O governo de Donald Trump deixou explícita sua intenção de redefinir a política dos Estados Unidos para a América Latina. A nova Estratégia de Segurança Nacional, divulgada pelo Conselho Nacional de Segurança da Casa Branca, reafirma o objetivo de “retomar o controle” sobre o continente, ampliar a presença militar e reinstalar, na prática, os princípios da Doutrina Monroe — a antiga diretriz segundo a qual Washington se reserva o direito de evitar influências externas no hemisfério.
O documento transforma em política declarada o movimento que já vinha sendo percebido nas últimas semanas, quando o envio de caças e de navios de guerra ao Caribe elevou o nível de tensão regional. Agora, o texto oficial indica que essa deve ser a nova norma nas relações dos EUA com seus vizinhos latino-americanos.
CIA terá papel estratégico no hemisfério
Entre os trechos que mais chamaram a atenção de diplomatas estrangeiros, está a menção direta à utilização da CIA para “identificar pontos e recursos estratégicos no Hemisfério Ocidental, com vistas à sua proteção e desenvolvimento conjunto com parceiros regionais”. A referência inédita à agência de inteligência no contexto de gestão territorial ampliada gerou preocupação em várias capitais.
Ao longo do documento, a América Latina é descrita como “nosso continente”, reforçando a visão histórica dos EUA de que a região integra sua área de influência direta. A estratégia também lista como prioridades o combate às drogas, à imigração e à presença de potências de fora do continente — em especial a China, mas também a Rússia.
Mensagem direta a chineses, russos e governos locais
O plano não deixa margem para dúvidas quanto à intenção de barrar a expansão estrangeira na região. “Concorrentes de fora do Hemisfério têm feito grandes incursões em nosso Hemisfério (…) Permitir essas incursões sem uma reação séria é outro grande erro estratégico americano das últimas décadas”, afirma o texto, num recado claro à presença crescente de chineses e russos na infraestrutura, no comércio e no financiamento de projetos latino-americanos.
A Casa Branca destaca ainda que a ideologia dos governos locais é irrelevante, desde que haja “alinhamento” com os objetivos de Washington. O documento também critica iniciativas de países latino-americanos que cogitam tributar grandes empresas estadunidenses, incluindo gigantes da tecnologia. “Os Estados Unidos também devem resistir e reverter medidas como tributação direcionada, regulamentação injusta e expropriação que prejudicam as empresas americanas”, diz o texto.
Defesa de monopólio comercial e expulsão de competidores
Em outro trecho, o plano propõe abertamente que Washington assuma controle sobre parcerias estratégicas e impeça a atuação de empresas estrangeiras que disputem espaço com corporações dos EUA. “Os termos de nossos acordos, especialmente com os países que mais dependem de nós e portanto, sobre os quais temos maior influência, devem ser contratos de fornecedor único para nossas empresas. Ao mesmo tempo, devemos fazer todo o possível para expulsar empresas estrangeiras que constroem infraestrutura na região”, afirma o documento.
A formulação revela uma guinada mais agressiva, que vai além de pressões diplomáticas e aponta para uma política de exclusividade econômica — conceito que lembra práticas adotadas pelos EUA no início do século XX.
Europa, Ásia e Oriente Médio
A nova Estratégia de Segurança Nacional acusa países europeus de dificultarem o avanço de um acordo de paz para a Ucrânia e destaca que haverá um “grande foco” em Taiwan, em razão da posição central da ilha asiática na produção mundial de semicondutores.
Um dos eixos centrais da estratégia é a “transferência de responsabilidades” dos EUA para seus parceiros, prática defendida em diferentes frentes regionais. O documento afirma que essa mudança será aplicada tanto no leste asiático quanto no Oriente Médio.
No leste asiático, Washington pressiona Japão e Coreia do Sul a ampliarem seus gastos militares, com investimentos voltados para “dissuadir adversários”. O texto acrescenta: “Também iremos endurecer e fortalecer nossa presença militar no Pacífico Ocidental, enquanto, em nossas relações com Taiwan e a Austrália, manteremos uma retórica firme sobre o aumento dos gastos em defesa”.
No Oriente Médio, a orientação é “mudar responsabilidades e construir a paz”. A estratégia afirma que, com o recente bombardeio a instalações nucleares do Irã e um acordo de paz na guerra na Faixa de Gaza, será possível reduzir o envolvimento direto dos EUA na região e depender mais de parceiros locais, que, segundo o documento, “estão demonstrando seu compromisso em combater o radicalismo”.
A nova diretriz também reforça o objetivo de “acabar com as migrações em massa no mundo” e transformar o controle de fronteiras no “elemento principal da segurança” estadunidense sob o governo Trump. O documento ainda critica duramente políticas migratórias adotadas pela Europa na última década e afirma que os EUA “apoiarão aqueles que se opõem aos valores promovidos pela União Europeia” nesse tema.






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