A um mês e meio das eleições presidenciais, o polêmico filme “Dark Horse”, sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, avançou mais uma etapa no caminho para chegar aos cinemas brasileiros. A Agência Nacional do Cinema (Ancine) aceitou na sexta-feira (21) o registro da produção como obra estrangeira.
O procedimento é apenas uma das etapas necessárias para o lançamento comercial. O longa ainda precisa obter o Certificado de Registro de Título (CRT), também emitido pela Ancine, além da classificação indicativa do Ministério da Justiça.
O avanço ocorre em um momento politicamente delicado. O filme entrou no radar do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Polícia Federal e provocou desgaste na campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) depois da divulgação de mensagens relacionadas à busca de recursos para a produção.
Apesar da repercussão durante a campanha, a previsão da distribuidora Europa Filmes é que “Dark Horse” chegue às salas somente depois das eleições, a partir de novembro. As informações são da colunista Malu Gaspar, de O Globo.
Ancine libera primeira etapa
A tramitação desta fase durou cerca de dois meses. A Europa Filmes apresentou em 22 de junho o pedido de Registro de Obra Estrangeira (ROE), deixando formalmente estabelecido que “Dark Horse” não é uma produção nacional.
Agora, a distribuidora terá que solicitar o CRT. Para emitir o documento, a Ancine exige a comprovação dos direitos de exploração comercial da obra no Brasil e no segmento em que ela será lançada.
O plano comercial é ambicioso. A distribuidora trabalha com a possibilidade de colocar o filme em pelo menos 650 salas de cinema, além de disponibilizar cópias dubladas em diferentes regiões do país.
“Dark Horse” é estrelado por Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em “A paixão de Cristo”. Michelle Bolsonaro é vivida pela atriz Camille Guaty, enquanto Marcus Ornellas interpreta Flávio Bolsonaro.
PF cobra explicações
Paralelamente aos procedimentos para o lançamento, a Polícia Federal solicitou informações à Ancine sobre a produção.
Em ofício, a PF deu prazo de dez dias para que a agência apresente dados relacionados ao registro, comunicação de produção, certificação e outros procedimentos administrativos envolvendo “Dark Horse”.
Os investigadores também querem informações sobre pessoas físicas e jurídicas relacionadas à produção, incluindo produtores, coprodutores, distribuidoras, representantes legais e demais participantes registrados nos bancos de dados da agência.
Outro ponto da apuração é verificar se a produção recebeu incentivos fiscais, recursos públicos federais ou outros benefícios ligados às políticas de financiamento do setor audiovisual.
Uma das linhas investigadas pela PF busca esclarecer ainda a destinação de recursos atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A investigação procura saber se valores relacionados ao financiamento do filme teriam sido utilizados para bancar despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro durante sua permanência nos Estados Unidos.
Produção foi autuada
O avanço do registro não encerra outro problema enfrentado pela produção. Em 28 de julho, a Ancine abriu processo administrativo e autuou a produtora Go Up Entertainment por irregularidades relacionadas às gravações realizadas no Brasil.
Segundo o auto de infração, a empresa teria produzido no país a obra cinematográfica estrangeira “Dark Horse” sem fazer a comunicação obrigatória à agência.
Produções internacionais filmadas no Brasil precisam estar sob responsabilidade de uma empresa registrada na Ancine. Também devem ser apresentados documentos como contrato, plano de filmagem e informações sobre profissionais estrangeiros envolvidos.
De acordo com a apuração divulgada, essas exigências não foram cumpridas no caso do longa. A infração pode resultar em multa entre R$ 2 mil e R$ 100 mil.
Filme preocupa campanha de Flávio
A repercussão política levou integrantes do núcleo da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro a assistir antecipadamente ao longa para avaliar riscos de judicialização e possíveis novos desgastes eleitorais.
A avaliação interna relatada é que “Dark Horse” se aproxima mais de um thriller sobre o atentado a faca sofrido por Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018 do que de uma cinebiografia tradicional.
Flávio teria participação limitada na história, enquanto Michelle Bolsonaro ocupa espaço maior na trama. A produção recria episódios relacionados ao atentado e à campanha de 2018, mas modifica nomes de personagens ligados a acontecimentos reais.
O planejamento da distribuidora é esperar o encerramento da disputa eleitoral para colocar o filme no circuito comercial. A expectativa varia entre 800 mil espectadores, no cenário considerado pessimista, e mais de 2 milhões na projeção mais otimista.







Deixe um comentário