Lewandowski sinaliza saída do governo e Lula avalia dividir Ministério da Justiça

Possível recriação do Ministério da Segurança Pública ganha força, envolve disputa interna no PT e nomes como Andrei Rodrigues e Rodrigo Pacheco

A iminente saída do ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, reacendeu no Palácio do Planalto e no PT um debate sensível: a divisão do Ministério da Justiça e Segurança Pública e a recriação de uma pasta exclusiva para a Segurança Pública. A mudança, se confirmada, pode ter impacto direto na agenda política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na relação com o Congresso e na estratégia eleitoral do governo para enfrentar um dos temas que mais preocupam a população brasileira.

Lewandowski já comunicou a auxiliares que pretende deixar o governo, alegando “fim de ciclo” e cansaço após quase dois anos à frente da pasta. O anúncio oficial pode ocorrer ainda nesta semana, possivelmente próximo da cerimônia de 8 de Janeiro, quando o presidente Lula deve comandar um ato em memória da resistência democrática aos ataques golpistas de 2023.

Saída abre disputa política no Planalto

Fontes do governo dizem que Lula ainda tentará convencer Lewandowski a permanecer no cargo, ao menos por alguns meses. O ministro, no entanto, tem manifestado o desejo de retomar a advocacia privada, atuar como consultor jurídico e dedicar mais tempo à família.

A decisão recoloca na mesa uma pauta que vinha sendo tratada com cautela: a criação de um Ministério da Segurança Pública, separado da Justiça. A proposta chegou a ser discutida dentro do PT em seminário realizado no Rio de Janeiro, no fim de novembro, mas segue sem consenso.

Andrei Rodrigues surge como nome para Segurança Pública

Nos bastidores, o nome mais citado para comandar uma eventual pasta da Segurança Pública é o do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Auxiliares de Lula avaliam que a escolha teria peso simbólico e eleitoral, funcionando como resposta direta à preocupação da população com o avanço do crime organizado.

À frente da PF, Rodrigues acumula operações de grande repercussão, como a Operação Carbono Oculto, que investigou um esquema bilionário envolvendo o PCC no setor de combustíveis, com lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, adulteração de produtos e uso de fintechs para ocultar recursos.

A leitura no Planalto é de que sua nomeação reforçaria o discurso de enfrentamento ao crime e daria mais visibilidade à política de segurança do governo.

Justiça pode virar moeda política

Com a eventual divisão da pasta, Lula passaria a ter duas vagas estratégicas para distribuir. Para o Ministério da Justiça, um dos nomes cogitados é o do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), embora aliados apontem que ele hoje demonstra pouco interesse em continuar na vida pública após o fim do mandato.

Ainda assim, a possibilidade é vista como parte de um xadrez político maior, que envolve futuras indicações ao Supremo Tribunal Federal (STF), a relação com o Congresso e a própria sucessão presidencial, caso Lula dispute e vença um novo mandato.

PT dividido sobre o desmembramento da pasta

Dentro do PT, a divisão do ministério não é consenso. Lideranças como José Dirceu e o ex-secretário de Segurança Cidadã de Diadema, Benedito Mariano, defendem a criação de uma pasta exclusiva para a segurança. Já o secretário parlamentar do ministério, Marivaldo Pereira, é contrário à ideia e sustenta que a prioridade deveria ser a integração, e não a fragmentação.

Segundo ele, separar as áreas poderia esvaziar politicamente o Ministério da Justiça, reduzindo sua capacidade de articulação institucional.

PEC da Segurança Pública trava decisão

Em dezembro, Lula condicionou qualquer decisão sobre a divisão do ministério à aprovação da PEC da Segurança Pública, que define com mais clareza o papel da União na área. A proposta, elaborada sob a coordenação de Lewandowski, ainda tramita na Câmara dos Deputados e enfrenta resistência de governadores da oposição.

O atraso no envio e na tramitação da PEC, atribuído nos bastidores à Casa Civil, é apontado por interlocutores como um dos fatores de desgaste do ministro com o Planalto.

“Depois que aprovar a PEC, que definir o papel da União na segurança pública, nós vamos criar o Ministério da Segurança Pública”, afirmou Lula recentemente.

Mudanças já começaram no Ministério

Com a saída de Lewandowski cada vez mais próxima, o processo de transição já começou. Exonerações e remanejamentos foram publicados no Diário Oficial, e aliados relatam que o gabinete do ministro no Palácio da Justiça já começa a ser esvaziado.

Caso não haja divisão da pasta, o nome mais forte para assumir o ministério é o do secretário-executivo Manoel Carlos de Almeida Neto, braço direito de Lewandowski e homem de confiança de Lula, o que garantiria continuidade administrativa.

O que está em jogo

A eventual saída de Ricardo Lewandowski deve ser a primeira grande mudança ministerial de 2026 e pode acelerar uma reforma mais ampla no governo. Mais do que uma troca de nomes, a decisão envolve estratégia eleitoral, relação com o Congresso, combate ao crime organizado e a própria arquitetura institucional da segurança pública no Brasil.

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