A investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre a atuação de falsos médicos no Hospital Jardim Helena, na Zona Leste da capital, ganhou novos desdobramentos após a prisão de um dos suspeitos e a apuração de pelo menos nove mortes consideradas suspeitas. Familiares de pacientes que faleceram após passarem pela unidade relatam indignação e questionam se os óbitos poderiam ter sido evitados.
Os investigados são Marcos Phelipe de Barros e Mayke César Silva. Segundo a polícia, ambos utilizaram identidades falsas para exercer ilegalmente a medicina dentro da unidade hospitalar. Marcos foi preso nesta semana, enquanto Mayke segue foragido.
A investigação aponta possíveis crimes de falsidade ideológica, exercício ilegal da medicina e homicídio com dolo eventual, quando se assume o risco de provocar a morte de alguém.
Nove mortes estão sob investigação
De acordo com a Polícia Civil, pelo menos nove óbitos ocorridos após atendimentos realizados pelos falsos médicos estão sendo analisados. A apuração busca identificar se houve relação entre a atuação dos suspeitos e as mortes registradas.
As autoridades estimam que aproximadamente 2 mil pacientes tenham sido atendidos pelos acusados. O número total de registros analisados ultrapassa 9 mil atendimentos realizados no período em que os dois atuaram no hospital.
A descoberta do esquema ocorreu após uma denúncia anônima. Durante a investigação, policiais verificaram inconsistências nos documentos apresentados pelos profissionais e concluíram que eles utilizavam identidades de médicos reais.
Como os suspeitos atuavam
Segundo a polícia, Marcos Phelipe de Barros se apresentava como “Nicolas Joseph Della Matta”. Já Mayke César Silva utilizava o nome de Mike José do Nascimento Florentino.
Relatos de ex-funcionários indicam que Mayke, que seria biomédico, atuava no pronto-socorro e também na pediatria. Marcos, identificado como instrumentador cirúrgico, trabalhava no pronto-socorro.
As investigações apontam ainda que pacientes considerados mais graves eram frequentemente encaminhados para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), reduzindo a necessidade de acompanhamento direto por parte dos suspeitos.
Filho de vítima diz que morte poderia ter sido evitada
Entre os casos investigados está o do bombeiro aposentado conhecido como Cabo Lucena. Em 2025, ele procurou atendimento médico com suspeita de dengue.
O filho dele, Guilherme Lucena, relatou que confiou nas orientações do profissional que acreditava ser médico. Segundo ele, o suposto especialista informou que seria necessário realizar a intubação do paciente.
Pouco tempo depois, a família recebeu a notícia da morte. Guilherme afirma que somente mais tarde descobriu que o atendimento havia sido realizado por um falso médico.
“Eu tinha certeza que não era para o meu pai morrer. Quando soube da investigação, tive ainda mais certeza de que não era a hora do meu pai”, declarou.
Família questiona alta hospitalar antes de novo óbito
Outro caso investigado envolve Tânia, paciente que realizava tratamento para uma doença crônica e costumava frequentar o Hospital Jardim Helena.
Após um exame apontar sinais de infarto, ela foi encaminhada para um procedimento de cateterismo em outra unidade de saúde. Em seguida, retornou para a UTI do hospital.
Segundo a filha, Tainá Cristina da Silva, a paciente recebeu alta hospitalar durante a tarde e morreu poucas horas depois, já em casa. A família agora busca esclarecimentos sobre a condução do caso.
“É impossível não pensar se ela teria tido outra chance com um atendimento adequado. É uma situação muito triste e revoltante”, afirmou.
Hospital nega relação entre atendimentos e mortes
Além dos falsos médicos, a investigação também alcança Daniela Antunes Krauthamer, gestora administrativa da unidade, e Fábio das Neves Filho, gestor médico de uma empresa terceirizada responsável por contratações. Ambos foram afastados cautelarmente.
Em nota, a defesa do Hospital Jardim Helena informou que a responsabilidade pela verificação dos registros médicos era da empresa terceirizada contratada para fornecer profissionais à unidade.
Segundo o posicionamento apresentado, auditorias internas e análises dos prontuários não identificaram nexo de causalidade entre a atuação dos falsos médicos e os óbitos investigados. O hospital sustenta que as mortes eram compatíveis com o estado clínico dos pacientes e que as decisões médicas foram tomadas de forma multidisciplinar.
A defesa de Marcos Phelipe de Barros não se manifestou sobre o caso. Já os advogados de Mayke César Silva não foram localizados. Os médicos verdadeiros cujas identidades foram utilizadas pelos suspeitos são considerados vítimas do esquema pela Polícia Civil e optaram por não comentar o caso.
Veja na íntegra no link abaixo a reportagem do Fantástico:






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