Apesar dos avanços nos últimos anos, o futebol brasileiro continua sendo um espaço predominantemente masculino. É o que revela o recorte por sexo da pesquisa Ipsos-Ipec, encomendada pelo jornal O Globo, realizada entre os dias 5 e 9 de junho de 2025, com 2.000 entrevistados em 132 municípios do país. Segundo os dados, nenhum clube entre os principais do país possui uma torcida majoritariamente composta por mulheres — embora alguns apresentem percentuais mais equilibrados do que outros.
Entre os cinco clubes com maiores torcidas, o Flamengo aparece com 19,7% da preferência feminina e segue como o time com o maior número absoluto de torcedoras no Brasil. No entanto, esse número ainda é inferior ao percentual de homens que torcem pelo clube (22,8%), o que revela um viés levemente masculino. Mesmo assim, proporcionalmente, o Flamengo tem a maior participação de mulheres entre os seus torcedores dentro do top 5, com 48% do total da torcida.
De acordo com o vice-presidente de marketing do clube, Ricardo Hinrichsen, o Flamengo tem mapeado os perfis dos seus torcedores com o objetivo de segmentar melhor suas ações. “Estamos mapeando o perfil dos nossos fãs para diferenciar os nichos. Sabemos que o público feminino é muito grande. Há algumas semelhanças entre homens e mulheres na forma como consomem o futebol, mas há diferenças importantes na maneira de se relacionar com o clube. Temos que fazer esse trabalho estratégico”, afirmou.
Outro clube que se destaca no recorte feminino é o São Paulo, que tem 5,6% da preferência entre as mulheres e 7,2% entre os homens. Com a menor diferença percentual entre os sexos dentro do top 5, o tricolor paulista aparece como o segundo time com maior proporção feminina em sua torcida: 45%. Na comparação com a pesquisa anterior, feita em 2022, o São Paulo manteve o percentual entre as mulheres, enquanto o Palmeiras — terceiro no ranking geral — caiu de 6,2% para 5% na preferência feminina, ficando em quarto lugar nesse quesito.
O São Paulo também se diferencia por iniciativas voltadas especificamente ao público feminino. Nos últimos anos, o clube firmou parcerias com aplicativos de transporte exclusivo para mulheres, criou um canal de denúncias, ofereceu exames de mamografia gratuitos no estádio e transformou o Morumbis em um espaço de acolhimento para vítimas de violência. Ainda assim, o desafio permanece.
Segundo estudos paralelos citados na reportagem, o número de mulheres entre os sócios-torcedores dos clubes gira entre 10% e 15%, e a ocupação feminina nos estádios não ultrapassa os 14%. Para a socióloga Leda Maria da Costa, pesquisadora do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte da UERJ, esse cenário reflete uma longa história de exclusão. “O futebol sempre disse um grande ‘não’ às mulheres, é um público rejeitado por muito tempo”, afirma.
O Vasco, por outro lado, apresenta a maior proporção de torcedores homens entre os cinco clubes mais populares: 67%. Já fora do top 5, o Santos chama atenção pelo viés ainda mais masculino: é citado por 3,1% dos homens, mas apenas por 1% das mulheres, caindo da décima posição no ranking geral para a 12ª entre o público feminino.
A pesquisa do Ipsos-Ipec tem margem de erro de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Em determinados recortes, os percentuais podem ultrapassar 100%, pois os entrevistados puderam citar até dois clubes como times de preferência.
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