Médico que cumpriu pena por crime sexual é acusado novamente por abuso em hospital no Rio

Um médico que já cumpriu pena por crime sexual está novamente sendo acusado de abusar de uma paciente e quando dava plantão no serviço público no Rio de Janeiro – no CER, do Centro. O RJ2 ouviu os relatos de mulheres que se dizem vítimas dele e contam que foram atacadas antes e depois da prisão do…

Um médico que já cumpriu pena por crime sexual está novamente sendo acusado de abusar de uma paciente e quando dava plantão no serviço público no Rio de Janeiro – no CER, do Centro.

O RJ2 ouviu os relatos de mulheres que se dizem vítimas dele e contam que foram atacadas antes e depois da prisão do médico, que ocorreu em 2019.

Salim Michel Yazeji, de 72 anos, é neurocirurgião, considerado um profissional de excelência, que passou pelos melhores hospitais públicos do Rio.

“Eu procurei um neuro pra poder, na época, fazer alguns testes de cognição pra saber se eu tinha algum desvio de déficit de atenção. Ele começou a fazer muitas perguntas que não tinham contexto. Mas quando você tem 18, 19 anos, fica difícil você entender o que faz parte da consulta e o que tá indo além da consulta. Então uma dessas perguntas era se eu tinha namorado, se eu me interessava em ficar com outras garotas. Se eu fazia sexo, a frequência”, lembra a mulher.

“E aí, a segunda parte, que é extremamente constrangedora, ele pede pra eu deitar na maca dele, e ele começa a me apalpar. E um lembro que ele apalpou os meus seios e depois ele vai descendo as mãos e tenta apalpar o meu ânus e a minha vagina. Ele tava apalpando o peito, e ele botou a mão por debaixo da blusa e quando ele foi apalpar por dentro da calcinha, , e ele: ‘Ih não posso mexer aí, tá sujinho’, porque na época eu tava menstruada”, disse uma vítima, sobre um caso ocorrido em 2008.

A mulher procurou a polícia, mas o caso foi arquivado na Justiça. As vítimas denunciam abusos desde 2008, mas apenas um caso registrado em 2016 foi a julgamento. Salim foi condenado a 4 anos e seis meses de prisão pelo crime de violação sexual mediante fraude, ou seja, ele se utilizou da consulta médica para abusar sexualmente da paciente.

Salim ficou preso 1 ano e dois meses e saiu em outubro de 2021, beneficiado pela lei que liberava detentos idosos por causa da pandemia . E mesmo depois de ter ficado atrás das grades por crime sexual, o médico não perdeu seu registro profissional .

Ele foi contratado inicialmente para atender no Hospital Municipal Sousa Aguiar, mas acabou atuando no CER do Centro. Foi lá que Salim Michel foi denunciado de novo por uma paciente. Segundo a nova vítima, ele cometeu o mesmo tipo de abuso, mais uma vez.

O médico foi desligado do CER e hoje tem um consultório particular em um shopping, na Barra da Tijuca, onde atende, inclusive, crianças.

A mulher que denunciou o caso que teria ocorrido em novembro conta que procurou atendimento no Souza Aguiar para um machucado na nádega, feito após uma injeção. De lá, foi encaminhada para o CER.

“Quando eu levantei o vestido, ele olhou o abscesso. Só que, Invés de ele só olhar o abscesso em si, ele tentou colocar a mão em mim. Tentou abrir a minha nádegas, com o dedão dele. Eu saí de perto pra ele não ter mais acesso ao meu corpo e abaixei o meu vestido”, diz a mulher.

“Ele começou a falar que o meu corpo era muito bonito. Perguntou se eu era casada, se o meu marido era ciumento, me elogiando. Perguntou também se eu fazia topless. Então nesse momento eu já tinha me desestabilizado total”, revela.

A mulher acrescenta que o médico perguntou então se ela tinha algo na vagina, quando ela decidiu ir embora e denunciar o caso. Mas ela afirma passou por dificuldades para fazer a denúncia.

“Pedi à menina da recepção ajuda pra ela chamar alguém que eu pudesse denunciar. Ela chamou o superior dela. No entanto o procedimento que eu teria que fazer seria com ele, mas eu não queria que fosse com ele. Chamaram uma médica. A médica ainda quis me induzir falando que ele não seria capaz. Supondo, pra mim, que ele era gay”, diz.

Ela também foi à Delegacia da Mulher, mas o médico nunca foi chamado a depor. “Fui na delegacia, prestei queixa contra ele e ele já tem várias ocorrências também. É recorrente isso dele”.

E, por último, denunciou o médico na prefeitura. “Recebi depois de 1,5 mês a 2 meses, mais ou menos, dizendo que ele não fazia mais parte da equipe do CER, o que pra mim não seria o suficiente”, relata.

Outra mulher que acusa o médico por um abuso que teria ocorrido em 2016 relata a sensação de vulnerabilidade que sentiu após os abusos.

“Ele começou com umas perguntas muito incabíveis. Se eu usava supositório, se eu gostava de usar supositório, se eu tinha prazer nas minhas relações sexuais, se eu chegava ao orgamos nas minhas relações sexuais. Ele ia muito pro lado sexual e pra mim aquilo não fazia sentido, né? Eu só tava com uma enxaqueca. Ele pediu pra eu abaixar a calça. Ele passou a mão na minha bunda. Ele pediu pra eu me virar, ele puxou a minha calça, passou a mão na púbis. Ele levantou a minha blusa, apertou meu peito e ele falou que a plástica tinha ficado ótima E daí ele me virou e me puxou contra ele, contra o corpo dele e eu senti que ele tava com ereção mas aí eu não consegui fazer nada”, lembra.

“Eu saí totalmente vulnerável. Eu só sabia chorar, chorar, chorar querendo achar a solução de denunciar ele. O que eu fiz foi chorar, chorar, chorar, compulsivamente Eu fui na delegacia, prestar queixa. Eu sabia que aquilo tava errado. Tanto é que eu saí do consultório chorando muito, muito, desesperada, sem acreditar que aquilo tinha acontecido comigo”, acrescenta.

As mulheres que foram tratadas com tanto desrespeito, não conseguem entender porque Salim Michel Yazeji continua trabalhando como médico, não perdeu o registro, nem foi punido pelo Cremerj.

“Eu queria entender qual é o limite do corporativismo do Conselho de Medicina. Eu queria muito entender isso. Por que esse médico continua com a carteira dele habilitada?”, diz uma vítima.

“Eles são permissivos, são corporativistas e coniventes. Ele não é só neurologista, ele é também neurocirurgião e aí você seda a vítima do lado desse médico. A vítima sedada, qual é a reação dela? Qual é a consciência dela pra ter a oportunidade de denunciar? E o Conselho Regional de Medicina está permitindo esse tipo de médico trabalhar aqui no Rio de Janeiro. Esse médico. Ele continua ganhando dinheiro. Ele continua fazendo vítimas. Quanto de psicólogo que eu gasto até hoje?”, diz a mulher.

“Eu fui no Cremerj inúmeras vezes pra repetir a história. A última vez que eu estive no Cremerj, ele tinha vindo também para participar do depoimento. Eu falei eu não faço depoimento de frente com ele. Eu não quero falar olhando pra ele. Eu não quero ter este desprazer de ter que olhar pra uma pessoa e saber que até agora, ele tá solto. Que ele continua fazendo a mesma coisa que fez comigo, com outras pessoas. Ele atende criança!”, se revolta

Enquanto Salim Michel Yazeji segue a vida, exercendo a medicina, as mulheres abusadas buscam formas de lidar com as lembranças, com as dores e com a impunidade, mas nem sempre conseguem.

“Algumas coisas, eu acho que a memória enquanto vítima, faz questão de apagar pra a gente também tentar conseguir seguir em frente. Quem se recupera? Quem se recupera de crime sexual? Onde você é vítima. Quem se recupera? Uma ferida que você aprende a lidar com ela, mas você nunca aceita. E ele não vai parar porque ele é um abusador. Ele é um abusador”, finaliza.

O RJ2 entrou em contato com Salim e ele não quis se pronunciar. A defesa dele alegou que não iria dar entrevista, neste momento, porque não tinha conhecimento oficial da denúncia.

A direção do Hospital Municipal Souza Aguiar (HMSA) disse que o médico não trabalhou na unidade. Ele chegou a ser aprovado em processo seletivo do edital 282/2021 da RioSaúde (Empresa Pública de Saúde do Rio de Janeiro), apresentando CRM ativo, mas não assumiu a função e não realizou nenhum plantão no HMSA ou outra unidade da RioSaúde.

No CER do Centro, Yazeji atuou entre maio e novembro de 2022, contratado pela SPDM, organização gestora da unidade.

Ele foi admitido, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, após participar de processo seletivo público em que atendeu aos critérios previstos no edital e apresentou toda a documentação comprobatória exigida – incluindo o CRM devidamente regular e ativo.

O médico, ainda segundo a secretaria, teve o contrato rescindido e não trabalha mais na unidade. A direção do CER Centro diz que contribui com a investigação na Justiça e no CREMERJ.

Não há registro de atuação de Salim Michel Yazeji em qualquer outra unidade da rede municipal.

O Cremerj disse que o médico foi julgado em janeiro de 2023 e que recebeu a punição de censura pública, que é a terceira mais alta conforme a legislação vigente.

A Polícia Civil diz que uma investigação sobre o médico está em andamento na Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) do Centro do Rio. Agentes realizam diligências para esclarecer os fatos.

As informações são do G1.

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