França mergulha em impasse após queda de primeiro-ministro

Pressão sobre Macron aumenta, após Assembleia Nacional derrubar governo; presidente pode até convocar novas eleições

A crise política na França se aprofundou nesta segunda-feira (8), após a Assembleia Nacional aprovar uma moção de censura contra o primeiro-ministro François Bayrou. Foram 364 votos a favor e 194 contrários, resultado que força a saída imediata do premiê e mergulha o país em um quadro de instabilidade institucional, informam as agências internacionais.

Bayrou, de 74 anos, havia ele mesmo convocado a votação no fim de agosto, depois da forte resistência ao seu projeto de austeridade orçamentária para 2026. Sua coalizão, com pouco mais de um terço dos deputados, já era considerada incapaz de resistir ao embate.

Menos de nove meses no posto

Com o desfecho, o centrista deixa o cargo após apenas nove meses no posto, sucedendo outro premiê de curta duração, Michel Barnier, que governou por apenas três meses.

Macron diante de três caminhos

Agora, todas as atenções se voltam para o presidente Emmanuel Macron, que deve receber formalmente a renúncia de Bayrou nesta terça (9). Ele terá três opções sobre a mesa: indicar um novo primeiro-ministro para tentar formar maioria no Parlamento atual; dissolver a Assembleia e convocar novas eleições legislativas; ou, em um gesto extremo, renunciar ao cargo, antecipando a disputa presidencial marcada para 2027.

Macron está no poder desde 2017 e não pode concorrer a um terceiro mandato. O impasse evidencia a falta de estabilidade política desde as eleições legislativas de 2024, quando nenhuma força conquistou maioria clara.

Oposição pressiona por novas eleições

A líder do partido de ultradireita Reunião Nacional (RN), Marine Le Pen, foi enfática ao defender a dissolução do Parlamento. “Convocar novas eleições legislativas não é uma opção, mas uma obrigação”, disse no plenário. Para ela, o resultado simboliza “o fim da agonia de um governo fantasma” e abre caminho para “preparar a grande alternância” de poder.

O RN lidera as pesquisas tanto para uma eventual eleição legislativa quanto para a presidencial. Le Pen, no entanto, enfrenta risco de inelegibilidade em razão de um processo por desvio de fundos do Parlamento Europeu, cujo recurso será julgado em janeiro.

Caso ela seja barrada, o nome mais forte da sigla seria o de Jordan Bardella, jovem pupilo da deputada e atual presidente do partido, que completa 30 anos neste mês.

Greves ampliam o clima de tensão

Enquanto a elite política negocia saídas, a população se organiza para um protesto de grandes proporções. Para esta quarta-feira (10) está convocada a paralisação nacional apelidada de Bloquons Tout (“Vamos bloquear tudo”). Segundo pesquisa do jornal La Tribune du Dimanche, 46% dos franceses apoiam a mobilização, 28% se dizem contra e 26% afirmam estar indiferentes.

O movimento, descentralizado, enfrenta divisões entre sindicatos e partidos de oposição, o que já levou ao anúncio de uma nova rodada de greves para 18 de setembro. Ainda assim, o risco de bloqueios em transporte, serviços públicos e setores estratégicos aumenta a sensação de incerteza no país.

O discurso de despedida

Na Assembleia, Bayrou tentou justificar sua decisão de arriscar o mandato. “O maior risco é deixar as coisas continuarem sem mudar nada”, afirmou. Recorreu a metáforas ao comparar a França a um paciente em hemorragia e a um barco a caminho do naufrágio. “Se quisermos salvar o navio, temos que agir sem demora. Há 51 anos, todos os anos gastamos mais do que os recursos disponíveis para o ano”, disse, sob vaias e interrupções de deputados oposicionistas. Em tom irônico, respondeu: “Isso me permite beber água, boa ideia”.

O ex-premiê também rebateu propostas de aumento de impostos para os mais ricos, defendidas por líderes socialistas como Olivier Faure, cogitado para sucedê-lo. Para Bayrou, a medida é um “pensamento mágico” inconstitucional, que levaria à fuga de capitais. “O 1% dos contribuintes mais ricos assume uma grande parte dos investimentos privados”, argumentou.

Próximos passos

Entre os nomes cogitados para substituir Bayrou estão ministros do próprio governo, como Éric Lombard (Economia), Gérald Darmanin (Justiça), Catherine Vautrin (Trabalho e Saúde) e Sébastien Lecornu (Exércitos). O problema, avaliam analistas, é que todos seriam percebidos como continuidade de uma gestão reprovada e enfrentariam as mesmas dificuldades no Parlamento. Outra possibilidade seria apostar em um perfil da esquerda moderada, como Faure, mas a direita já sinalizou resistência.

Com o governo derrubado, a França se encontra em uma encruzilhada: ao mesmo tempo em que busca um novo equilíbrio político, encara mobilizações sociais que podem paralisar o país e acelerar mudanças profundas no cenário eleitoral.

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