Há apenas uma década, a política externa dos Estados Unidos para a América Latina parecia caminhar para o fim das intervenções militares. Em 2013, o então presidente Barack Obama declarou que a Doutrina Monroe — por quase dois séculos usada para justificar a supremacia militar dos EUA no continente — estava “morta”.
Agora, o conceito que sustentou invasões, golpes e operações militares na região volta ao centro do debate, aponta reportagem do jornal estadunidense The New York Times. O presidente Donald Trump ordenou ao Pentágono que use força militar contra determinados cartéis de drogas latino-americanos, decisão que levanta receios de novas ações armadas nos países vizinhos.
O alcance da ordem ainda é incerto, mas México e Venezuela — onde o governo dos EUA já designou cartéis como organizações terroristas — estão entre os mais expostos. Em outras nações, como o Equador, que nos últimos anos enfrentou ondas de violência ligadas ao narcotráfico, a possibilidade de tropas estrangeiras gera rejeição.
“Sou um conservador de direita, então quero cidadãos armados e o Exército atirando de fato. Mas eu não concordaria com soldados estrangeiros no Equador”, afirmou Patricio Endara, empresário de Quito, capital equatoriana.
Memória de fracassos e imposições
Na Colômbia, o senador Iván Cepeda classificou intervenções externas como “fórmulas que demonstraram, até a exaustão, seu fracasso”. Já o acadêmico guatemalteco Fernando González Davidson afirmou que essas ações “causam um dano imenso” e muitas vezes buscam “trocar regimes”: “Os EUA deixam o poder nas mãos de uma classe corrupta e criminosa alinhada aos seus próprios interesses”.
O histórico de intervenções é extenso. Em 1954, um golpe apoiado por Washington depôs o presidente democraticamente eleito da Guatemala sob o argumento de que sua reforma agrária ameaçava a United Fruit Co., gigante estadunidense que controlava grandes áreas no país. O episódio tornou-se um símbolo do uso da política externa como instrumento de defesa de interesses econômicos dos EUA, acima da soberania local.
Do Caribe à América Central
No início do século XX, o poder militar dos EUA se fez sentir em várias frentes: ocupação do Haiti entre 1915 e 1934; presença na República Dominicana de 1916 a 1924 para controlar dívidas externas; incursões repetidas em Honduras nas décadas de 1910 e 1920; e ocupação da Nicarágua de 1912 a 1933 para evitar a construção de um canal por outra potência.
Durante a Guerra Fria, a lógica se adaptou. Washington apoiou golpes que derrubaram governos democraticamente eleitos na Guatemala, no Brasil e no Chile, manteve tropas na República Dominicana e em Granada e justificou as ações como barreiras ao “avanço comunista”.
Essa repetição de intervenções acabou unindo boa parte da região em defesa da soberania. “Tem havido uma vontade férrea entre os latino-americanos de definir como um de seus valores centrais a soberania nacional e a não intervenção”, afirmou Alan McPherson, historiador da Temple University, na Filadélfia.
Panamá: operação e memória
Mesmo após o fim da Guerra Fria, os EUA voltaram a agir militarmente. Em 1989, tropas invadiram o Panamá para depor Manuel Noriega, acusado de narcotráfico. Para os estadunidenses, foi a “Operação Justa Causa”. Para os panamenhos, como lembra o líder comunitário Efraín Guerrero, ficou o lema “Proibido Esquecer”: “Temos que lembrar de todos que morreram”.
Hoje, a operação é citada como modelo por críticos do governo de Nicolás Maduro, na Venezuela. Os EUA oferecem recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à prisão do presidente, acusado — sem provas — de ligações com o cartel de Sinaloa, no México, e o grupo Tren de Aragua.
Nervo histórico
Para Christopher Sabatini, especialista em América Latina do centro de estudos Chatham House, em Londres, a medida de Trump vai “tocar aquele nervo histórico e profundamente enraizado” sobre as intervenções estadunidenses na região. E como a violência neocolonial não acontece sem conivência de certas elites locais, Sabatini pondera: “Muitas vezes houve um tipo particular de facção partidária que fazia lobby para que os Estados Unidos se envolvessem”. Parece coerente, se pensarmos em como a extrema direita brasileira tem agido atualmente para ajudar nas intervenções de Trump com sanções e tarifas.






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