Distribuidora de ‘Dark Horse’ decide lançar filme depois das eleições para evitar embates políticos e ações na Justiça

A previsão é que o lançamento ocorra a partir de novembro, em uma operação considerada de grande porte para os padrões do cinema nacional, com estreia prevista para pelo menos 650 salas

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A cinebiografia “Dark Horse”, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, chegará aos cinemas brasileiros apenas após as eleições presidenciais de 2026, informa a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo. A decisão foi tomada pela Europa Filmes, responsável pela distribuição do longa, como forma de evitar que a obra seja interpretada como instrumento de campanha eleitoral ou alvo de questionamentos na Justiça.

A previsão é que o lançamento ocorra a partir de novembro, em uma operação considerada de grande porte para os padrões do cinema nacional. Segundo a distribuidora, o filme deverá estrear em pelo menos 650 salas de cinema em todo o país, número semelhante ao registrado por grandes produções brasileiras, como “Tropa de Elite 2”. A estratégia prevê ainda que 99% das cópias sejam dubladas.

O anúncio ocorre em meio à repercussão envolvendo o suposto financiamento de R$ 61 milhões do filme pelo banqueiro Daniel Vorcaro, articulado pelo senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), conforme mensagens divulgadas pelo Intercept Brasil.

Distribuidora afasta estreia do período eleitoral

O diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa, afirmou que a decisão de adiar o lançamento foi acertada previamente com a produtora Go Up Entertainment.

“Eu acho uma grande cagada isso [lançar durante as eleições]. Qualquer pessoa, de qualquer lado que esteja, vai achar imoral. O meu acordo com a produtora [a Go Up Entertainment, que nunca lançou filme nos cinemas brasileiros] é que eu não lançaria antes das eleições”, afirmou.

Segundo Feitosa, a produção ainda não possui uma data definitiva de estreia, mas será exibida ainda este ano.

“Não tem data ainda [de estreia de ‘Dark Horse’], com certeza não será antes de novembro, mas ainda será neste ano, independentemente de quem ganhar [as eleições]. Ninguém vai estar disputando nada, ninguém vai estar usando essa obra de arte como meio de divulgação política. Isso aconteceria se fosse lançado antes [das eleições].”

A decisão também busca evitar um cenário semelhante ao ocorrido nas eleições anteriores, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu a exibição do documentário “Quem mandou matar Jair Bolsonaro?”, produzido pela Brasil Paralelo e previsto para estrear às vésperas do segundo turno.

Aposta em lançamento nacional de grande porte

A Europa Filmes pretende realizar um dos maiores lançamentos nacionais do ano. Além das cerca de 650 salas de exibição previstas, a empresa aposta na duração reduzida do filme — cerca de 90 minutos — para ampliar o número de sessões diárias nos cinemas.

Wilson Feitosa afirma trabalhar com três cenários para o desempenho comercial da produção.

Na projeção mais conservadora, “Dark Horse” repetiria o desempenho de “Lula, o Filho do Brasil”, alcançando cerca de 800 mil espectadores.

No cenário considerado mais provável pela distribuidora, o público ficaria entre 1,5 milhão e 2 milhões de pessoas.

Já a projeção mais otimista prevê público superior a 2 milhões de espectadores, marca atingida por poucos filmes nacionais voltados ao público adulto desde a pandemia.

Como parâmetro, Feitosa cita “O agente secreto”, que permaneceu quatro meses em cartaz e levou aproximadamente 2,4 milhões de pessoas aos cinemas impulsionado por premiações internacionais e indicações ao Oscar.

“Não é filme que vai ser indicado para o Oscar, não vai concorrer para indicação, mas tem esse selo hollywoodiano de qualidade”, afirma.

Redes de cinema demonstram preocupação

Apesar da aposta da distribuidora, o lançamento enfrenta resistência de parte do mercado exibidor.

Segundo informações publicadas pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, grandes redes de cinema demonstram preocupação tanto com o potencial comercial da obra quanto com possíveis manifestações políticas durante as sessões.

A avaliação é de que o filme pode estimular protestos, confrontos entre apoiadores e opositores de Jair Bolsonaro e gerar problemas de segurança em centros comerciais.

Wilson Feitosa reconhece que o receio existe.

“Vou ter de conversar com todos eles, não acho que eles estão 100% errados, é possível que tenha reações de tudo que é lado”, admite.

Distribuidora nega caráter eleitoral do filme

Embora o trailer internacional apresente Jair Bolsonaro como a “voz do povo” que “enfrentou o sistema” e concentre boa parte da narrativa no atentado sofrido pelo então candidato durante a campanha presidencial de 2018, Feitosa rejeita a ideia de que a produção tenha finalidade política.

Segundo ele, a Europa Filmes prepara uma versão brasileira do trailer que deverá começar a ser exibida nos cinemas dentro de aproximadamente dois meses.

“Quero que seja um filme humano, tem de ser sensível, emocionante. Ele não pode ter esse cunho político que possam dar”, avalia.

“O filme conta uma história que poderia ser de qualquer outra pessoa, mas é um ex-presidente e acabou criando essa polêmica toda. Pra mim, é um filme comum. Qualquer ação [judicial] que vier em cima do filme é de quem o fez, de quem criou. O meu trabalho é apenas distribuir.”

Campanha de Flávio Bolsonaro ficará distante do lançamento

O diretor da distribuidora afirma que não pretende manter contato com a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro para discutir qualquer estratégia relacionada ao lançamento da produção.

Segundo Feitosa, eventual utilização política do filme caberá exclusivamente aos interessados.

“Eu quero que o filme esteja bem longe de toda essa polêmica, que seja vendido como um filme humano, que seja emocionante. Se, depois de lançado, ele vai dar bônus para alguém politicamente, tô cagando. Não tô nem aí”, afirma.

Ainda assim, ele reconhece que um eventual resultado eleitoral favorável ao senador pode refletir na divulgação do longa.

“Se o Flávio ganhar, eles vão entrar com tudo na campanha de promoção do filme, já que o filme vai ser lançado depois das eleições”, prevê.

Diretor rejeita rótulo político

Questionado sobre suas preferências eleitorais, Wilson Feitosa negou ter alinhamento partidário e afirmou que sua trajetória profissional demonstra independência política.

“Não sou bolsonarista, lancei o filme do Lula. Não sou partidário, juro por Deus. Não sei em quem vou votar”, afirma.

Ele também revelou seus votos em eleições anteriores.

“Nunca fui nem uma coisa nem outra, nem esquerda nem direita. Não gosto de comunismo. Todo mundo faz merda e não sou obrigado a concordar com um ou a discordar de outro”, diz.

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