Desembargador citado como membro da ‘turma do KN’ em mensagens de Vorcaro deve ser investigado, dizem magistrados

Mensagens extraídas pela PF do celular do ex-banqueiro citam Newton Ramos como parte da “turma” do ministro Kassio Nunes Marques e revelam contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de sua esposa

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Integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) consideram como quase certa a abertura de uma investigação sobre a conduta do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), após a divulgação de mensagens e documentos extraídos pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A informação é da colunista Bela Megale, do jornal O Globo.

O magistrado aparece nas conversas associado à chamada “Turma KN”, expressão que, segundo os registros divulgados, faria referência às iniciais do ministro Kassio Nunes Marques, do STF. As mensagens mostram contatos entre pessoas próximas a Vorcaro, Newton e a advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador e responsável por um escritório contratado pelo Banco Master.

Segundo informações atribuídas a ministros de tribunais superiores, o corregedor nacional de Justiça, Benedito Gonçalves, avalia medidas para apurar possíveis irregularidades envolvendo Newton. Paralelamente, uma representação já foi apresentada ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) pedindo investigação sobre a atuação do magistrado.

Contrato previa honorários de até R$ 427 milhões

Um dos documentos encontrados pela Polícia Federal é um contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos, do qual Camilla Ramos é sócia.

O acordo previa honorários equivalentes a 5% dos valores obtidos pelo banco em caso de sucesso em 12 processos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro. Como as ações envolviam aproximadamente R$ 8,5 bilhões, a remuneração poderia chegar a cerca de R$ 427 milhões em caso de êxito integral.

Camilla também aparece em mensagens acompanhando o andamento de processos relacionados aos créditos. Em junho de 2025, ela comentou com Vorcaro o resultado de um julgamento na Segunda Turma do STF e classificou como “excelente” a manifestação de Nunes Marques.

A decisão terminou por 3 votos a 2. Nunes Marques, Dias Toffoli e Edson Fachin formaram a maioria naquele julgamento, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos. Nunes Marques afirma que a ação não era do Banco Master, mas tratava de uma tese jurídica com alcance para diferentes empresas.

Mensagens citam hotéis, Fórmula 1 e Carnaval

Além das discussões relacionadas aos processos, mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram Newton Ramos tratando com o ex-banqueiro de hospedagens e acesso a eventos.

Entre os episódios divulgados estão pedidos relacionados a estadia no hotel Fasano, ingressos para a Fórmula 1 e acesso a camarotes. Em uma das conversas, um funcionário de Vorcaro menciona a “turma do KN/Newton” ao tratar da inclusão de seis pessoas em um camarote no Carnaval do Rio.

Outro diálogo atribui a Newton uma solicitação para obter uma tarifa de hospedagem para Nunes Marques no Fasano. Vorcaro teria autorizado que a despesa fosse colocada em sua conta. O ministro do STF nega ter feito pedidos ao ex-banqueiro ou autorizado terceiros a falar em seu nome.

A avaliação de magistrados ouvidos sobre o caso é de que uma eventual apuração administrativa sobre Newton poderá também examinar referências feitas a outras autoridades nas conversas. Isso não significa, por si só, que as pessoas mencionadas tenham cometido irregularidades.

Nunes Marques e desembargador negam irregularidades

Em nota, Nunes Marques diz que “nunca votou a favor de Vorcaro do Master, nunca trocou mensagens com o banqueiro e nem pediu nada a ele”. “O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele”, acrescenta Nunes.

O escritório de Camilla Ramos, por sua vez, afirmou que sua atuação em defesa do Master ocorreu “regularmente, dentro dos limites legais e mediante a devida habilitação nos respectivos processos”.

Newton Ramos também confirmou que mantinha uma relação pessoal com Vorcaro anterior aos fatos atualmente investigados. O desembargador sustenta que as solicitações relacionadas a imóveis e transportes ocorreram no âmbito dessa relação privada e não tiveram ligação com sua atividade no Judiciário.

“Tratou-se de situação privada articulada com a profissional que presta serviços para o referido banco, sem qualquer vínculo com funções públicas. Por fim, nunca julguei qualquer causa de interesse do Banco Master”, disse ele.

A representação apresentada ao CNJ pede que Newton tenha prazo para se manifestar e que, caso sejam encontrados elementos suficientes, seja instaurado procedimento para aprofundar a apuração de sua conduta.

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