Em audiência na Câmara, prefeitura anuncia novas medidas para ampliar acesso ao Jaé antes do fim do dinheiro nos ônibus

Secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes anunciou que o cartão Jaé passará a ser vendido nas bancas de jornal credenciadas pela prefeitura; medida ocorre em meio à decisão de acabar com o pagamento em dinheiro nos ônibus municipais a partir do dia 30 de maio

A pressão de vereadores e passageiros contra o fim do pagamento em dinheiro nos ônibus municipais levou a Prefeitura do Rio a anunciar, nesta terça-feira (19), novas medidas para ampliar o acesso ao cartão Jaé antes da entrada em vigor do modelo exclusivamente digital, prevista para o próximo dia 30.

Durante audiência pública na Câmara dos Vereadores, o secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes, afirmou que as mais de 700 bancas de jornal credenciadas pelo município passarão a vender o cartão verde do sistema e anunciou a ampliação da rede de compra e recarga, chegando a mais de 1,3 mil pontos espalhados pela cidade. Segundo o secretário, as medidas começarão a valer já na sexta-feira (22), por meio de um decreto a ser publicado no Diário Oficial pelo prefeito Eduardo Cavaliere (PSD).

A audiência, promovida pela Comissão de Transportes da Casa, reuniu parlamentares, representantes da prefeitura e usuários do sistema, que cobraram mais tempo de adaptação, ampliação dos pontos de atendimento e alternativas para passageiros sem acesso facilitado aos meios digitais.

Representando a prefeitura, Arraes defendeu o fim do pagamento em espécie nos ônibus como parte do processo de modernização do sistema de transporte público da capital e afirmou que o Rio segue uma tendência já adotada em outras cidades brasileiras e em grandes sistemas internacionais.

“Os grandes sistemas do Brasil e do mundo têm a tendência de que o pagamento nos transportes seja feito de forma digital. O que estamos fazendo é seguir essa tendência, que é mais um passo da modernização do transporte público da nossa cidade”, afirmou.

Como vai funcionar o fim do dinheiro embarcado

Com a mudança, os passageiros deixarão de poder pagar a passagem diretamente em espécie dentro dos coletivos. O embarque será feito exclusivamente por meios eletrônicos. Pelas novas regras, as integrações do Bilhete Único Carioca (BUC) e do Bilhete Único Margaridas (BUM) passam a ser feitas pelo cartão preto do Jaé, usado para integração tarifária, ou pelo aplicativo do sistema de bilhetagem, via QR Code. Já os usuários do Bilhete Único Intermunicipal (BUI) seguem utilizando o sistema Riocard.

O cartão verde continuará disponível para passageiros que não utilizam integração tarifária, como turistas e usuários ocasionais. Segundo Arraes, o dinheiro continuará sendo aceito para recarga dos cartões em terminais, máquinas de autoatendimento e pontos credenciados pela prefeitura. “O dinheiro não vai acabar, só mudar de lugar”, disse o secretário.

A gestão municipal afirma que a retirada do dinheiro embarcado deve acelerar o embarque, reduzir assaltos e furtos dentro dos coletivos, diminuir distrações operacionais dos motoristas e ampliar o controle sobre a arrecadação do sistema.

Arraes argumenta que experiências semelhantes já funcionam no VLT Carioca, no BRT e nas linhas do serviço Conexão BRT, que operam sem dinheiro embarcado. O secretário também citou a linha 634 (Bananal x Saens Peña), que começou a funcionar sem pagamento em espécie no último domingo (17), como projeto-piloto da medida nos ônibus municipais convencionais.

De acordo com ele, somente na segunda-feira (18), primeiro dia útil da nova operação, quase 4 mil passageiros utilizaram a linha. O secretário afirmou ainda que cidades como Brasília, Curitiba, Florianópolis e Goiânia já adotam modelos semelhantes de pagamento exclusivamente digital no transporte público.

“Menos tempo parado no ponto significa viagens mais rápidas e maior eficiência para toda a cidade”, afirmou.

Prefeitura promete ampliar rede de atendimento após aumento na procura pelo Jaé

Atualmente, o sistema conta com 250 máquinas de autoatendimento, 90 bilheterias e cerca de 700 pontos de recarga espalhados pela cidade. De acordo com a SMTR, a expansão da rede de atendimento visa dar conta da demanda dos usuários, que cresceu após o anúncio do fim do dinheiro embarcado.

Segundo a pasta, de lá para cá foi registrado um aumento de 300% no número de cadastros no aplicativo do sistema. Paralelamente, a secretaria apontou uma redução de 35% nas recargas do chamado cartão verde, modelo que deixará de permitir integração tarifária. “Esses dados demonstram um processo natural de adaptação das pessoas após o anúncio que fizemos”, afirmou Jorge Arraes.

O secretário disse ainda que a prefeitura decidiu ampliar o horário de funcionamento dos postos do Jaé após registrar aumento nas filas de atendimento. Segundo ele, as unidades passarão a abrir uma hora mais cedo, funcionando das 8h às 18h, para absorver a demanda.

Além das bancas de jornal, o presidente da Comissão de Transportes da Câmara, vereador Marcelo Diniz (PSD), pediu que a prefeitura também avalie a possibilidade de permitir recargas em casas lotéricas, farmácias e outros locais que garantam maior facilidade para os usuários do sistema. “Toda comunidade tem uma loteria, então fica mais fácil do morador fazer sua compra e recarregar o seu cartão para viajar”, afirmou.

Presidente da Câmara do Rio, Carlo Caiado (PSD) avaliou como positiva a decisão da prefeitura de ampliar os pontos de venda do Jaé após o encontro promovida pela Casa.

“O debate sobre o modelo de cobrança no transporte municipal é essencial, por isso promovemos essa audiência pública. Depois da discussão aberta com a sociedade, a prefeitura anunciou que vai passar a vender o Jaé também nas bancas de jornal. Isso é muito positivo, porque a população precisa de mais facilidade no acesso ao sistema de transporte público”, afirmou.

Vereadores e passageiros questionam impactos da medida

Apesar da defesa feita pela prefeitura, os presentes questionaram os impactos da mudança sobre a população mais vulnerável e cobraram maior planejamento na implementação do novo sistema.

Membro da comissão organizadora, o vereador Poubel (PL) perguntou ao secretário quais estudos técnicos embasaram a decisão da prefeitura. Em resposta, Arraes afirmou que o município vinha acompanhando a redução gradual do uso do dinheiro nos ônibus e considerou que o momento adequado para a mudança chegou quando o percentual de usuários do pagamento em espécie caiu para menos de 10%. “O que fizemos foi acompanhar essa tendência, e ao passar dos 90%, entendemos que estávamos no momento adequado para fazer isso”, disse.

Poubel, no entanto, criticou a medida e afirmou que a mudança beneficia principalmente a prefeitura e as empresas de ônibus. “Ao meu entender, o benefício é mais para a prefeitura e para os empresários. A população que está na ponta fica prejudicada. Nem todo mundo tem internet ou celular, e vai ficar uma bagunça generalizada como foi quando implementaram o Jaé”, afirmou.

A audiência também abriu espaço para manifestações da população. Entre os participantes estava o influenciador digital Luiz Guilherme de Albuquerque, da Zona Oeste, que criticou a falta de pontos de recarga em bairros afastados da cidade.

Ele afirmou que moradores de regiões mais isoladas ainda enfrentam dificuldade para encontrar locais de compra e carregamento do cartão Jaé. Como alternativa, sugeriu que clínicas da família possam funcionar como pontos de venda e recarga, tendo em vista a cobertura da rede municipal.

“Não estou criticando o fim do pagamento em dinheiro, mas o modo que está sendo feito, o curto prazo e a falta de diálogo, porque parece uma imposição”, afirmou o morador de Guaratiba, que também cobrou a implementação do pagamento por cartão de débito, crédito e Pix — promessa anunciada durante a implantação do Jaé, mas ainda não colocada em prática.

Iniciativa está na mira do Ministério Público

A mudança anunciada pela prefeitura também entrou no radar do Ministério Público do Rio. Na última sexta-feira (15), a 3ª Promotoria de Justiça de Tutela do Consumidor instaurou um inquérito para apurar possíveis impactos da adoção exclusiva do sistema Jaé e avaliar se a medida pode configurar prática abusiva contra consumidores, especialmente pessoas em situação de vulnerabilidade social.

O fim do dinheiro em espécie nos ônibus também tem provocado reação na Câmara. Na última semana, vereadora Alana Passos (PL) protocolou representação no MPRJ pedindo a suspensão da medida e apresentou requerimento de informações à Secretaria Municipal de Transportes cobrando estudos técnicos e esclarecimentos sobre os impactos sociais da decisão.

“O dinheiro do trabalhador continua valendo no comércio, no mercado e em qualquer lugar da cidade. Então por que ele não vai valer dentro do ônibus? O que a prefeitura está fazendo é empurrar a população para a dependência de um único sistema, sem garantir acesso real para idosos, informais, turistas e quem não vive de aplicativo”, afirmou a parlamentar.

Como mostrou a Agenda do Poder, a mudança no transporte público segue dividindo opiniões entre os usuários. Parte dos cariocas defende a medida da prefeitura, sob o argumento da segurança e da velocidade no embarque, enquanto outros tem se preocupado com o impacto no dia a dia, principalmente para quem ainda depende do pagamento em dinheiro vivo.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading