Governo negocia indicação de aliada para relatoria de projeto que pede fim da escala 6×1

Planalto acelera negociações para avançar com redução da jornada de trabalho e vê pauta como estratégica para as eleições de 2026

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou as articulações nos bastidores da Câmara dos Deputados para garantir o comando político da tramitação das propostas que tratam da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6×1. A estratégia envolve a escolha de um nome alinhado ao Palácio do Planalto para assumir a relatoria do projeto considerado prioritário pela gestão petista.

Entre os nomes cotados para a função está o da deputada federal Daiana Santos, autora de uma proposta semelhante que já tramita na Câmara. As informações foram divulgadas pelo portal UOL.

A movimentação ocorre em meio à tentativa do governo de acelerar a tramitação das mudanças ainda no primeiro semestre de 2026. O tema passou a ganhar força após reuniões envolvendo ministros, parlamentares governistas e o presidente da Câmara, Hugo Motta, que decidiu destravar o debate sobre o assunto.

Nos bastidores, integrantes do governo avaliam que a pauta possui forte potencial de mobilização popular e pode se transformar em uma das principais bandeiras eleitorais do campo governista para as eleições presidenciais de 2026.

Estratégia do governo

A proposta em construção prevê a divisão da tramitação entre Propostas de Emenda à Constituição (PECs) e um projeto de lei complementar elaborado pelo governo federal.

Pelas discussões em andamento, as PECs ficariam responsáveis pelas mudanças estruturais da legislação trabalhista, incluindo a redução da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, preservação salarial e garantia de dois dias de descanso por semana.

Já o projeto de lei complementar deverá tratar de regras específicas para diferentes categorias profissionais e modelos de escala diferenciados.

Entre os temas que devem ser regulamentados estão negociações coletivas, jornadas especiais e sistemas como o modelo 12×36, no qual o trabalhador atua por 12 horas consecutivas e descansa pelas 36 horas seguintes.

A divisão das propostas é vista pelo governo como uma forma de facilitar as negociações políticas e reduzir resistências dentro do Congresso Nacional.

Daiana Santos ganha força

Nos corredores da Câmara, Daiana Santos passou a ser considerada uma das favoritas para assumir a relatoria da proposta defendida pelo Executivo.

O presidente da comissão especial responsável pelo debate, o deputado Alencar Santana, afirmou que a parlamentar é um “bom nome” para a função, embora tenha ressaltado que ainda não existe definição oficial.

Segundo ele, a escolha dependerá das negociações políticas conduzidas entre o Palácio do Planalto e a presidência da Câmara.

Enquanto isso, Daiana participa ativamente da elaboração do texto discutido pelo governo.

A deputada do PCdoB já possui um projeto semelhante protocolado desde 2026. A proposta prevê a redução da jornada semanal máxima para 40 horas e alterações nas regras relacionadas ao descanso semanal dos trabalhadores.

O texto avançou na Comissão do Trabalho da Câmara e recebeu parecer favorável do deputado Leo Prates no ano passado.

Prates também é o relator das PECs que discutem o mesmo tema na comissão especial.

Disputa nos bastidores

A tentativa do governo de garantir um aliado na relatoria expôs uma disputa política dentro da própria base governista pelo protagonismo da pauta.

Segundo parlamentares e assessores envolvidos nas negociações, há movimentações para concentrar o controle político da proposta em partidos mais próximos do Palácio do Planalto.

Nos bastidores, cresce a percepção de que Leo Prates estaria perdendo espaço nas articulações relacionadas ao projeto.

O deputado baiano, porém, evita comentar diretamente as negociações e atribuiu ao presidente da Câmara a responsabilidade pelas definições.

Ao ser questionado sobre o tema, afirmou que as decisões sobre tramitação e escolha da relatoria “são do Hugo”.

Outro ponto que influencia as negociações envolve uma questão regimental. Daiana Santos chegou a solicitar o apensamento do texto do governo ao projeto de sua autoria já em tramitação na Câmara.

Caso isso aconteça, porém, ela ficaria impedida de assumir a relatoria da proposta encaminhada pelo Executivo, conforme as regras internas da Casa.

Pressa para votar

O governo trabalha para acelerar a votação ainda neste semestre.

Leo Prates pretende apresentar o parecer da PEC na próxima quarta-feira (20), enquanto a votação na comissão especial está prevista para ocorrer em 26 de maio.

Após essa etapa, o texto ainda precisará passar pelo plenário da Câmara dos Deputados e, posteriormente, pelo Senado Federal.

Integrantes do Planalto avaliam que a redução da jornada de trabalho possui grande apelo entre trabalhadores do setor de serviços, jovens empregados e categorias submetidas à escala 6×1, modelo frequentemente alvo de críticas por especialistas em saúde e relações trabalhistas.

A expectativa do governo é usar a pauta como símbolo de valorização do trabalhador e ampliação de direitos sociais em meio à preparação para a disputa eleitoral de 2026.

Pauta estratégica para 2026

Dentro do Palácio do Planalto, a avaliação é que o debate sobre a jornada de trabalho pode ajudar o governo a fortalecer sua conexão com a classe trabalhadora e setores urbanos.

A proposta também passou a ser tratada como uma resposta política às cobranças de movimentos sindicais e organizações trabalhistas que defendem mudanças nas regras atuais da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

O tema, no entanto, ainda enfrenta resistência de setores empresariais e de parlamentares ligados ao mercado, que demonstram preocupação com os impactos econômicos da redução da carga horária sem diminuição salarial.

Mesmo assim, o governo pretende manter a pauta no centro das discussões legislativas ao longo dos próximos meses.

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