Especialista em América Latina prevê ações militares diretas dos EUA em países da região sob Trump

O jornalista estadunidense Jon Lee Anderson afirma que ofensivas poderiam ocorrer sob o argumento de combate ao narcotráfico e alerta para impactos sobre a soberania dos países da região

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O jornalista estadunidense Jon Lee Anderson, especializado na cobertura da América Latina, avalia que os Estados Unidos podem ampliar sua atuação militar no continente durante o governo de Donald Trump, com ações diretas em diferentes países sob o argumento de combate ao narcotráfico.

Repórter da revista The New Yorker desde 1998 e autor de uma biografia de Che Guevara, Anderson fez a avaliação em entrevista à BBC News Brasil publicada nesta segunda-feira (21). O jornalista acompanha a política latino-americana desde os anos 1980 e já escreveu perfis de personagens como Fidel Castro, Hugo Chávez e Gabriel García Márquez.

Para Anderson, o cenário atual representa um risco de escalada da atuação dos Estados Unidos na região.

“A próxima coisa que veremos é ação militar americana direta em diferentes países, supostamente contra o narcotráfico. Tudo isso é preocupante em termos do respeito à soberania entre as nações”, afirmou à BBC News Brasil.

A avaliação ocorre em um contexto de maior atenção do governo Trump ao combate ao narcotráfico no continente. Recentemente, a administração estadunidense comunicou ao Congresso a intenção de redirecionar US$ 52 milhões em recursos militares destinados anteriormente a países da Europa e do Oriente Médio para nações latino-americanas.

Anderson vê América Latina sob pressão

Na avaliação do jornalista, a política adotada pela Casa Branca tem reflexos sobre governos e lideranças de diferentes partes do continente. Anderson afirma que alguns políticos procuram se aproximar de Washington para obter vantagens políticas.

“Vivemos um momento perverso, e toda a América Latina também. Certos políticos usaram a relação com os EUA de forma oportunista, para se beneficiarem”, diz Jon Lee Anderson.

Segundo ele, a pressão não estaria limitada aos países latino-americanos.

“Até o Canadá está sendo tratado como se fosse a Coreia do Norte”, declarou.

Anderson também descreveu um cenário no qual líderes políticos poderiam temer entrar em conflito com o presidente dos EUA.

“Deus os livre de cair no lado errado de Trump: ele poderia fazer qualquer coisa para se livrar deles”, completou.

Cuba pode enfrentar mudanças após Raúl Castro, avalia jornalista

Questionado sobre a pressão dos EUA contra Cuba, Anderson afirmou não enxergar, neste momento, sinais de uma ruptura iminente do regime.

“Nunca diria ‘nunca’, mas não estou vendo isso. Os cubanos estão singularmente acostumados a aguentar privações. Já fizeram isso depois do colapso da União Soviética, durante cinco ou seis longos anos, o chamado período especial, quando Fidel ainda estava vivo, e foi terrível na ilha”, afirmou.

O jornalista considera, no entanto, que a morte de Raúl Castro poderia abrir espaço para transformações políticas por retirar de cena a última grande figura histórica da Revolução Cubana. Enquanto isso, avalia que a ilha permanece vulnerável economicamente.

Maduro e uma eventual relação com Lula

Anderson também foi questionado sobre rumores de que Nicolás Maduro poderia envolver o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em algum tipo de acordo. O jornalista afirmou desconhecer informações nesse sentido e demonstrou ceticismo sobre essa possibilidade.

“Não ouvi falar disso. E não sei se isso o ajudaria. Não consigo vê-lo fazendo isso. Qualquer coisa é possível neste mundo, já vimos gente mudar de lado. Mas Maduro, para salvar a própria pele e a da mulher, delatando abertamente todo mundo da esquerda, assim? Isso seria bastante chocante, nunca vimos algo assim.”, disse.

Na mesma resposta, Anderson lembrou Manuel Noriega, ex-líder do Panamá que entrevistou nos últimos anos de vida. Segundo o jornalista, Noriega não abandonou sua versão sobre os acontecimentos mesmo depois de ser preso, e pensa que Maduro seguirá o mesmo caminho.

“Manteve seus álibis até o fim”, disse Anderson sobre o panamenho.

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