Estudo mostra que crime organizado contribui para desmatamento da Amazônia, rota de 40% da cocaína mundial

Relatório lançado na COP30 alerta para avanço de redes ilegais ligadas a garimpo, grilagem e narcotráfico, que já ameaçam a conectividade ecológica e social da floresta

A Amazônia está sob ataque. O crime organizado, que nas cidades provoca guerras urbanas como as que paralisaram o Rio de Janeiro em outubro, espalha-se na floresta como uma infecção silenciosa, corroendo rios, matas e comunidades. Lançado durante a COP30, em Belém, o “Relatório de Avaliação da Amazônia 2025: Conectividade da Amazônia para um Planeta Vivo” mostra que o avanço de economias ilícitas se tornou um dos principais vetores de destruição ambiental, desagregação social e ameaça climática.

O documento é produzido pelo Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês), iniciativa coordenada pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (UN SDSN). O grupo reúne cientistas, lideranças indígenas e representantes da sociedade civil sob a co-presidência do climatologista brasileiro Carlos Nobre, uma das maiores autoridades mundiais sobre o bioma.

Amazônia em desconexão

O relatório deste ano enfatiza a importância de preservar as conexões ecológicas e sociais da região — rios, florestas e comunidades que formam a teia da vida amazônica. O estudo alerta que “o desmatamento e a degradação dos ecossistemas ameaçam a conectividade ecológica e sociocultural da Amazônia e resultam de fatores-chave”, entre eles modelos econômicos predatórios, economias ilícitas, falhas de governança e as mudanças climáticas globais.

O documento apresenta 31 Chamados à Ação (Calls to Action) — propostas concretas que vão da restauração ambiental a mecanismos de financiamento e governança transnacional. Para Carlos Nobre, o aumento do poder das redes criminosas está levando a uma “desconectividade disruptiva” que afeta não só o meio ambiente, mas também as estruturas sociais e institucionais da Amazônia.

O poder do crime na floresta

O relatório detalha as múltiplas frentes de atuação do crime organizado na região: garimpo e exploração ilegal de madeira, grilagem de terras, tráfico de drogas, armas e pessoas, além do trabalho escravo e da caça de animais silvestres.

Juan Carlos Garzón, autor principal do capítulo sobre criminalidade, afirma que cerca de 40% da cocaína mundial passa pela Amazônia, que virou um verdadeiro corredor global do narcotráfico. “O crime organizado é hoje uma das maiores ameaças à Amazônia: ele destrói a floresta, compromete a segurança das populações locais e corrói as bases da governança ambiental. Enfrentar essas redes ilegais é fundamental para evitar o colapso ecológico da região e garantir um futuro sustentável para o Brasil e o planeta”, alerta Garzón.

Ele explica que alianças entre dissidências das FARC, grupos peruanos e facções criminosas brasileiras ampliaram o controle dessas organizações sobre rotas fluviais e aéreas, especialmente na tríplice fronteira do Putumayo. Essa convergência entre o narcotráfico e outras economias ilícitas tem alimentado o crime ambiental em escala regional.

O ouro e o sangue

O relatório revela que o garimpo ilegal já ocupa mais de 2,6 mil quilômetros quadrados da Amazônia brasileira, sendo 77% das áreas de extração ativas em 2022 operadas fora da lei. Estima-se que entre 2019 e 2020 tenham sido extraídas ilegalmente 49 toneladas de ouro, movimentando até US$ 2,8 bilhões sem qualquer controle fiscal.

A devastação atinge também territórios indígenas. Segundo o relatório, a contaminação por mercúrio em comunidades Yanomami chega a níveis 20 vezes superiores ao limite permitido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), provocando danos neurológicos irreversíveis. Mais de quatro mil pontos de mineração ilegal foram identificados em terras indígenas e unidades de conservação.

A grilagem de terras também cresce rapidamente. Muitas áreas invadidas são revendidas para criação de gado. Entre 2018 e 2021, mais de 90 mil cabeças de gado criadas ilegalmente em áreas desmatadas entraram na cadeia formal de produção bovina. “O relatório alerta para a combinação de lavagem de dinheiro, corrupção e captura do Estado, que desestrutura instituições locais e alimenta a violência”, acrescenta Garzón.

Um alerta que não surpreende

Para o procurador da República Ricardo Negrini, do Ministério Público Federal, que não participou do painel, o alerta é necessário, embora previsível. “A pecuária continua a ser o principal vetor de desmatamento, mas as atividades ligadas ao crime organizado, sobretudo a grilagem de terras, quase sempre públicas, cresce ano a ano como fator de devastação”, afirma o procurador, que integra a série Diálogos pelo Clima, do Funbio, que lançará novo volume durante a COP30.

O relatório do Painel Científico para a Amazônia reafirma um diagnóstico incontornável: combater o desmatamento exige enfrentar o poder econômico e territorial das redes criminosas que lucram com a destruição da floresta. A Amazônia, concluem os autores, só continuará viva se suas conexões — ecológicas, sociais e humanas — forem restauradas e protegidas.

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