Dirceu diz que proposta de Nikolas para compensar espresários por fim da escala 6×1 é ‘bolsa patrão’

Ex-ministro de Lula afirma que medida amplia renúncia fiscal e contraria avanços nas relações de trabalho

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu criticou duramente a proposta apresentada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL) que prevê o ressarcimento, por parte do governo federal, de custos enfrentados por empresas com o eventual fim da escala de trabalho 6×1. Segundo reportagem do portal Metrópoles, Dirceu considera a iniciativa inadequada sob diferentes aspectos e aponta que ela representa um retrocesso no debate sobre produtividade e condições de trabalho.

Durante declaração pública, o petista classificou a proposta como equivocada e utilizou tom crítico ao se referir à medida.

“O deputado Nikolas Ferreira resolveu criar uma ‘Bolsa Patrão’. Eu não sei se ele sabe, quando um jovem ou uma jovem trabalha cinco dias só, ele produz com mais eficiência. Não sei se ele sabe isso. Ele tem um tempo para o lazer, para a cultura, para o estudo, para produzir mais e melhor. Porque nós só podemos aumentar a produtividade com a tecnologia, com o conhecimento”, disse Dirceu.

Crítica à renúncia fiscal e à produtividade

O ex-ministro também apontou que a proposta implicaria aumento da renúncia fiscal em um cenário já pressionado nas contas públicas. Segundo ele, o país acumula valores elevados nesse tipo de benefício, o que tornaria a medida ainda mais controversa.

“Além de ser uma medida errada, porque é mais renúncia fiscal. O Brasil já tem quase 600 bilhões de renúncia fiscal, e ele está propondo mais. É errada do ponto de vista social, político, econômico, tecnológico. Todos nós sabemos que, se aumenta a produtividade, nós podemos trabalhar menos. O caminho da humanidade é esse, por isso que vários países do mundo já trabalham por 36 horas, 32 horas”, afirmou o petista.

A fala reforça um argumento recorrente no debate internacional sobre jornada de trabalho, que associa ganhos de produtividade à redução da carga horária, sem necessariamente comprometer resultados econômicos.

Disputa sobre direitos trabalhistas

Dirceu também inseriu a proposta no contexto de uma disputa mais ampla entre interesses de empregadores e trabalhadores. Para ele, o posicionamento do parlamentar evidencia uma escolha clara nesse embate.

“No Brasil, em 1917, ou seja, há quase 110 anos atrás, houve uma greve aqui em São Paulo, lutando por oito horas de trabalho e proibição do trabalho infantil e foi vitoriosa. Vocês se lembram que diziam que o Brasil ia quebrar por causa do fim da escravidão? Que o Brasil ia quebrar por causa do salário mínimo? Que o Brasil ia quebrar se fizesse reforma agrária? Agora, o Brasil vai quebrar porque nós vamos trabalhar menos para produzir mais, porque nós teremos mais produtividade”, disse Dirceu.

O ex-ministro ampliou a crítica ao avaliar os impactos da proposta sobre a juventude e o acesso a direitos básicos ligados ao desenvolvimento pessoal.

“Mas é grave um jovem propor para os jovens que eles não têm direito ao lazer, à cultura, à diversão. O mais grave: não têm direito a estudar. Veja bem a gravidade dessa proposta de Nikolas Ferreira. Não é ignorância, é que ele tem lado. Ele está do lado dos patrões”, criticou o petista.

Debate segue no campo político

A discussão sobre o fim da escala 6×1 e seus possíveis impactos segue mobilizando diferentes setores políticos e econômicos. De um lado, há argumentos que defendem maior flexibilidade e compensações para empresas; de outro, posições que destacam a necessidade de modernizar relações de trabalho com foco em qualidade de vida e produtividade.

O tema tende a ganhar espaço nas próximas semanas, à medida que propostas relacionadas ao modelo de jornada avançam no debate público e institucional.

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