O reconhecimento da cidadania italiana de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro ocorreu 58 dias após a apresentação dos documentos à Embaixada da Itália em Brasília. A informação foi confirmada pelo governo italiano nesta sexta-feira (6), durante um debate na Câmara dos Deputados sobre o passaporte utilizado por Flávio para deixar o Brasil após a derrota na eleição presidencial.
Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, a resposta provocou novos questionamentos da oposição sobre um possível tratamento privilegiado aos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. O governo negou irregularidades e afirmou que o processo respeitou a legislação vigente.
O intervalo de aproximadamente dois meses corresponde à análise da documentação, sem incluir o período anterior na lista de espera. Ainda assim, o prazo chamou a atenção diante da demora nos consulados italianos no Brasil, onde o procedimento costumava levar cerca de dez anos antes da mudança na Lei da Cidadania, em 2025.
Documentos foram apresentados em novembro de 2022
A subsecretária do Ministério das Relações com o Parlamento, Matilde Siracusano, informou que Eduardo foi o primeiro dos irmãos a solicitar entrada na lista de espera, em 2020. Carlos e Flávio fizeram o mesmo quase um ano depois, mas os pedidos foram examinados conjuntamente.
“Em 20 de outubro de 2021, depois de um ano do inserimento na lista de espera, Eduardo fez contato com o consulado da embaixada para pedir atualização sobre o estado do seu pedido”, disse Siracusano, integrante do Força Itália, partido do vice-premiê Antonio Tajani.
Os irmãos apresentaram os documentos em 8 de novembro de 2022, dias após a derrota de Jair Bolsonaro no segundo turno. A família descende de um parente que emigrou do Vêneto para o Brasil no século 19.
“A cidadania italiana foi reconhecida aos três irmãos Bolsonaro em 5 de janeiro de 2023. A documentação apresentada resultava completa e conforme às disposições então aplicáveis”, disse Siracusano.
O reconhecimento ocorreu dias depois da posse de Lula e três dias antes dos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília.
Flávio obteve o passaporte em 8 de novembro de 2023. Os documentos de Eduardo e Carlos foram emitidos entre abril e junho de 2024.
“O reconhecimento da cidadania italiana de Eduardo, Flávio e Carlos Bolsonaro ocorreu em respeito à normativa então vigente e aos procedimentos previstos”, disse a subsecretária.
Deputado anuncia denúncia à Justiça italiana
O debate foi solicitado pelo deputado Angelo Bonelli, da Aliança Verde e de Esquerda, que pediu esclarecimentos sobre a emissão do passaporte utilizado por Flávio na saída do Brasil rumo aos Estados Unidos, com passagem pela Argentina.
A suspeita de favorecimento na tramitação dos pedidos dos irmãos já era levantada havia anos por parlamentares de oposição. Na manifestação em plenário, a representante do governo não respondeu diretamente às acusações de tratamento privilegiado.
“É claro que depois dessa resposta é evidente que houve um procedimento acelerado”, disse Bonelli em sua réplica no plenário.
“É necessário apurar se houve da parte de algum membro do governo italiano uma solicitação, uma recomendação política para que os irmãos Bolsonaro que fogem da Justiça, Eduardo e Flávio, obtivessem o passaporte, enquanto existem italianos que esperam dez anos”, afirmou.
Após a sessão, o parlamentar anunciou que apresentará uma denúncia à Justiça italiana para apurar se houve “procedimento preferencial e pressões políticas, dada a proximidade entre o vice-primeiro-ministro [Matteo] Salvini e os irmãos Bolsonaro”.
Uso do passaporte amplia repercussão política
Entre os líderes da coalizão governista italiana, Salvini mantém a relação mais próxima com a família Bolsonaro. Flávio participou de um evento da Liga, partido do vice-premiê, na Itália em 2025.
Depois do primeiro turno das eleições brasileiras, Salvini comemorou o desempenho do senador, a quem chamou de “amigo”. Já a primeira-ministra Giorgia Meloni parabenizou Lula pela reeleição em uma nota divulgada no dia seguinte ao resultado.
O uso do passaporte italiano por Flávio para entrar na Argentina ganhou destaque na imprensa do país europeu. O episódio também remete ao caso da ex-deputada Carla Zambelli, que recorreu ao documento ao fugir da Justiça brasileira para a Itália.
A discussão ocorre enquanto o país debate os efeitos da legislação aprovada no ano passado, que restringiu o acesso à cidadania por descendência para pessoas nascidas fora do território italiano.







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