Diplomatas indígenas e quilombolas tomam posse pela 1º vez no Itamaraty

Turma reúne 60 aprovados, tem participação feminina recorde e inicia formação que seguirá até 2028 no Instituto Rio Branco

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A entrada dos primeiros diplomatas indígenas e da primeira mulher quilombola na carreira diplomática brasileira marcou a posse da nova turma do Itamaraty, em Brasília, informa a Agência Brasil. Os 60 aprovados integram um grupo considerado o mais diverso da história da instituição, com 27 pessoas de segmentos historicamente sub-representados e participação feminina recorde de 45%.

Entre os novos diplomatas estão Marcelo Kariri, do povo Kariri, Idjahure Terena, do povo Terena, e Helen Jaine Gomes Borgens, integrante da comunidade quilombola do Retiro, em Simolândia, no nordeste de Goiás.

O Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) de 2026 reservou, pela primeira vez, vagas específicas para indígenas e quilombolas. A turma também reúne 17 pessoas negras e sete pessoas com deficiência, além dos três ingressantes desses grupos.

Os aprovados farão o curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco, com início em 2026 e conclusão em 2028. A remuneração inicial da carreira é de R$ 22.558.

Diversidade na representação do Brasil

Na solenidade no Palácio Itamaraty, a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, defendeu que a composição da diplomacia reflita a diversidade da população brasileira.

“Em tempos de ameaças à democracia e aos direitos duramente reconhecidos na Constituição de 1988, celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas brasileiros nessa instituição bicentenária é um ato de resistência”, afirmou Laura da Rocha.

“Ao fazer isso, o Itamaraty reafirma com convicção o papel que esses grupos sociais têm e devem ter na definição da posição do Brasil no mundo”, declarou.

A ministra também destacou a ampliação do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia. Além de pessoas negras, a iniciativa passou a contemplar mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.

As ações afirmativas do concurso se inserem em uma trajetória de reivindicações dos movimentos de direitos humanos e de políticas previstas no Estatuto da Igualdade Racial, de 2010.

Para o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, o ingresso representa a concretização do conceito de “Aldear o Estado”, com a presença indígena em espaços técnicos que influenciam decisões nacionais e internacionais. Ele lembrou a trajetória histórica de desumanização dos povos originários.

“É um momento altamente simbólico. Não é apenas um ganho individual ou coletivo, é um ganho de toda a nação e do Estado brasileiro”, disse Terena.

Trajetórias passam pela engenharia e pela antropologia

Natural de Campina Grande, na Paraíba, Marcelo Kariri é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e tem MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Trabalhou como engenheiro de suporte a produtos entre 2021 e 2025 e é autor de um livro infantojuvenil.

“Havia uma tradição permeando onde minha família morava de que pessoas como nós enlouqueceriam se estudassem e deveriam ficar apenas nos trabalhos braçais”, contou na cerimônia. “Minha mãe viu na educação uma porta para a vida”.

Idjahure Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), mestre na mesma área pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela PUC-Rio.

Filho do artista Macsuara Kadiwéu, primeiro ator indígena do cinema brasileiro, ele relacionou sua chegada ao Itamaraty ao enfrentamento da exclusão histórica.

“Estrar no Itamaraty é ter consciência de toda essa história pretérita de exclusão e tutela, batalhando por um futuro ancestral e por um novo presente onde a nossa diversidade étnica finalmente integre o Estado”, avaliou.

Helen, de 25 anos, é formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Sua aprovação na vaga reservada a quilombolas tornou-a a primeira mulher quilombola a ingressar na carreira diplomática do país.

Krenak celebra presença das famílias

Convidado de honra e orador da cerimônia, o escritor Ailton Krenak participou com a farda da Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro indígena eleito integrante.

O intelectual destacou que a presença de famílias e crianças indígenas rompe com a frieza institucional e deixou uma mensagem aos novos diplomatas.

“Que mesmo diante das quase impossibilidades, eles sejam capazes de exercitar o verbo esperançar e produzir mundos ricos de sentido”, declarou.

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