A relação entre o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz entrou no radar da Polícia Federal após investigadores identificarem viagens internacionais feitas pelos dois, além do uso de imóveis e aeronaves. Tomaz é investigado sob suspeita de envolvimento em uma estrutura financeira e patrimonial ligada ao escândalo de fraudes no INSS.
Segundo reportagem do jornal O Globo, a PF identificou pelo menos cinco viagens internacionais realizadas pelos dois no primeiro semestre de 2025. Os registros foram localizados após a corporação analisar o celular e a caixa de e-mails do advogado, apreendidos em buscas realizadas em seu escritório. Fotografias, reservas, registros de voos e documentos de aluguel de veículos ajudaram a reconstruir os deslocamentos.
A proximidade também passou a produzir questionamentos durante a campanha presidencial. No mês passado, Tomaz cedeu a Flávio um apartamento na Vila Nova Conceição, área nobre da Zona Sul de São Paulo. Adversários recorreram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sustentando que a cessão deveria ter sido declarada como doação à campanha.
O imóvel ainda chamou atenção por uma ligação anterior com personagens investigados no caso do Banco Master. Segundo a revista piauí, antes de ser adquirido por Tomaz, o apartamento pertencia a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco.
Tomaz afirma que “jamais manteve” relação pessoal, comercial ou societária com Zettel ou Vorcaro. Ele não respondeu sobre a utilização do apartamento por Flávio.
Safári na África do Sul e viagens pela Europa
Em março de 2025, nove meses antes do lançamento da candidatura de Flávio à Presidência, o senador viajou com familiares e amigos para a África do Sul. O roteiro de uma semana incluiu um safári e contou também com Tomaz e o senador Weverton Rocha (PDT-MA), outro investigado no caso do INSS.
Uma das fotografias encontradas pela PF mostra Flávio, Weverton e Tomaz acompanhados de crianças em uma região de savana. Os três aparecem com camisetas semelhantes, estampadas com animais e a expressão “Big Five”, utilizada em safáris para designar elefante, leão, leopardo, rinoceronte e búfalo.
Flávio afirmou manter “relação de amizade” com Willer “legítima” e que “qualquer tentativa de insinuar irregularidade a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”. O senador não informou se teve despesas pagas pelo advogado.
Tomaz também negou qualquer irregularidade relacionada aos deslocamentos. Segundo ele, as viagens “são de caráter estritamente privado”, “decorrem de uma relação de amizade pessoal de longa data com o senador Flávio Bolsonaro e sua família” e “foram custeadas com recursos próprios e nada têm a ver com função pública, com contratos ou com qualquer interesse de terceiros”.
Weverton confirmou a proximidade com o advogado, mas não respondeu quem custeou sua ida à África do Sul.
“Willer Tomaz é meu compadre e amigo há muitos anos e já fizemos várias viagens juntos em família. São relações privadas, que não envolvem dinheiro ou interesses públicos”, disse ele.
Os deslocamentos continuaram nos meses seguintes. Em abril, Flávio e Tomaz viajaram juntos para Portugal. Em maio, voltaram à Europa com familiares, em uma viagem que passou por Portugal e França. E-mails analisados pela PF indicam que uma funcionária do escritório de Tomaz recebeu informações sobre a contratação de veículos para traslados em Lisboa e Nice.
PF aponta estrutura ligada ao caso do INSS
A proximidade ganhou relevância para os investigadores depois que Tomaz passou a ser alvo das apurações sobre o escândalo do INSS. Segundo relatório da Polícia Federal que fundamentou buscas no escritório do advogado, ele atuaria como “hub financeiro, patrimonial e logístico” de integrantes do suposto esquema.
De acordo com a PF, essa estrutura teria utilizado “empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos”. Os investigadores também apontaram um repasse de R$ 11 milhões de empresas relacionadas a Tomaz para a mulher de Weverton Rocha.
Tomaz afirma que não é investigado por fraudes contra o sistema previdenciário.
Weverton também foi alvo da PF. Segundo a investigação, ele teria atuado como “liderança e sustentáculo das atividades empresariais e financeiras” do grupo suspeito de fraudar o INSS. O senador nega qualquer irregularidade.
Jatinho tinha ligação com empresa de Vorcaro
Os registros obtidos pelos investigadores também alcançam uma viagem realizada em janeiro de 2025. Na véspera da posse de Donald Trump, Flávio, a mulher e as duas filhas embarcaram em Fort Lauderdale, na Flórida, com destino a Brasília, acompanhados de Tomaz e familiares do advogado.
O grupo utilizou um jatinho da Prime You, empresa de aviação executiva que tinha entre seus sócios Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. Vorcaro permaneceu como sócio direto da companhia até setembro de 2025.
Tomaz declarou que contratou a empresa como cliente e desconhecia a participação do banqueiro na sociedade.
Naquele mesmo período, Flávio e Tomaz passaram parte do fim de semana anterior à posse de Trump no Hard Rock Hotel & Casino, na região de Miami. Em maio, os dois voltaram aos Estados Unidos em outra aeronave particular, desta vez emprestada por um empresário para quem Tomaz prestava serviços advocatícios.
Relação pessoal também virou parceria profissional
A amizade entre Flávio e Tomaz antecede as viagens identificadas pela PF. Em 2021, durante a CPI da Covid no Senado, o parlamentar defendeu o advogado quando integrantes da comissão tentaram quebrar seu sigilo e se referiu a ele como “meu amigo Willer Tomaz”.
A relação também alcança a atividade profissional. Flávio e Tomaz atuam juntos em processos judiciais. Em uma das ações no Superior Tribunal de Justiça (STJ), representam um dos sócios de uma indústria do Rio Grande do Norte em disputa empresarial envolvendo a execução de R$ 159 milhões.
Flávio também frequentou imóveis pertencentes ao advogado em Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio. Uma das propriedades, na Ilha Comprida, tornou-se objeto de disputa judicial, processo no qual o senador foi indicado como testemunha de Tomaz.
Outro imóvel do advogado em Angra foi usado por Flávio para comemorar o aniversário de uma das filhas em fevereiro deste ano. Tomaz afirmou ter cedido a propriedade em razão da amizade entre os dois, “sem qualquer pagamento, contraprestação ou relação comercial”.







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