A ameaça de um novo tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros elevou a tensão diplomática entre Brasília e Washington. Em nota divulgada nesta terça-feira (2), o governo federal manifestou “indignação” diante da conclusão preliminar do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que recomendou a imposição de tarifas de 25% sobre todas as importações oriundas do Brasil.
No documento, o governo não apenas critica a iniciativa americana, mas também faz duras acusações contra integrantes da oposição, citando a família Bolsonaro, classificando-os como “falsos patriotas” que estariam atuando contra os interesses nacionais.
Segundo a nota, a investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos teve início em julho de 2025 e estaria relacionada a articulações promovidas por integrantes da família Bolsonaro. O governo também cita nominalmente a recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington, associando-a às pressões que culminaram na recomendação de novas sanções comerciais.
Governo vê motivação política
No comunicado, o Planalto sustenta que não existe justificativa econômica para a adoção de medidas contra o Brasil. A avaliação do governo é de que a ofensiva tem caráter político e representa uma tentativa de interferência em assuntos internos do país.
O texto afirma ainda que “todo o trabalho de diálogo e articulação” realizado pelo governo brasileiro, inclusive com participação direta dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, estaria sendo prejudicado por interesses eleitorais e familiares.
Um dos trechos mais contundentes da nota é aquele em que o governo acusa opositores de conspirarem contra o país. “Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais”, afirma o documento.
Defesa do Pix e dos interesses brasileiros
A nota também demonstra preocupação com a inclusão do Pix entre os temas citados pelo USTR. O governo considera que o sistema de pagamentos instantâneos, criado pelo Banco Central, foi mencionado de forma indevida e o classifica como um patrimônio brasileiro.
Para reforçar sua argumentação, o Planalto destaca números do comércio bilateral. Segundo dados citados no documento, os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços nas relações com o Brasil entre 2011 e 2025.
O governo afirma ainda que, em 2025, cerca de 76% das importações norte-americanas entraram no Brasil sem pagamento de imposto de importação. A alíquota média efetivamente cobrada sobre produtos dos Estados Unidos teria sido de apenas 3,1%.
Negociações continuam
Apesar da reação contundente, o governo informa que as negociações comerciais entre os dois países seguem em andamento. A expectativa é que a investigação seja encerrada até 15 de julho sem a aplicação efetiva das tarifas propostas.
Caso isso não aconteça, o Brasil poderá recorrer aos instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso Nacional, para responder às medidas consideradas injustas.
O comunicado conclui afirmando que o governo tomará todas as providências necessárias para proteger a economia brasileira, os empregos e a renda da população, além de defender a soberania nacional diante das pressões externas.
Íntegra da nota do governo federal
“Governo brasileiro manifesta indignação com a conclusão preliminar anunciada ontem (1/6) pelo USTR relativa à investigação da Seção 301 contra alegadas práticas comerciais desleais do Brasil.
Essa investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington.
Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais.
É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o Governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos Presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares.
Não havia e não há justificativa para essas medidas unilaterais contra o nosso país ou contra patrimônios brasileiros como o PIX, mencionado explicitamente nas recomendações preliminares.
Segundo estatísticas do Bureau of Economic Analysis, os EUA acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos (2011-2025).
Só no ano passado, o superávit comercial de bens dos EUA com o Brasil totalizou US$ 14,46 bilhões. Considerando bens e serviços a cifra sobe a US$ 40,52 bilhões.
Em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação.
Oito dos dez principais produtos importados dos Estados Unidos pelo Brasil tiveram tarifa efetiva zero, incluindo petróleo e derivados, aeronaves, gás natural e carvão.
A alíquota média efetivamente cobrada dos produtos norte-americanos no Brasil foi de apenas 3,1%.
O principal efeito das tarifas unilaterais, politicamente motivadas, aplicadas ao nosso país tem sido impor danos à economia nacional e à geração de emprego e renda, além de diminuir o papel dos EUA como nosso parceiro comercial.
No primeiro trimestre de 2026, a participação dos EUA nas exportações brasileiras atingiu o menor valor da série histórica ao somar 9,4%.
Conforme acordado pelos Presidentes Lula e Trump por ocasião da reunião em Washington no dia 7 de maio, estão em curso negociações tarifárias entre os dois países em busca de soluções que resultem no encerramento da investigação da Seção 301, previsto para 15 de julho, sem imposição de medidas contra o Brasil.
O Governo brasileiro também dará continuidade ao diálogo com o setor privado com esse objetivo.
O Brasil se reserva o direito de recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, para fazer face a situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas regras do comércio internacional.
O Governo reafirma a expectativa de que as recomendações não se convertam em tarifas efetivas, mas reitera que adotará toda e qualquer medida capaz de reduzir os danos que venham a ser causados à economia, aos empregos e à renda dos brasileiros.
É preciso estar atento aos traidores da pátria e trabalhar em defesa da nossa soberania e dos interesses do povo brasileiro.”






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