daniel Prazeres estuda instaurar um inquérito civil público para investigar a atividade na região, onde cinco pessoas morreram no último ano.

O episódio mais recente ocorreu na segunda-feira e matou o piloto Luiz Eduardo Santos e o turista argentino Adrian Arismendi. As mortes colocaram novamente em discussão as condições de segurança dos voos duplos e a fiscalização de uma atividade que atrai milhares de visitantes.

Prazeres acompanha o assunto desde fevereiro, após o acidente de asa-delta que matou o piloto Rodolfo Pascoal Ladeira e a turista Jenny Colôn Rodríguez. Na ocasião, o procurador cobrou da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informações sobre sua atuação no setor. A abertura do novo inquérito e o eventual pedido de fechamento ainda estão em avaliação.

Fiscalização e comercialização dos voos

Em resposta ao MPF, a Anac reconheceu a baixa eficiência da fiscalização do esporte. A agência afirmou que “tal cenário evidencia a necessidade de reavaliação da estratégia de atuação em futuras diligências” e sugeriu parcerias com autoridades locais com maior presença no território, como as polícias militares.

As regras da agência exigem o cadastro dos pilotos em associações credenciadas e proíbem a comercialização de voos, com exceção daqueles destinados à instrução. A distinção entre aulas e passeios turísticos está no centro da controvérsia.

Somente em 2025, o Clube São Conrado de Voo Livre (CSCVL), responsável pela administração da rampa, contabilizou 60 mil voos duplos. A maioria das decolagens envolve turistas interessados em observar o Rio do alto.

O presidente do clube, Bruno Menescal, reconheceu que a oferta de voos panorâmicos utiliza uma brecha nas normas da aviação, sob o entendimento de que a experiência representa o primeiro contato do participante com o esporte.

Em circular enviada em 2023 a dirigentes de federações e entidades de voo livre, a própria Anac declarou não regulamentar a instrução remunerada nessa modalidade:

“A instrução remunerada para a garantia da continuidade do desporto é licita. Essa atividade de instrução não é regulamentada pela Anac e ocorre livremente dentro da comunidade praticante. Por isso, não é possível garantir a segurança de pessoas envolvidas nessa operação”.

O documento é assinado por Bruno Diniz Del Bel, superintendente de Padrões Operacionais.

Decisões judiciais já cobravam atuação da Anac

A responsabilidade pela fiscalização da atividade na Pedra Bonita já foi discutida na Justiça Federal. Em 2012, após uma sequência de acidentes, o MPF apresentou uma ação civil pública questionando a comercialização de passeios apresentados como aulas.

Na ação, o Ministério Público apontou que associações tratavam “ilegalmente como alunos aqueles interessados em um único passeio turístico”. Segundo o órgão, essa prática transmitia ao “cidadão a falsa impressão de que se trata de uma atividade regular e fiscalizada, o que não condiz com a realidade fática”.

Em sentença de 2013, o juiz Alfredo de Almeida Lopes destacou a necessidade de supervisão estatal:

“A suposta exploração econômica da atividade de voo livre exige a constante presença do Estado, através de sua atividade regulatória e fiscalizatória, especialmente se considerado que a atividade é de risco, não só para os próprios tripulantes do ultraleve que realiza voo duplo – quer seja para instrução, quer seja na prestação de serviço turístico –, como para terceiros em voo e no solo”.

A decisão foi confirmada pelo Tribunal Regional Federal e transitou em julgado. Embora alguns dispositivos do Código Brasileiro de Aeronáutica utilizados no julgamento tenham sido posteriormente revogados, a regulamentação da Anac manteve a proibição da venda de voos duplos, exceto para instrução.

Em voto de 2017, o desembargador Alcides Martins Ribeiro Filho reforçou a obrigação da agência de atuar:

“Resta evidente a competência da ANAC para regulamentar as regras mínimas em relação a veículos ultraleves e para apurar eventuais infrações administrativas, com a aplicação das devidas penalidades, não podendo a agência se furtar do poder-dever de agir nos casos em que estes estejam sendo utilizados em atividade de cunho econômico, com a cobrança por passeios turísticos que, de forma dissimulada, aparentariam ser voos de instrução (…) A ausência de fiscalização tem ocasionado elevado número de acidentes na rampa da Pedra Bonita, que atrai inúmeras pessoas interessadas na prática de voos duplos/panorâmicos, com propagandas inclusive divulgadas na mídia, situação que vem ocorrendo à margem da lei apesar da aparente veste de legitimidade, em razão da flagrante omissão do Poder Público”, diz trecho do voto.

Agência não detalha ações na Pedra Bonita

Questionada, a Anac não informou quantas fiscalizações realizou na Pedra Bonita nos últimos anos. Após o acidente desta semana, afirmou que “a operação de asa-delta tem natureza aerodesportiva e ocorre por conta e risco dos envolvidos”.

A agência também declarou que “pode solicitar informações, documentos e evidências que comprovem a regularidade da operação. Quando identificado o descumprimento das regras, a Agência pode adotar as medidas administrativas e sanções previstas na regulamentação, inclusive providências para interromper operações que representem risco à segurança”.

Em visita à rampa no domingo anterior ao acidente, a reportagem do Globo encontrou o espaço recentemente reformado, com sinalização e fiscais auxiliando nas decolagens. Segundo o jornal, quase todos os voos observados eram realizados com turistas.

Antes de entrar na fila, os participantes recebiam os equipamentos de segurança e orientações dos instrutores sobre a corrida para a decolagem. Um fiscal verificava a presença de itens como o paraquedas de emergência antes da saída.

A rampa fica no Parque Nacional da Tijuca, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A gestão do espaço é realizada pelo clube por meio de um acordo de cooperação com o instituto. O convênio termina no fim do ano e, segundo a associação, deve ser renovado.

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