O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, abriu nesta terça-feira (22) a 81ª Assembleia Geral com um alerta sobre o avanço das guerras, a erosão do direito internacional e os riscos provocados pelo rápido desenvolvimento da inteligência artificial. Em seu último discurso no principal palco multilateral como chefe da organização, ele pediu maior cooperação internacional diante de uma redistribuição global de poder.
Prestes a concluir seu segundo mandato de cinco anos, que termina em dezembro, o português de 77 anos discursou em meio ao processo para a escolha de seu sucessor e a conflitos internacionais que permanecem sem solução.
“As linhas de fratura do nosso mundo estão se alargando. Rachaduras transformaram-se em cânions. Na última década, guerras eclodiram com consequências devastadoras e se prolongam com crueldade indiscutível”, afirmou Guterres. “Civis viraram alvo. Direitos Humanos foram atropelados. A fome foi usada como arma. Trabalhadores humanitários, mortos.”
O secretário-geral afirmou que a comunidade internacional enfrenta uma escolha sobre a maneira como o poder será exercido diante da multiplicação das disputas geopolíticas.
“Excelências, a questão resume-se a isto: vocês agirão para garantir que o poder seja regido pela lei ou pela força? Pela cooperação ou pela coerção? Pela responsabilidade para com os jovens e o futuro deles ou pela indiferença quanto ao destino que os aguarda?”, indagou.
Guterres alerta para perda de controle sobre a IA
Além das guerras, Guterres colocou a inteligência artificial entre os principais desafios para a governança mundial. Segundo ele, a velocidade de desenvolvimento da tecnologia começa a superar a capacidade humana de compreender plenamente suas consequências.
“Até mesmo aqueles que criaram a inteligência artificial estão nos dizendo que estão ficando cegos diante dela”, afirmou Guterres, ao destacar a velocidade com que a tecnologia vem evoluindo.
O secretário-geral relacionou o avanço tecnológico às mudanças mais amplas na distribuição de poder entre governos, empresas e sociedades.
“Não estamos diante de crises separadas. Estamos diante de capítulos da mesma história: a história do poder — como ele é usado e como está mudando.”
Para Guterres, os seres humanos já começam a transferir às máquinas capacidades que antes estavam exclusivamente sob controle humano.
“Os seres humanos estão cada vez mais delegando poder às máquinas. A inteligência artificial está em expansão, e armas autônomas estão deixando a ficção científica para se tornarem realidade militar. No entanto, nossas instituições e sistemas de governança continuam a refletir as dinâmicas de poder e os interesses de uma era em grande parte superada. Esse é o desafio decisivo que temos pela frente”, disse Guterres.
Risco da IA é comparado ao desafio nuclear
Durante o discurso, o secretário-geral comparou a necessidade de estabelecer mecanismos internacionais de controle da inteligência artificial à cooperação construída durante a Guerra Fria para reduzir os riscos associados às armas nucleares.
Guterres lembrou que, mesmo sendo adversários estratégicos, países rivais reconheceram a existência de riscos compartilhados e criaram canais destinados a evitar erros de cálculo, escaladas militares e possíveis catástrofes.
“A inteligência artificial exige a mesma clareza de propósito e o mesmo senso de urgência”, afirmou.
Segundo ele, o perigo está na combinação de “tecnologia sem responsabilização, capacidade sem supervisão e tomada de decisões sem transparência”.
Guterres defendeu que as nações que lideram o desenvolvimento tecnológico compartilhem informações sobre riscos emergentes, cooperem na realização de testes e avaliações e construam salvaguardas comuns.
Na avaliação do secretário-geral, a ONU é o único espaço internacional no qual todos os países podem participar da definição das regras que deverão orientar o futuro da inteligência artificial.
“Robôs assassinos não devem ter lugar no nosso futuro”
Guterres também chamou atenção para os efeitos da inteligência artificial sobre crianças e para o desenvolvimento de sistemas autônomos capazes de tomar decisões militares.
Ele defendeu regras internacionais para garantir que a tecnologia seja desenvolvida “pela humanidade, com a humanidade e para toda a humanidade”.
O secretário-geral afirmou que crianças não podem ser transformadas em cobaias de sistemas tecnológicos sem regulamentação e estabeleceu como limite a utilização de máquinas em decisões que envolvam vidas humanas.
“Robôs assassinos não devem ter lugar no nosso futuro”, declarou.







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