A suspeita de vínculos com organizações criminosas levou a Justiça Eleitoral a negar o registro de 22 candidatos em seis estados nas eleições deste ano, segundo informações da CNN Brasil. O Rio de Janeiro concentra a maior parte dos casos, com 13 candidaturas barradas. A maioria dos atingidos ainda aguarda a análise de recursos nos tribunais regionais eleitorais e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
As decisões decorreram de contestações apresentadas pelo Ministério Público Eleitoral (MPE), que questionou 42 candidaturas em dez estados. Entre os registros contestados, outros sete foram autorizados pela Justiça Eleitoral, mas também dependem de uma decisão final do TSE.
Dos 22 candidatos barrados, 14 concorriam a deputado estadual, seis a deputado federal e dois a suplente de senador. Além dos 13 casos no Rio, houve três na Paraíba, dois no Acre, dois em Mato Grosso do Sul, um na Bahia e um no Amapá.
Segundo o MP Eleitoral, o TSE já consolidou o entendimento de que vínculos com organizações paramilitares ou similares podem impedir candidaturas mesmo sem condenação criminal definitiva. O órgão fundamenta essa posição na proibição constitucional de utilização de organizações paramilitares por partidos políticos.
Votação suficiente não garante mandato
Seis candidatos com registros rejeitados receberam votos suficientes para conquistar cadeiras no Rio de Janeiro e em Mato Grosso do Sul. Eles disputaram sob decisão judicial ainda sujeita a recurso, situação conhecida como sub judice. A validade dos votos depende do desfecho dos processos.
Em Mato Grosso do Sul, Jamilson Name (PP) obteve 35,2 mil votos para deputado estadual. Condenado a oito anos de prisão por participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro, ele aguarda o julgamento do recurso no TSE.
Em parecer sobre o caso, o vice-procurador-geral Eleitoral, Alexandre Espinosa, afirmou que “associações criminosas podem se organizar sob diversas formas de violência (bélica, política, econômica ou religiosa), de forma ostensiva ou subliminar”.
No Rio, Diego Alba (PSDB) recebeu 48,5 mil votos para deputado estadual, apesar da rejeição de seu registro pelo TRE. Ele foi condenado por participação em quadrilha armada especializada em assaltos a clientes de bancos.
Renato Machado (PT), que também concorreu à Assembleia Legislativa, somou 48,3 mil votos. O MP Eleitoral afirma haver provas de que ele lidera o núcleo político de um grupo criminoso atuante em Maricá, associado a uma narcomilícia da região. O candidato aguarda a análise de recurso.
Os outros três casos fluminenses são João Drumond (PRD), apontado pelo MP Eleitoral como ligado a grupos criminosos e ao jogo do bicho; Ricardo Abrão (PSDB), alvo de operação sobre uma suposta estrutura clandestina e armada de compra de votos; e Val Ceasa (PRD), cuja candidatura foi questionada por suspeita de vínculo com facção criminosa armada.
Canella e Ney Santos têm registros contestados no TSE
Entre os candidatos autorizados a disputar, Márcio Canella (União) foi o segundo deputado estadual mais votado do Rio, com 197,2 mil votos. Onze dias depois da eleição, ele foi preso pela Polícia Federal.
Embora o TRE tenha aprovado seu registro por maioria, o MP Eleitoral pediu ao TSE que revertesse a decisão após a prisão. No parecer, Espinosa sustentou haver indícios suficientes de ligação do político com milícias fluminenses e com o Comando Vermelho.
O órgão também recorreu contra a candidatura de Ney Santos (Republicanos) a deputado federal por São Paulo. Ele é réu em ação penal sob acusação de comandar organização criminosa e lavar dinheiro do tráfico de drogas.
Para Espinosa, provas robustas de vínculo com o crime organizado podem impedir o registro, independentemente de condenação criminal colegiada ou definitiva. O recurso ainda será julgado. A defesa de Santos nega a existência de indícios que o associem a organizações criminosas ou a práticas delitivas.
Ministério Público criou grupo para apoiar investigações
Das 42 candidaturas questionadas, 26 eram do Rio de Janeiro, quatro da Paraíba e três de São Paulo. Acre e Mato Grosso do Sul tiveram duas cada. Amapá, Bahia, Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Norte registraram um caso cada.
A maior parte das contestações envolveu disputas para deputado: 22 para estadual e 16 para federal.
No início do ano, o procurador-geral da República e chefe do MP Eleitoral, Paulo Gonet, apontou à CNN a influência do crime organizado como um dos principais desafios das eleições de outubro.
“Essas ameaças não atingem apenas candidatas e candidatos, mas comprometem a própria legitimidade das instituições democráticas”, afirmou Gonet.
Como medida preventiva, o MP Eleitoral criou, no fim de 2025, um grupo de trabalho para auxiliar procuradores e promotores. A equipe mantém contato com os Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaecos) e com os núcleos de inteligência dos Ministérios Públicos Federal, estaduais e do Distrito Federal e Territórios.







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