Comandantes das Forças Armadas brasileiras levaram ao Ministério da Defesa e ao Palácio do Planalto uma avaliação considerada sensível sobre o novo cenário geopolítico na América do Sul, informa o colunista Tales Faria, do Correio da Manhã. Segundo os militares, após a invasão à Venezuela e à retirada do presidente Nicolás Maduro, os Estados Unidos podem voltar sua atenção para o controle da extração de petróleo na Margem Equatorial do Brasil.
O alerta transmitido ao governo brasileiro aponta que o país estaria atrasado em consolidar presença econômica e estratégica na região. Na visão dos militares, se o Brasil não avançar rapidamente na ocupação produtiva da Margem Equatorial, outras potências, não apenas os EUA, podem se sentir estimuladas a disputar espaço.
Preocupação após fala de Trump
O sinal de alerta ganhou força após a primeira entrevista coletiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedida no sábado, 3. Na ocasião, Trump comentou a invasão da Venezuela e a captura de Maduro, em declarações que, segundo os militares brasileiros, reforçaram uma mudança de postura estratégica de Washington na América Latina.
A preocupação, segundo relatos feitos ao Planalto, não tem motivação ideológica. As Forças Armadas brasileiras mantêm proximidade histórica com os militares estadunidenses. O receio está concentrado na dimensão geopolítica e econômica das declarações do presidente dos EUA.
Trump deixou claro que sua administração está priorizando o acesso a novas fontes de energia, especialmente petróleo, além de minerais considerados críticos para a economia e a defesa dos Estados Unidos.
Retomada da Doutrina Monroe
Durante a entrevista, Trump enfatizou que seu governo retomou a chamada “Doutrina Monroe” na condução da política externa para a América Latina. Criada em 1823 pelo então presidente James Monroe, a doutrina estabelece o Hemisfério Ocidental como área de interesse estratégico prioritário dos Estados Unidos, devendo ser mantida distante da influência de potências externas.
Na leitura dos militares brasileiros, a reativação explícita desse conceito reforça a ideia de que Washington pode agir de forma mais assertiva para garantir recursos estratégicos na região, inclusive por meio de pressão política ou ações indiretas.
Petróleo e minerais no radar
A Margem Equatorial do Brasil é vista como um ativo central nesse cenário. De acordo com estimativas citadas por militares brasileiros, a região pode concentrar até 30 bilhões de barris de petróleo, volume capaz de atrair forte interesse internacional.
Além disso, áreas da Amazônia que fazem fronteira com a Venezuela e a Colômbia também são apontadas como ricas em Minerais Críticos e Estratégicos, conhecidos como MCEs. Esses recursos são fundamentais para tecnologias de ponta, como veículos elétricos, energia eólica, sistemas digitais e aplicações na área de Defesa.
Minerais como lítio, terras raras, grafite e nióbio enfrentam riscos de escassez global e alta concentração de fornecedores, o que os torna peças-chave na transição energética e na segurança econômica das grandes potências.
Colômbia no discurso de confronto
Questionado sobre suas intenções em relação à Colômbia, Trump adotou um tom ainda mais agressivo ao se referir ao presidente Gustavo Petro, com quem tem trocado hostilidades nos últimos meses.
“Ele está produzindo cocaína e a estão enviando para os Estados Unidos, então, sim, ele tem que cuidar do próprio traseiro”, disse o presidente americano. Em seguida, acrescentou: “Espero que ele esteja ouvindo que será o próximo.”
As declarações foram interpretadas por autoridades brasileiras como um sinal de que Washington pode ampliar a pressão militar e política sobre governos da região que contrariem seus interesses estratégicos.
Reação no Planalto
As falas de Trump repercutiram rapidamente em Brasília. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou preocupação em reunião on-line realizada no sábado com ministros e assessores do Planalto. Segundo relatos, Lula pediu atenção especial à fronteira com a Venezuela e demonstrou apreensão com as declarações do presidente americano sobre a Colômbia e sobre Cuba.
Na entrevista, Trump também mencionou Havana de forma direta: “Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, eu estaria pelo menos preocupado.”
Para Lula, as declarações do presidente dos EUA indicam desprezo por acordos multilaterais e pelas normas internacionais. Na avaliação do presidente brasileiro, essa postura transforma Trump em um fator de instabilidade global, sobretudo para países que despertam interesse econômico estratégico, como o Brasil. “É um perigo”, tem dito Lula reservadamente a assessores.





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