Servidora excluída do Itamaraty por comissão racial poderá tomar posse após acordo com a AGU

Flávia Medeiros havia sido excluída dos quadros do Ministério das Relações Exteriores após não ser reconhecida como negra por comissão de heteroidentificação

Uma disputa judicial envolvendo o sistema de cotas raciais no concurso do Itamaraty teve um novo desfecho nesta segunda-feira (15). A Advocacia-Geral da União (AGU) anunciou um acordo que permitirá a posse da oficial de chancelaria Flávia Medeiros, que havia sido excluída dos quadros do Ministério das Relações Exteriores após não ser reconhecida como candidata negra pela comissão de heteroidentificação do concurso.

A solução foi construída poucos dias antes de o caso ser analisado pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), onde estavam previstos julgamentos de recursos relacionados ao processo.

O acordo ainda depende de homologação judicial para entrar em vigor.

Entenda o caso

Flávia Medeiros participou do concurso público realizado em 2024 e disputou uma vaga reservada às cotas raciais. Durante o processo de heteroidentificação, porém, a candidata foi enquadrada pela banca examinadora como pessoa branca, o que resultou em sua exclusão da disputa pelas vagas destinadas a candidatos negros.

A servidora recorreu à Justiça e obteve uma decisão favorável que garantiu sua posse. No entanto, posteriormente houve uma reversão judicial que levou à sua exoneração do cargo pouco mais de um mês após assumir a função.

Desde então, o caso passou a tramitar em instâncias superiores.

Acordo encerra disputa

Segundo a AGU, a solução consensual coloca fim à controvérsia jurídica discutida no mandado de segurança movido pela candidata.

Com a homologação do acordo, a União adotará os procedimentos administrativos necessários para viabilizar uma nova nomeação e posse de Flávia Medeiros no cargo de oficial de chancelaria.

O entendimento firmado estabelece que a posse produzirá efeitos apenas a partir de sua efetivação, sem pagamento retroativo de salários ou outros benefícios referentes ao período anterior.

Em contrapartida, a servidora concordou em renunciar a eventuais pedidos de indenização, remuneração retroativa ou outras compensações financeiras relacionadas ao processo.

Debate sobre heteroidentificação

O caso ganhou repercussão nacional por envolver os critérios utilizados pelas comissões de heteroidentificação em concursos públicos.

Flávia sempre sustentou que se considera uma mulher parda e negra de pele clara. Antes da controvérsia, ela havia participado de iniciativas voltadas a candidatos cotistas e chegou a integrar o comitê étnico-racial do Ministério das Relações Exteriores.

A discussão reacendeu debates sobre os mecanismos utilizados para validar autodeclarações raciais e sobre a necessidade de aperfeiçoamento dos procedimentos adotados em concursos públicos federais.

Governo fala em corrigir falhas

Durante a cerimônia de assinatura do acordo, o advogado-geral da União, Jorge Messias, afirmou que a conciliação busca preservar a legalidade e corrigir uma situação considerada inadequada.

Segundo ele, o episódio deve servir como ponto de partida para uma reflexão sobre possíveis aperfeiçoamentos nos processos de heteroidentificação utilizados pela administração pública.

Messias também defendeu que o Estado precisa aprender com situações semelhantes para evitar que novos casos gerem controvérsias judiciais.

Processo será encerrado

Após a homologação judicial, o acordo encerrará definitivamente a ação que discutia a permanência da servidora no Itamaraty.

Com isso, Flávia Medeiros poderá retornar ao cargo, encerrando uma disputa que se arrasta desde o concurso realizado em 2024 e que se transformou em um dos casos mais debatidos sobre políticas de cotas raciais na administração pública federal.

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