Em meio às definições de candidaturas e à articulação das chapas estaduais para as eleições de outubro, o diretório nacional do Psol foi convocado para deliberar, no próximo dia 7 de março, sobre a proposta de formação de uma federação partidária com o PT.
Ainda que o apoio à reeleição do presidente Lula seja consenso, no Rio de Janeiro, onde o partido deverá ter candidatura própria para o governo estadual, a discussão expõe as divergências entre deputados estaduais e federais sobre esse movimento.
A proposta foi formalizada pelo PT no fim do ano passado. Para que tenha validade já no próximo pleito, a federação precisa ser registrada até 4 de abril, seis meses antes da eleição. Em tese, a decisão agora está nas mãos do Psol, e o encontro do dia 7 pode marcar um ponto de inflexão na estratégia do partido.
Cláusula de barreira no centro do debate
O pano de fundo da discussão é a cláusula de barreira, mecanismo que estabelece desempenho mínimo para que partidos tenham acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda em rádio e TV.
Para as eleições de 2026, as siglas precisarão eleger ao menos 13 deputados federais distribuídos em nove estados ou obter 2,5% dos votos válidos nacionais para a Câmara, também com distribuição mínima em nove unidades da federação.
Em 2030, as exigências aumentam: será necessário alcançar 3% dos votos válidos nacionais, com ao menos 2% em nove estados, ou eleger 15 deputados federais igualmente distribuídos.
Em 2022, federado à Rede, o Psol obteve 4,23% dos votos válidos para a Câmara e superou o índice mínimo em 14 estados. Elegeu 12 deputados federais, enquanto a Rede acrescentou dois. As federações obrigam atuação conjunta por quatro anos, como se os partidos fossem uma única legenda.
Hoje, o Psol mantém federação com a Rede, mas há preocupação interna com a situação da aliada, que enfrenta disputa judicial pelo comando nacional e ainda não indicou nomes no Rio de Janeiro para cargos proporcionais.
A ala contrária
Para o deputado estadual Professor Josemar, no entanto, o partido deve preservar sua independência. Segundo ele, a cláusula de barreira não representa risco imediato, pois foi superada em 2022 com a federação com a Rede, que, na sua avaliação, deve continuar.
Josemar também avalia que a federação poderia impor apoios que não dialogam com a linha política do partido, como a aliança em torno da candidatura de Eduardo Paes (PSD) para o Poder Executivo.
O deputado estadual Flávio Serafini, presidente regional do Psol, também é contrário. Ele afirma que o partido não só superou a cláusula de barreira na última eleição como ampliou a margem com a federação com a Rede.
“Acho impossível essa federação se concretizar. O Psol já havia superado a cláusula de barreira com tranquilidade na última eleição e, na federação com a Rede, isso abriu ainda mais essa margem”, declarou.
Na bancada federal, Tarcísio Motta se declara absolutamente contra a federação, avaliando que ela retiraria autonomia e identidade do Psol. Ele disse que o partido já demonstrou capacidade de superar a cláusula e que a aliança reduziria o papel da legenda enquanto força de esquerda crítica.

Possível candidatura ao governo
O deputado federal Glauber Braga foi outro a demostrar ceticismo e contrariedade com a federação. Contado para disputar o governo estadual, ele afirmou que, dentro do partido, apenas a corrente Revolução Solidária defende a aliança.
Segundo Glauber, a federação significaria abrir mão de candidatura própria e poderia configurar apoio a nomes como o do prefeito Eduardo Paes, o que considera inadequado. Glauber salienta que a tese da cláusula de barreira não se sustenta, pois o partido já teria superado os índices exigidos.
“Dentro do Psol, a única corrente que defende a federação é a Revolução Solidária, todas as demais são contrárias. A federação com o PT significa não ter candidatura própria”, avalia.
Os favoráveis à aliança
Entre os que defendem a federação estão os deputados estaduais Dani Monteiro e Yuri Moura, que é o presidente da Federação Psol-Rede. Dani afirma que a proposta é um convite do próprio PT, que reconhece no Psol um partido conectado com novas gerações.
Para ela, além dos riscos da cláusula de barreira, a federação permitiria ampliar a bancada de esquerda e influenciar a correlação de forças no Congresso.
Moura, por sua vez, alerta que o problema da cláusula é real e se agravará até 2030. Por isso, assim como Dani, defende uma frente ampla com maior capacidade de eleger mais parlamentares, ressaltando que a federação com o PT não implica automaticamente apoio a candidaturas específicas nos estados, tema que dependeria de negociação regional.
“O problema da cláusula de barreira é real e preocupa. O importante hoje é fazer uma grande frente ampla de esquerda com capacidade de eleger um número maior de deputados. Isso não representa obrigatoriamente o apoio a Eduardo Paes, cujas definições estão nas instâncias regionais”, disse, argumentando que a contradição também faz parte das federações.

Adotando a cautela
Recém-escolhida para disputar a eventual eleição indireta na Assembleia Legislativa (Alerj), caso se confirme a renúncia do governador Cláudio Castro, a deputada estadual Renata Souza adota uma posição cautelosa.
No atual cenário, a parlamentar é a grande puxadora de votos do Psol no estado. Em 2022, seus 174 mil eleitores ajudaram a legenda a eleger mais dois deputados para Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Embora faça um discurso pró-federação, ela afirma estar comprometida com a decisão do partido.
“Não vou cravar que sou contra ou a favor, mas vou respeitar a decisão partidária”, afirmou. No entanto, reconhece que a cláusula de barreira “é sim algo que pode comprometer o partido” e lembra que as exigências tendem a aumentar.
“Hoje, Rio e São Paulo garantiriam o cumprimento da cláusula de barreira, mas são necessários nove estados. Ou seja, a cada ano que passa isso se afunilará. Esse debate é mais do que necessário”, declarou.
O fator Boulos
A discussão interna também envolve a situação de Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República e deputado federal licenciado, filiado ao Psol desde 2018. Setores contrários à federação afirmam que a corrente Revolução Solidária, da qual Boulos faz parte, estaria impulsionando o debate.
Para os críticos, caso a federação seja rejeitada, Boulos poderia usar a decisão como justificativa para deixar o partido e ingressar no PT. Ele já anunciou que não disputará as eleições de 2026.
O tema também divide os correligionários fluminenses. O Psol integra a base do governo federal com duas pastas: além de Boulos, tem o Ministério dos Povos Indígenas, comandando por Sonia Guajajara.
Enquanto Professor Josemar avalia a hipótese da saída de Boulos como “real”, Serafini considera o movimento improvável, a menos que haja mudança abrupta de posição “sem justificativa”.
Já Tarcísio Motta afirmou que, se acontecer, “será uma traição” e uma tentativa real de inviabilizar o partido. Glauber Braga disse que cabe ao próprio Boulos se manifestar. Renata Souza e Yuri Moura classificam o tema como especulação e defenderam que o foco esteja na discussão sobre a federação.
A expectativa agora é que haja um desfecho no dia 7. A partir daí, o Psol poderá redefinir a estratégia eleitoral e suas alianças nos estados.






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