Morre Victor Willis, policial do grupo Village People e coautor do hit ‘YMCA’, aos 74 anos

Cantor marcou a era disco, enfrentou uma longa batalha pelos direitos autorais de seus sucessos e retornou à banda em 2017

O cantor Victor Willis, vocalista original e coautor dos maiores sucessos do Village People, morreu aos 74 anos no início desta semana. A morte foi anunciada oficialmente pela banda nas redes sociais, que informou que o artista enfrentava uma doença considerada “curta mas agressiva”.

Nascido no estado do Texas e criado em San Francisco, nos Estados Unidos, Willis foi um dos principais nomes da era disco nos anos 1970. À frente do Village People, ajudou a transformar o grupo em um fenômeno internacional, interpretando personagens como um policial e, em diferentes apresentações, um oficial da Marinha, marca registrada da identidade visual da banda.

Além de emprestar sua voz às músicas, foi coautor de clássicos como Y.M.C.A, Go West e In The Navy, canções que atravessaram gerações e permanecem entre os maiores sucessos da música pop mundial.

Anúncio da morte

A confirmação foi feita em uma breve nota publicada nas redes sociais oficiais do Village People.

“Estamos profundamente tristes por anunciar a morte de VICTOR WILLIS, vocalista do Village People. Victor faleceu na segunda-feira 30 de junho de 2026 de uma doença curta mas agressiva. Privacidade é solicitada”, publicou a banda.

A esposa do cantor, Karen Huff Willis, também divulgou comunicado semelhante nas redes sociais do artista. Até o momento, a família não informou detalhes sobre a doença nem sobre as cerimônias de despedida.

Da igreja ao estrelato internacional

Filho de um pastor batista, Victor Willis iniciou sua trajetória musical ainda na infância, cantando músicas gospel na igreja onde seu pai pregava, em San Francisco. Mais tarde, passou a se dedicar ao jazz e ao soul.

Durante o ensino médio, integrou a banda The Ballads, que chegou a abrir apresentações do famoso grupo The Temptations. Também participou de sessões musicais com nomes como o lendário trompetista Dizzy Gillespie.

Após concluir os estudos, ingressou no teatro musical, conquistando um papel na montagem de Hair, em Las Vegas. O desempenho abriu as portas da Broadway, onde participou das produções Two Gentlemen of Verona e The Wiz.

Foi durante os bastidores de The Wiz que conheceu sua primeira esposa, a atriz Phylicia Rashad, posteriormente consagrada pela série The Cosby Show. Willis também colaborou na composição e gravação do álbum Josephine Disco, lançado por ela.

O nascimento do Village People

A carreira de Victor Willis mudou de rumo em 1977, quando conheceu o produtor francês Jacques Morali. Inicialmente contratado para gravar vocais de apoio em algumas músicas, ele acabou se tornando o principal intérprete do projeto que daria origem ao Village People.

Segundo relatos, Morali convenceu o cantor a assumir os vocais principais dizendo:

“Tive um sonho de que você cantava a voz principal do meu álbum e ele faria um enorme sucesso.”

A previsão se confirmou. O grupo conquistou sucesso internacional com os álbuns Macho Man e Cruisin’, ambos lançados em 1978. Foi neste último que surgiu Y.M.C.A, música que se transformaria em um dos maiores clássicos da história da música pop.

No ano seguinte, o Village People lançou Go West, disco que reuniu sucessos como a faixa-título, posteriormente regravada pelo Pet Shop Boys, além de In The Navy e I Wanna Shake Your Hand.

Na época, a revista Billboard definiu o trabalho do grupo como “alguns dos ritmos mais irresistíveis do pop/disco da atualidade”, enquanto o jornal The New York Times destacou os vocais de Willis, descrevendo sua interpretação como “rouca” e intensa.

Saída da banda e problemas pessoais

Victor Willis deixou o Village People em 1979, durante a pré-produção do filme Can’t Stop The Music, lançado no ano seguinte. A produção acabou fracassando nas bilheterias e contribuiu para o enfraquecimento comercial da banda.

Na tentativa de construir uma carreira solo, o cantor lançou o álbum Solo Man em 1979. No entanto, o trabalho permaneceu inédito por mais de três décadas e só chegou ao público em 2015.

Sem conseguir se desvincular da imagem criada pelo Village People, Willis enfrentou um longo período de dificuldades pessoais e desenvolveu dependência química.

Em entrevista concedida ao jornal San Diego Union-Tribune, em 2015, ele relembrou esse momento difícil de sua vida.

“Fiquei muito deprimido ao longo dos anos e decidi simplesmente desaparecer. Foi então que entrei no mundo das drogas.”

“Passei os anos 1980 e 1990… bem, fiquei completamente envolvido com as drogas, porque estava decepcionado com a forma como as coisas aconteceram, frustrado, desisti por um tempo e decidi que não queria mais fazer parte daquilo.”

“Tanta coisa havia sido tirada de mim que acabei recorrendo às drogas.”

A recuperação começou em 2006, quando concluiu um tratamento para dependência química determinado pela Justiça e cumpriu três anos de liberdade condicional.

Vitória na disputa pelos direitos autorais

No mesmo período, Victor Willis iniciou uma longa batalha judicial contra empresas que controlavam os direitos das músicas do Village People.

Com o apoio de sua segunda esposa, a advogada Karen Huff Willis, conseguiu uma vitória histórica em 2015, quando um júri federal reconheceu seu direito a 50% da propriedade de 13 músicas do grupo nos Estados Unidos, incluindo Y.M.C.A.

A decisão abriu caminho para seu retorno ao Village People em 2017, encerrando quase quatro décadas de afastamento.

Política e polêmicas em torno de Y.M.C.A

Nos últimos anos, Victor Willis voltou aos holofotes após Y.M.C.A ser adotada como trilha sonora de eventos políticos do presidente Donald Trump.

Em 2020, o cantor afirmou à BBC que não apoiava o então presidente e tentou impedir o uso da música em atos políticos.

“Eu não apoio Trump, nunca apoiei Trump, e o Village People também nunca o apoiou.”

“Mas, por causa das leis de direitos autorais dos Estados Unidos, ele pode tocar nossa música sempre que quiser.”

Apesar da posição manifestada anteriormente, Willis surpreendeu parte dos fãs ao aceitar participar da apresentação do Village People durante o evento que antecedeu a segunda posse presidencial de Trump, em janeiro de 2025.

Na ocasião, explicou que a decisão estava relacionada ao caráter universal da música.

“Sabemos que alguns de vocês não ficarão felizes ao ouvir isso, mas acreditamos que a música deve ser apresentada sem levar em consideração a política.”

“Nossa música Y.M.C.A é um hino global que, esperamos, ajude a unir o país após uma campanha tumultuada e profundamente dividida, na qual o candidato que apoiávamos foi derrotado.”

O cantor também contestava a definição de Y.M.C.A como um hino exclusivamente associado à comunidade LGBTQIA+, afirmando que essa interpretação era equivocada.

“Como já disse inúmeras vezes no passado, essa é uma interpretação equivocada, baseada no fato de que meu parceiro de composição era gay, alguns (não todos) integrantes do Village People eram gays e o primeiro álbum do grupo era totalmente voltado para a vida gay.”

Segundo Willis, a inspiração para a música surgiu a partir de suas observações sobre as unidades da YMCA em bairros urbanos de San Francisco.

“Essa foi a minha interpretação da música. Eu não sabia nada sobre o estilo de vida das outras pessoas que frequentavam esses locais.”

“Para mim, Y.M.C.A falava exatamente do que diz o último verso: ‘Eles podem ajudá-lo a recomeçar a sua vida’. Uma pessoa pode se hospedar no Ritz-Carlton, no Hilton ou em outros hotéis caros. Mas, se não tiver dinheiro para isso, pode acabar recorrendo à YMCA.”

Independentemente das diferentes interpretações sobre a canção, Y.M.C.A tornou-se um dos maiores sucessos da música mundial. Lançada em outubro de 1978, alcançou o primeiro lugar nas paradas de 17 países e ganhou uma coreografia que se tornou tradição em festas e celebrações ao redor do planeta.

Em 2020, a gravação foi preservada pelo National Recording Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos por seu valor cultural, histórico e estético, além de ser incorporada ao Grammy Hall of Fame, consolidando o legado de Victor Willis como um dos principais nomes da música disco.

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