Em audiência no Senado, presidente do BC nega ‘rivalidade’ e diz que Pix fortaleceu cartões de crédito

Gabriel Galípolo afirma que sistema de pagamentos ampliou a inclusão financeira no Brasil enquanto governo Trump mantém pressão contra o Pix

O presidente do Banco Central do Brasil (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta terça-feira (19) que não existe concorrência direta entre o Pix e os cartões de crédito. Durante audiência pública realizada na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Galípolo defendeu que o sistema de pagamentos instantâneos criado pela autoridade monetária contribuiu para ampliar a inclusão financeira da população e acabou impulsionando também o uso do crédito bancário no país.

Segundo ele, a expansão do Pix permitiu que milhões de brasileiros passassem a integrar o sistema financeiro formal, ampliando o acesso a serviços bancários e produtos como cartões de crédito.

“O Pix incluiu pessoas que estavam à margem do sistema, que passaram a ter cartão de crédito. Pessoas imaginam que tem rivalidade entre o Pix e o cartão de crédito, mas a gente observa que não. Que o cartão de crédito cresceu com a bancarização”, declarou Galípolo aos senadores.

A declaração ocorre em meio ao debate internacional sobre os impactos do Pix no mercado global de pagamentos eletrônicos, especialmente após críticas feitas pelo governo dos Estados Unidos ao modelo brasileiro.

Pix entra na mira dos EUA

O sistema brasileiro de transferências instantâneas passou a ser alvo de questionamentos do governo dos EUA em julho de 2025, quando a gestão do então presidente Donald Trump abriu uma investigação comercial envolvendo práticas do setor financeiro brasileiro.

Embora o documento inicial não citasse nominalmente o Pix, a apuração fazia referência a supostos favorecimentos do Estado brasileiro a serviços nacionais de pagamento eletrônico.

Posteriormente, um relatório divulgado pela Casa Branca em abril deste ano mencionou diretamente o sistema criado pelo Banco Central brasileiro como uma ameaça às grandes operadoras internacionais de cartões, como Visa e Mastercard.

“O Banco Central criou e regula o Pix; stakeholders dos EUA temem que o BC [Banco Central] dê tratamento preferencial ao sistema, prejudicando fornecedores americanos de serviços de pagamentos eletrônicos. O uso do Pix é obrigatório para instituições com mais de 500.000 contas”, afirmou o relatório americano.

A investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos apontava preocupação com a atuação do governo brasileiro no setor digital e financeiro.

“O Brasil parece se envolver em uma série de práticas desleais em relação a serviços de pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando a favorecer seus serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo”, declarou o órgão americano responsável pela apuração.

Banco Central defende inclusão financeira

Durante a audiência no Senado, Gabriel Galípolo buscou rebater a interpretação de que o Pix teria enfraquecido o mercado de cartões de crédito ou reduzido a atuação de empresas privadas no setor financeiro.

Segundo o presidente do Banco Central, os dados mostram justamente o contrário: a ampliação da chamada “bancarização” teria contribuído para expandir o acesso ao crédito e aumentar o número de consumidores utilizando cartões.

O Pix é considerado hoje um dos principais instrumentos financeiros digitais do país e se consolidou rapidamente desde seu lançamento em 2020. O sistema permite transferências e pagamentos instantâneos, funcionando 24 horas por dia, inclusive em fins de semana e feriados.

Além do uso por consumidores, o modelo também passou a ser adotado em larga escala por empresas, bancos, governos estaduais e prefeituras.

Sistema ganhou relevância internacional

A repercussão internacional em torno do Pix cresceu nos últimos anos devido à velocidade de adoção da ferramenta no Brasil e ao impacto provocado no mercado tradicional de pagamentos eletrônicos.

Especialistas apontam que o sistema alterou significativamente hábitos de consumo e reduziu custos de transferências financeiras, especialmente para pequenos comerciantes e usuários de baixa renda.

Ao mesmo tempo, o avanço do Pix passou a ser acompanhado com atenção por grandes operadoras internacionais de cartões e por governos estrangeiros interessados em modelos semelhantes de pagamento instantâneo.

O Banco Central brasileiro, por sua vez, vem ampliando as funcionalidades da plataforma e trabalha em novos serviços financeiros integrados ao sistema, incluindo modalidades voltadas ao crédito, parcelamento e transações internacionais.

Debate econômico e político

A audiência de Gabriel Galípolo no Senado também ocorreu em meio às discussões sobre o papel do Banco Central na modernização do sistema financeiro brasileiro e os efeitos econômicos da digitalização dos pagamentos.

O Pix se tornou um dos principais símbolos dessa transformação e passou a ocupar espaço não apenas no debate econômico, mas também nas discussões comerciais e diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.

Mesmo diante das críticas internacionais, integrantes do governo brasileiro e da autoridade monetária seguem defendendo o sistema como ferramenta de inclusão financeira e estímulo à concorrência no setor bancário.

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