Demolição do Palácio Monroe completa 50 anos e deixa lições para o Rio e Brasil

Símbolo arquitetônico e político da cidade, prédio histórico deu lugar a vazio urbano no Centro

Cinco décadas após sua derrubada, o Palácio Monroe segue como um dos episódios mais emblemáticos da história urbana do Rio de Janeiro. Antiga sede do Senado Federal e ícone da então Avenida Central, atual Rio Branco, o edifício foi demolido em 1976 em meio a disputas políticas, interesses econômicos e divergências sobre preservação arquitetônica. A reportagem especial é de O Globo, assinada por Pedro Tinoco.

Construído originalmente para representar o Brasil na Exposição Universal de Saint Louis, em 1904, o projeto do engenheiro Francisco Marcelino de Souza Aguiar conquistou reconhecimento internacional ao receber a Medalha de Ouro no evento. O sucesso levou à decisão de desmontar a estrutura metálica e remontá-la na capital federal da época.

A partir de 1906, já instalado no Centro do Rio, o prédio passou a ser conhecido como Palácio Monroe, em homenagem ao ex-presidente dos Estados Unidos James Monroe. Com estilo eclético e forte inspiração no renascentismo francês, o edifício rapidamente se tornou um dos principais cartões-postais da cidade.

Um símbolo arquitetônico e político do Brasil

Ao longo das décadas, o Monroe foi palco de momentos históricos. Abrigou a Câmara dos Deputados entre 1914 e 1922 e, posteriormente, o Senado Federal, a partir de 1925. Também recebeu eventos marcantes, como a visita do rei Alberto da Bélgica, em 1920, quando foi iluminado de forma especial.

Durante a Revolução de 1930, o edifício chegou a ser ocupado como quartel-general das tropas lideradas por Getúlio Vargas. Após a redemocratização, voltou a sediar o Senado até a transferência da capital para Brasília, mantendo ainda atividades administrativas até meados da década de 1970.

Mesmo com a perda de protagonismo político, sua relevância histórica e estética permanecia evidente. Com domos imponentes, colunas gregas e esculturas em mármore de Carrara, o Monroe marcava a paisagem urbana e simbolizava uma era da arquitetura brasileira.

Debate sobre preservação dividiu especialistas

Nos anos 1970, o destino do prédio passou a ser amplamente discutido. O Instituto dos Arquitetos do Brasil propôs o tombamento do conjunto arquitetônico da antiga Avenida Central, incluindo o Monroe. No entanto, a ideia enfrentou resistência.

O arquiteto e urbanista Lucio Costa, uma das principais vozes do modernismo brasileiro, se posicionou contra a preservação. Para ele, o estilo eclético do palácio representava um “hiato” na evolução da arquitetura nacional, o que pesou na decisão final.

A escolha refletia uma disputa maior entre correntes arquitetônicas e visões de cidade: de um lado, a valorização do patrimônio histórico; de outro, a busca por uma identidade moderna para o país.

Interesses econômicos e decisão política pesaram

Embora diversas teorias tenham surgido ao longo dos anos — incluindo a suposta necessidade de obras do metrô ou desavenças políticas —, especialistas apontam que fatores econômicos e interesses imobiliários tiveram papel decisivo.

Documentos da época revelam que havia interesse de órgãos públicos em ocupar o prédio, mas prevaleceu a orientação do governo federal pela demolição e transformação da área em espaço público.

A demolição foi realizada por uma empresa privada, que pagou pelo direito de executar o serviço e ficou com os materiais do edifício. Parte dos elementos decorativos, como leões de mármore, foi vendida e hoje está espalhada pelo país.

Legado e memória após a demolição

No lugar do Monroe, hoje está a Praça Mahatma Gandhi, que conta com chafariz e estacionamento subterrâneo. Ainda assim, para muitos especialistas e moradores, o espaço nunca preencheu o vazio deixado pelo palácio.

Peças remanescentes do edifício estão preservadas no Museu do Senado, em Brasília, incluindo mobiliário, vitrais e objetos históricos. Alguns desses itens, inclusive, sofreram danos durante os ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 e ainda passam por processos de restauração.

A demolição do Palácio Monroe permanece como um marco de reflexão sobre decisões urbanísticas no Brasil. Para estudiosos, o episódio evidencia como escolhas políticas e econômicas podem impactar, de forma irreversível, a memória e a identidade de uma cidade.

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