Fux diverge, mas STF confirma medidas restritivas contra Bolsonaro

Ministro foi o único da Primeira Turma do Supremo que não teve passaporte para os EUA revogado

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi o único a votar contra a manutenção das medidas cautelares impostas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), como o uso de tornozeleira eletrônica e restrições de circulação. A decisão, no entanto, foi confirmada pela maioria da Primeira Turma da Corte, formada por Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin.

A informação foi divulgada na noite desta segunda-feira (21) e conclui a votação iniciada na sexta-feira anterior, data em que as medidas passaram a valer. Bolsonaro é investigado por tentar interferir no julgamento da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro, processo no qual é réu. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), o ex-presidente teria financiado atos contrários à democracia no exterior com o objetivo de influenciar o processo judicial.

As medidas impostas incluem o uso de tornozeleira eletrônica, proibição de deixar a residência entre 19h e 6h, aos fins de semana e feriados, além de impedimentos para visitar embaixadas, manter contato com investigados — inclusive seus filhos Carlos e Eduardo Bolsonaro — e utilizar redes sociais.

Na decisão que determinou as cautelares, o relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, apontou risco concreto de fuga e tentativa de obstrução das investigações. Ele também citou indícios de três crimes: coação no curso do processo, obstrução de investigação e atentado à soberania nacional.

Em seu voto, Luiz Fux divergiu da maioria ao considerar as medidas excessivas e desproporcionais diante das garantias constitucionais:

“[…]Em decorrência dessa constatação, verifico que a amplitude das medidas impostas restringe desproporcionalmente direitos fundamentais, como a liberdade de ir e vir e a liberdade de expressão e comunicação, sem que tenha havido a demonstração contemporânea, concreta e individualizada dos requisitos que legalmente autorizariam a imposição dessas cautelares. Deveras, mesmo para a imposição de cautelares penais diversas da prisão, é indispensável a demonstração concreta da necessidade da medida para a aplicação da lei penal e sua consequente adequação aos fins pretendidos. À luz desses requisitos legais, não se vislumbra nesse momento a necessidade, em concreto, das medidas cautelares impostas[…]”, disse o ministro em seu voto.

Apesar da divergência, o voto de Fux não teve efeito prático. As restrições seguem em vigor e, caso Bolsonaro desrespeite qualquer uma delas, poderá ser preso preventivamente conforme prevê o Código de Processo Penal.

Na esfera penal, o ex-presidente ainda não foi condenado. A PGR já pediu sua condenação, junto à de sete aliados, por envolvimento na tentativa de golpe. As defesas têm prazo para apresentar resposta, e o STF ainda marcará o julgamento.

Fux também foi um dos poucos integrantes do Supremo que não teve o visto estadunidense revogado. Além dele, os ministros André Mendonça e Nunes Marques — ambos colocados no STF por Bolsonaro — ficaram de fora da medida anunciada por Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA. A retaliação teria como alvo o relator Alexandre de Moraes e seus “aliados na Corte”, segundo justificativas ligadas ao governo de Donald Trump, que classificou os processos contra Bolsonaro como “caça às bruxas”.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading