Justiça mantém preso argentino acusado de injúria racial contra criança em Minas

Decisão nega novo pedido de liberdade, mas determina apuração de supostas agressões sofridas pelo estrangeiro dentro do presídio

A Justiça de Minas Gerais decidiu manter a prisão preventiva do argentino Eduardo Ignacio Murias, de 63 anos, acusado de injúria racial após um episódio envolvendo uma criança de sete anos durante uma viagem no trem turístico Maria Fumaça, entre São João del-Rei e Tiradentes. A decisão também determinou medidas para investigar denúncias de agressões físicas que o estrangeiro afirma ter sofrido enquanto estava preso.

O despacho foi assinado pelo juiz Renan Bueno Ribeiro, da Vara Criminal da Infância e da Juventude de São João del-Rei, e representa mais uma negativa aos pedidos apresentados pela defesa desde a prisão do acusado, ocorrida em 25 de maio. O processo corre sob segredo de Justiça.

Justiça vê risco de fuga e mantém prisão

Ao rejeitar a revogação da prisão preventiva, o magistrado entendeu que continuam presentes os requisitos que justificaram a medida cautelar. Entre eles estão a gravidade dos fatos investigados, a possibilidade de reincidência e o risco de fuga.

A decisão ressalta ainda que Murias é estrangeiro e não possui residência fixa, vínculos familiares ou atividade profissional em Minas Gerais, fatores considerados relevantes para a manutenção da custódia.

Denúncias de agressão no presídio

Embora tenha negado a liberdade, o juiz determinou a realização de exame de corpo de delito para verificar as denúncias de violência relatadas pela defesa. Também foi ordenado o registro de possíveis lesões e a adoção de providências para garantir a integridade física do preso, incluindo eventual mudança de cela.

O advogado Ciro Chagas criticou a decisão, argumentando que as agressões sofridas pelo cliente dentro da unidade prisional deveriam ter sido consideradas um fato novo capaz de justificar a revisão da medida cautelar. Segundo ele, a defesa continuará buscando a proteção dos direitos do acusado nos tribunais superiores.

Caso ocorreu em trem turístico

A investigação teve início após passageiros alertarem a mãe de um menino de sete anos de que o argentino estaria fotografando e filmando a criança sem autorização durante a viagem turística. Segundo a Polícia Civil, familiares tiveram acesso ao celular do suspeito e encontraram mensagens em espanhol com referências à cor da pele do garoto e comentários sobre levá-lo “como escravo”.

Com base no material, Murias foi preso em flagrante por injúria racial. A defesa sustenta que as mensagens faziam parte de conversas privadas e não configurariam crime, tese que ainda não foi analisada no mérito pela Justiça.

Recursos seguem pendentes

Os advogados aguardam o julgamento de um habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e de um recurso no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG), que questiona a legalidade do acesso ao celular do acusado sem autorização judicial.

Representante da família da criança, o advogado Gilberto Silva Pereira afirmou que a decisão reforça o combate aos crimes de racismo no país. A família também pretende buscar indenização por danos morais. Segundo a defesa da vítima, o menino recebe acompanhamento psicológico após apresentar sintomas como tristeza, angústia e alterações no sono.

Preso há cerca de duas semanas, Murias permanece detido enquanto aguarda a análise dos recursos apresentados por sua defesa.

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