A inclusão do Complexo do Maracanã no relatório da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa (Alerj) reacendeu um debate que mistura política, futebol e poder no Rio de Janeiro.
O estádio, que passou a integrar o projeto de lei do governo estadual para venda de imóveis públicos, começou a ser visto como peça estratégica tanto nas finanças do estado quanto nas articulações eleitorais de 2026.
Maracanã vira ativo político
O projeto, aprovado na CCJ na quarta-feira (22), autoriza o governo estadual a vender bens públicos — inclusive os concedidos à iniciativa privada — para abater parte da dívida com a União. A presença do Maracanã na lista deu novo peso à proposta, já que o estádio é símbolo de prestígio e de apelo popular.
Presidente da comissão, o deputado Rodrigo Amorim (União Brasil) revelou que a inclusão do estádio foi discutida em uma reunião no gabinete do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), com o deputado Alexandre Knoploch (PL) e o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Batista, o Bap.
“Tivemos uma reunião recente com o presidente do Flamengo no gabinete do presidente Rodrigo Bacellar. E é fundamental que o Estado dê uma destinação ao estádio”, afirmou Amorim.
O encontro colocou o Flamengo diretamente no centro da discussão sobre o futuro do Maracanã, hoje concedido até 2044 ao consórcio Fla-Flu. O contrato prevê pagamento anual de R$ 20 milhões pela outorga e investimentos de R$ 186 milhões em 20 anos.

O que diz o projeto de lei
Pelo Projeto de Lei Complementar 40/2025, enviado pelo governador Cláudio Castro, o governo pode vender imóveis públicos mesmo que estejam ocupados. Nesse caso, caberá ao comprador negociar com o ocupante ou promover a desocupação sem custo para o estado.
Um dos trechos do texto prevê ainda que ocupantes regulares há mais de um ano e com obrigações em dia tenham prioridade na compra. A redação abre margem para que o consórcio Fla-Flu reivindique preferência em caso de leilão do estádio. O governo informou que o projeto é apenas autorizativo e que cada venda será analisada após aprovação da lei.
Flamengo, Gasômetro e estratégia eleitoral
A movimentação na Alerj tem impacto direto nas pretensões políticas de 2026. Caso o Flamengo desista de construir o novo estádio no Gasômetro — projeto apoiado pelo prefeito Eduardo Paes (PSD) — e opte por adquirir o Maracanã, o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, ganharia protagonismo na operação.
A eventual compra fortaleceria a imagem de Bacellar como articulador de uma solução definitiva para o estádio, enquanto enfraqueceria a narrativa de Paes, que tem usado o Gasômetro como símbolo da revitalização da Zona Portuária. Ambos são apontados como pré-candidatos ao governo estadual em 2026.
Um estádio no centro da disputa
A venda do Maracanã, estimada em até R$ 2 bilhões, também é vista como alternativa para reduzir parte dos R$ 12,3 bilhões que o estado deve pagar em 2026 apenas em serviço da dívida. Mas, nos bastidores, deputados avaliam que o valor político da operação pode ser ainda maior.
O movimento, dizem aliados de Bacellar, seria um “gol de placa” para sua campanha ao governo: ligaria seu nome ao estádio mais icônico do país e ao clube de maior torcida do Rio, enquanto deixaria o prefeito fora da jogada.
A pauta que começou como questão orçamentária, portanto, ganhou contornos de disputa política — e o Maracanã, mais uma vez, se transformou em campo de batalha entre o poder público e o futebol.






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