Estado conclui 30 auditorias em contratos de R$ 2,6 bilhões e quer aprofundamento das investigações

Auditorias determinadas após alertas de sobrepreço analisaram contratos da gestão Cláudio Castro; investigação envolvendo Douglas Ruas e Altineu Côrtes foi encaminhada ao Ministério Público Federal

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O governo do Rio concluiu 30 auditorias em contratos que somam pelo menos R$ 2,6 bilhões e que foram firmados durante a gestão do ex-governador Cláudio Castro. Os levantamentos identificaram diferentes situações sob análise e foram encaminhados pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) ao Ministério Público do Rio (MPRJ).

Em um dos casos, segundo informações da repórter Vera Araújo em reportagem no Globo, que envolve o ex-secretário estadual das Cidades e deputado Douglas Ruas, candidato ao governo do estado, e o deputado federal Altineu Côrtes, o MPRJ encaminhou os documentos à Procuradoria-Geral da República (PGR), em razão da existência de pessoa com foro especial. O objetivo do governo é que as instituições responsáveis aprofundem as apurações nas áreas criminal e cível.

Os trabalhos encontraram situações que vão desde milhares de livros armazenados sem indicação de distribuição para estudantes da rede estadual até contratos para serviços de limpeza de praças firmados por um instituto ligado à regularização fundiária.

Auditoria envolvendo Douglas Ruas e Altineu Côrtes

Um dos relatórios analisou contratos da Secretaria de Estado das Cidades (Secid) durante o período em que Douglas Ruas esteve à frente da pasta, entre setembro de 2023 e março de 2026.

Segundo a Controladoria-Geral do Estado (CGE), a apuração identificou um “circuito de relações interligadas” envolvendo as famílias Ruas e Côrtes.

A Mineração Santa Edwiges, que tem entre seus sócios Altineu Côrtes Paesler Coutinho, filho do deputado federal, forneceu massa asfáltica para contratos da Secid destinados ao recapeamento de vias na Região Metropolitana. Parte dos serviços foi realizada em São Gonçalo, município administrado pelo prefeito Capitão Nelson, pai de Douglas Ruas.

De acordo com o levantamento, o material fornecido pela empresa foi utilizado em pelo menos cinco etapas das obras, que tiveram custo de R$ 4,9 milhões.

Empresas e movimentações financeiras

A auditoria também identificou uma relação societária entre a Saur Construção, Terraplanagem e Locação Ltda. e a Normandia Empreendimentos e Participações.

Constituída em 2011 e sediada em São Gonçalo, a Saur tem Douglas Ruas como detentor de 90% do capital social. A Normandia, por sua vez, aparece relacionada ao grupo empresarial da família Côrtes.

Segundo o relatório, as duas empresas realizaram operações envolvendo ativos imobiliários e direitos creditórios, em consórcio ou copropriedade, principalmente a partir de 2023, período em que Ruas assumiu a Secretaria das Cidades.

Documentos analisados pelo governo também apontam que a Saur acumulou lucro líquido de R$ 19,6 milhões até novembro de 2025. Desse total, R$ 15,9 milhões foram transferidos a Ruas sob a forma de dividendos.

O relatório registra ainda que o valor recebido supera em mais de 12 vezes o patrimônio de R$ 1,2 milhão declarado por Ruas à Justiça Eleitoral em 2022.

A CGE apontou que os contratos públicos envolvendo a fornecedora de massa asfáltica e os negócios privados entre empresas ligadas às duas famílias ocorreram no mesmo período. O documento também destacou a concentração de recursos da Secretaria das Cidades em São Gonçalo.

Em 2025, levantamento publicado pelo GLOBO apontou que o município havia recebido 55% dos investimentos realizados pela pasta comandada por Ruas até aquele momento.

Contrato de R$ 144,9 milhões

Outra frente da auditoria analisou contratos de consórcios liderados pela FP Vieira Engenharia, que somam R$ 702 milhões e também estão sob investigação administrativa.

Um dos contratos foi assinado em outubro de 2025 por R$ 99,7 milhões. A obra começou em 24 de novembro e, 17 dias depois, em 11 de dezembro, a Secretaria das Cidades formalizou um aditivo de R$ 45,3 milhões.

Com o acréscimo, o contrato passou para R$ 144,9 milhões, uma elevação de 45,4%.

O percentual chamou a atenção dos auditores porque a Lei de Licitações estabelece limite de 25% para acréscimos em obras e serviços de engenharia, conforme apontado no relatório.

Auditorias foram determinadas após alerta de sobrepreço

A realização das auditorias foi determinada pelo Decreto 50.254/2026, que estabeleceu a verificação de contratos de órgãos da administração direta e indireta do estado.

A medida ocorreu depois que a Plataforma de Suporte aos Controles Internos da CGE identificou indícios de sobrepreço.

A ordem foi assinada pelo governador em exercício Ricardo Couto. Com a conclusão dos levantamentos, o governo encaminhou os resultados ao Ministério Público para que os órgãos competentes avaliem a necessidade de novas providências.

A administração estadual considera encerrada a etapa de apuração na esfera administrativa e busca o aprofundamento das análises pelo Ministério Público.

Defesas de Altineu Côrtes e Douglas Ruas

Altineu Côrtes negou as acusações relacionadas às empresas citadas na auditoria. O deputado afirmou que nenhuma delas teve vínculo com o poder público e declarou que não houve prática de ato ilícito. Também disse considerar que denúncias desse tipo surgem durante períodos eleitorais com o objetivo de prejudicá-lo.

A assessoria de Douglas Ruas também contestou as conclusões apresentadas no relatório. Em nota, a campanha afirmou que o próprio documento produzido pela CGE e pelo GSI registra não haver “caracterização inequívoca de irregularidade material” e recomenda o aprofundamento das análises.

A defesa de Ruas declarou ainda que ele defende a apuração de todos os procedimentos, com a oitiva dos envolvidos e uma conclusão técnica sobre os fatos. Segundo a nota, o deputado estadual não cometeu irregularidades e não se opõe à fiscalização.

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