Cinco Copas do Mundo, uma vitória que mudou as regras do futebol, um ônibus apedrejado e um empate que provocou festa nacional. Se alguém um dia disser que a Argélia é só mais uma seleção coadjuvante de Mundial, mande essa pessoa ler esta reportagem antes de repetir a groselha em público. A trajetória das Raposas do Deserto nas Copas é daquelas histórias em que a política, a guerra e a bola se misturam de um jeito que resume, em quatro décadas, o que significa carregar a bandeira de uma nação jovem e extremamente marcada pelo colonialismo brutal para dentro de campo. 

A seleção argelina chegou ao cenário mundial em 1982 como um país que ainda respirava os ares da independência, conquistada em 1962 após uma guerra sangrenta contra a França. Cada vitória, cada gol, era mais do que futebol: era a afirmação de uma identidade nacional recém-forjada, um grito de “existimos” no concerto das nações. E que grito. Porque, se depender de polêmica, a Argélia é uma das seleções mais cinematográficas que o futebol já viu. 

A Argélia ensinou ao planeta que o futebol é a única religião laica onde os milagres são homologados pela FIFA, mesmo que a própria entidade máxima do esporte às vezes pareça esquecer as regras da decência.  Do orgulho ferido em terras ibéricas à catarse coletiva nas ruas brasileiras de Porto Alegre, os argelinos transformaram os gramados em tribunais históricos de um planeta que sempre teimou em lhes dar as costas. 

O Arco de Trajano dentro das ruínas de Timgad, patrimônio da UNESCO na Argélia (Crédito: Reprodução)

Como é a trajetória da Argélia nas Copas do Mundo? 
 

Você nem reparou, né? Mas está é a quinta participação da Argélia no torneio (1982, 1986, 2010, 2014 e 2026). O detalhe curioso é que essas cinco participações não formam uma linha contínua de evolução. Depois da estreia retumbante em 1982 e de uma segunda aparição discreta em 1986, a seleção passou 24 anos fora da Copa, só retornando em 2010. Depois de 2014, ficou outros 12 anos fora do torneio, até garantir vaga para 2026. São hiatos longos demais para uma seleção do tamanho do talento que sempre revelou, o que só reforça o peso emocional de cada vez que o país volta a pisar num Mundial. 

O apelido mais famoso da seleção argelina é Les Fennecs, ou “As Raposas do Deserto” em português, uma referência direta ao fennec, a pequena raposa de orelhas enormes que vive nas dunas do Saara e é considerada símbolo nacional do país. O animal é ágil, resistente ao calor extremo e conhecido pela esperteza, características que a torcida local sempre gostou de associar ao estilo de jogo técnico e driblador de seus principais craques ao longo da história. Mas tem argelino que sofre do trauma da “Seleção Canarinho”. 

Existem apelidos alternativos pouco conhecidos fora do país, como o pomposo “Guerreiros do Deserto”, ou “Os Verdes”, que parece nome de movimento ambientalista, mas é uma alusão à cor principal do uniforme. Mas imagem da raposa do deserto carrega um simbolismo político sutil: é um animal do território argelino, associado à identidade do país recém-independente, o que reforça a leitura de que o apelido nasceu como uma afirmação de pertencimento nacional tanto quanto uma referência à fauna local. 

As fofinhas Fennecs, ou “raposas do deserto”, comemorando em recriação de IA

O contexto argelino  

Não tem como a gente avançar pulando essa parte.  A Argélia conquistou sua independência da França em 1962, depois de uma guerra sangrenta que deixou marcas profundas na sociedade e na memória coletiva do país. O próprio futebol havia sido palco de resistência política antes mesmo da independência. Em 1958, jogadores argelinos que atuavam em clubes franceses abandonaram suas carreiras para formar a seleção da Frente de Libertação Nacional, usando o esporte como instrumento diplomático para expor ao mundo a causa da soberania argelina, viajando para disputar amistosos.  

Por tudo isso, não é exagero dizer que, em 1982, cada resultado da Argélia em campo carregava um peso que ia muito além da tabela de classificação. Para uma seleção que buscava reconhecimento internacional e via no futebol uma extensão da própria narrativa de libertação, ser eliminado da Copa não por incompetência dentro de campo, mas por uma armação entre dois rivais europeus, foi recebido não como azar esportivo, e sim como uma injustiça histórica. 

O escrete da Frente Nacional de Libertação da Argélia em 1958 (Crédito: Reprodução)

Como assim? O que aconteceu? 
 

O episódio em questão ficou conhecido internacionalmente como “Jogo da Vergonha” ou Disgrace of Gijón, e na Alemanha ganhou o apelido irônico de “Pacto de Não Agressão de Gijón”. Foi em 25 de junho de 1982, no Estádio El Molinón, na cidade espanhola de Gijón, pela última rodada do Grupo B daquela Copa. A Argélia já havia cumprido sua tabela, terminando com quatro pontos após vencer a Alemanha Ocidental e o Chile e perder para a Áustria. Faltava a partida entre alemães e austríacos, e a matemática era clara: uma vitória simples da Alemanha por um ou dois gols de diferença classificava as duas seleções europeias e eliminava os argelinos pelo saldo de gols. 

O que aconteceu em campo entrou para a história como um dos maiores vexames da Copa do Mundo. Horst Hrubesch abriu o placar para a Alemanha logo aos dez minutos, e a partir daí as duas seleções simplesmente… pararam de jogar futebol” Durante eternos oitenta minutos, os times trocaram passes entre a defesa e o meio-campo sem qualquer intenção ofensiva, numa demonstração de “antijogo” que a imprensa mundial classificou como escandalosa. A reação da torcida foi instantânea.  Os 42 mil presentes no estádio vaiaram os jogadores, balançaram lenços brancos em protesto e passaram a gritar o nome da própria Argélia em solidariedade à seleção prejudicada. 

O Jornal O GLOBO descreveu o fiasco em detalhes para o público brasileiro (Crédito: Reprodução)

O vexame mundial 

O grau de indignação tornou-se histórico, mesmo nos países que se deram bem com a pilantragem. Na transmissão da emissora austríaca ORF, o comentarista Robert Seeger chegou a pedir ao vivo que os telespectadores desligassem a televisão em protesto contra o que estava sendo exibido, enquanto o narrador alemão da ARD sugeriu que o público trocasse de canal. Torcedores argelinos presentes ao estádio jogavam notas de dinheiro em direção ao gramado, e um torcedor alemão chegou a queimar a própria bandeira em sinal de repúdio. A Federação Argelina apresentou reclamação formal à Fifa. Mas a FIFA, que nunca nos decepciona, concluiu que nenhuma regra havia sido tecnicamente violada e manteve o resultado. O impacto, porém, foi grande demais para ser esquecido. 

A partir da Copa do Mundo de 1986, a Fifa alterou definitivamente o formato da fase de grupos, determinando que os dois últimos jogos de cada chave passassem a ser disputados simultaneamente, justamente para impedir que duas seleções entrassem em campo já sabendo exatamente qual resultado as beneficiaria em conjunto. A regra segue em vigor até hoje e é lembrada, ironicamente, como o principal legado deixado por uma Argélia que foi vítima e não beneficiária da mudança. 

Logomarca da Federação Argelina de Futebol

O Maluf argelino 

Um breve para o humor. Antes do confronto histórico contra os alemães, o icônico técnico argelino Mahieddine Khalef utilizou todas as ferramentas psicológicas disponíveis para inflamar o brio de seus atletas diante do ceticismo internacional. Reportagens da revista Afrique Asie publicadas na época revelam que Khalef chegou a prometer que cada jogador receberia um carro novo se conseguisse a façanha de derrotar a Alemanha Ocidental. 

No Brasil as declarações lembraram a Copa de 1970, quando Paulo Maluf, então prefeito daquela estranha cidade cinza ao Sul do país, prometeu um fusca aos jogadores se eles trouxessem a Taça Jules Rimet do México. 

Embora o incentivo material fosse atraente para atletas que ainda atuavam majoritariamente no pouco lucrativo futebol local argelino, os próprios jogadores relataram posteriormente que o deboche público dos atletas alemães nos hotéis e treinos foi o combustível real que os transformou em leões dentro de campo. 

Imagem de poster argelino em homenagem ao técnico Mahieddine Khalef, morto em 2024 (Crédito: Reprodução)

Uma vitória inédita para o continente africano 

O triunfo da Argélia por 2 a 1 sobre a Alemanha Ocidental marcou a primeiríssima vez na história das Copas do Mundo que uma seleção do continente africano derrotou uma equipe europeia em uma partida de fase final do torneio. De acordo com o livro oficial de recordes da FIFA, a Tunísia já havia vencido o México em 1978, mas o feito argelino contra uma superpotência europeia que ostentava dois títulos mundiais quebrou um enorme tabu psicológico. 

Essa vitória histórica abriu as portas para que o futebol africano passasse a ser respeitado de forma genuína pelos analistas internacionais, servindo de inspiração para as campanhas brilhantes que Marrocos, Camarões, Nigéria, Senegal e Gana realizariam nas décadas seguintes. 

O dramático “Jogo do ônibus” 

Se 1982 rendeu a maior injustiça, 2009 foi marcado pela maior tensão política das eliminatórias africanas envolvendo a seleção argelina. A disputa era pela última vaga direta da África para a Copa do Mundo de 2010, e opunha justamente Argélia e Egito, dois gigantes do futebol continental com rivalidade histórica. Na véspera da partida decisiva, disputada no Cairo em 14 de novembro de 2009, o ônibus que transportava a delegação argelina do aeroporto até o hotel foi apedrejado por torcedores egípcios, um episódio que a imprensa internacional batizou de “Jogo do ônibus”. 

A Argélia denunciou que jogadores haviam ficado feridos no ataque, acusação rechaçada pela federação egípcia, que classificou a versão argelina como mera invenção. Dentro de campo, ao menos dois jogadores argelinos, Khaled Lemmouchia e Rafik Halliche, pisaram o gramado com bandagens na cabeça, sinal visível dos ferimentos sofridos. O Egito precisava vencer por dois gols de diferença para forçar um desempate, e conseguiu justamente isso, com gol nos acréscimos do segundo tempo, resultado que empurrou as duas seleções para uma decisão em campo neutro. 

Khaled Lemmouchia, chegando ao estádio amparado pelos companheiros (Crédito: Reprodução)

A tensão política entra em campo 

O jogo de desempate precisou ser realizado em Cartum, no Sudão, em 18 de novembro de 2009, mas o clima entre os dois países ficou tão deteriorado que a Fifa exigiu garantias formais por escrito das autoridades egípcias sobre a segurança da delegação argelina. Mas mesmo antes do apito inicial a tensão havia extrapolado os limites do campo. 

Houve confrontos entre torcedores em Cairo e em Argel, com dezenas de feridos relatados de ambos os lados, ataques a comércios egípcios na Argélia, além de episódios de vandalismo protagonizados por descendentes argelinos até em Marselha, na França. Essa partida é considerada, até hoje, um dos capítulos mais tensos da história das eliminatórias justamente por essa combinação de violência de torcida, acusações cruzadas entre governos e a necessidade de mediação diplomática de países vizinhos para apaziguar os ânimos. 

A Argélia venceu o desempate por 1 a 0 e garantiu, com isso, o fim de um jejum de 24 anos sem disputar Copas do Mundo, o que deu ainda mais dimensão histórica a toda a confusão em torno da classificação. A Fifa, posteriormente, puniu o Egito com a obrigação de mandar duas partidas fora da capital na edição seguinte das eliminatórias, reconhecendo enfim a gravidade dos incidentes ocorridos no Cairo. 

A batalha campal nas ruas do Cairo (Crédito: Reprodução)

Slimani e a festa nas ruas argelinas 

Se existe ao menos um momento de pura felicidade coletiva na história recente do futebol argelino, ele aconteceu em 26 de junho de 2014, na Arena da Baixada, em Curitiba. Precisando apenas de um empate contra a Rússia para avançar, a Argélia saiu atrás no placar logo aos seis minutos, mas buscou o empate aos 15 do segundo tempo com um cabeceio de Islam Slimani, aproveitando cruzamento de Yacine Brahimi. O resultado de 1 a 1 garantiu, pela primeira vez na história, a classificação argelina para as oitavas de final de uma Copa do Mundo. 

A repercussão da classificação foi imediata e emocionante. Torcedores lotaram as ruas de Argel, Orã, Constantina, Sétif, Annaba, Bilda e outras cidades importantes do país, além de bairros de forte presença argelina em cidades francesas como Marselha e Paris. A seleção que nasceu ligada à luta pela independência, e que amargou a injustiça de 1982, finalmente vivia uma alegria proporcional ao tamanho simbólico que o futebol sempre teve para o país. A torcida argelina também marcou presença forte nos estádios brasileiros, sendo descrita como uma das mais fanáticas e animadas daquela edição da Copa, com destaque especial para o ambiente vivido no Beira-Rio, em Porto Alegre, palco tanto da goleada sobre a Coreia do Sul quanto do duelo posterior contra os alemães. 

Torcida argelina na Copa do Brasil (Crédito: Reprodução)

O jogo do acerto de contas 

A classificação também armou um reencontro carregado de simbolismo: nas oitavas de final, a Argélia enfrentaria justamente a Alemanha, a seleção que, direta ou indiretamente, havia carimbado sua eliminação 32 anos antes em Gijón. A partida, disputada em Porto Alegre, ficou longe de ser um passeio para os alemães. Resistindo bravamente durante os 90 minutos regulamentares graças à atuação decisiva do goleiro Rais M’Bolhi, a Argélia só cedeu na prorrogação, quando Mesut Özil ampliou o placar para os alemães, que venceram por 2 a 1, com o gol de honra argelino marcado por Abdelmoumene Djabou já nos instantes finais. 

Mesmo com a derrota, o resultado foi recebido em casa como uma espécie de acerto de contas simbólico, ainda que não literal, com o fantasma de 1982. A seleção retornou a Argel e foi recebida como heroína. Jogadores desfilaram em carro aberto pelas ruas da capital, em pleno mês do Ramadã,e  foram recebidos pelo primeiro-ministro Abdelmalek Sellal. Era a melhor campanha da história argelina em Copas do Mundo, e seguiria sendo até a tentativa de repetição do feito agora em 2026. 

Jogadores desfilam em carro aberto pelas ruas de Argel (Crédito: Reprodução)

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