Nos últimos anos, a flauta doce passou a ser companheira inseparável de Herick Galdino de Souza, de 14 anos, que tira dela muito mais do que sons. A busca pelas notas no corpo do instrumento funciona como terapia, além de proporcionar benefícios como melhoria da concentração e coordenação motora do adolescente que nasceu com síndrome de Down.
O jovem é um dos alunos do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão da Escola de Música da Rocinha, iniciativa que desde 2019 atende crianças e jovens a partir de 5 anos com Down, autismo e outras deficiências. Os alunos são moradores na favela da Zona Sul e de outras comunidades como Vidigal, Vila Canoas e Muzema.
— Muita coisa mudou na vida do meu filho depois que ele começou a estudar música. Observo que ele tem um entendimento melhor das coisas, mais interação com outras pessoas e até mesmo para a fala trouxe benefícios, assim como para a coordenação motora.
Aprender um instrumento exige paciência e dedicação e isso tem sido muito valioso para ele. Ajudou até a superar a perda da mãe para a Covid-19, em maio, que o tinha deixado muito abalado — afirmou o lojista Edson Pereira de Souza, de 36 anos, pai do aluno.
A experiência de Herick e seus mais de 30 colegas com o projeto será mostrada num filme roteirizado e dirigido por Cléber Araújo, que será lançado nos próximos dias. O documentário com pouco mais de meia hora de duração será exibido no canal do YouTube da EMR.
O diretor, que é também morador da Rocinha, mostra a trajetória dos alunos e o aprendizado nas aulas on-line, no começo da pandemia, e depois presencial na escola, onde contam com suporte individual de professores de música com formação em pedagogia, psicomotricidade e psiquiatria.
— A importância do filme é mostrar a Rocinha por outro viés que não seja o da violência. As pessoas da favela já têm dificuldade de acesso a tanta coisa e quem tem deficiência é ainda mais invisível. Vamos jogar luz sobre essas pessoas e mostrar um trabalho diferenciado. O núcleo conta com profissionais especializados . Queremos inspirar outras iniciativas parecidas — explica Cleber Araújo.
Um dos personagens do filme é o aluno Olivan Fernandes da Silva, de 10 anos, morador na Muzema. Interessado em aprender bateria, começou no projeto pela flauta, mas foi nos teclados do piano que descobriu uma vocação e não descarta seguir carreira na música. Mesmo se o sonho do filho não se concretizar, a mãe dele, a dona de casa Aparecida Borges da Silva Fernandes, de 40 anos, já colhe os frutos desse aprendizado:
— Ele era uma criança agitada e inquieta. Chegamos aqui e os professores abraçaram a gente. Vim em busca de ajuda. O projeto ampliou o mundo dele. A música funciona como um santo remédio. Ajudou até a me aproximar mais do meu filho — contou a mãe do menino, que tem autismo.
* Com informações de ótima reportagem do Extra






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