No meio da pressa cotidiana, há quem encontre refúgio no tempo vagaroso. Seja em uma panela no fogo, o cheiro de terra molhada no quintal, a cadência de uma canção repetida ao violão. Pequenos gestos que, à primeira vista, parecem triviais, mas se revelam grandes aliados contra o estresse e a ansiedade— em um mundo saturado de telas e notificações, eles oferecem o raro luxo de estar presente, e inteiro, no momento.

Saulo Júnior, de 26 anos, sente isso na pele. Quando cozinha, escreve ou corre, encontra uma forma silenciosa de organizar o mundo. “O surgimento dessas atividades veio de forma natural. Mas, hoje em dia, eu faço essas coisas com a consciência de que fazem bem para a minha saúde mental. Procuro me afastar do vício em telas que faz de todos nós vítimas”. 

Cozinhar e montar pratos é um processo terapêutico para o Saulo | Arquivo pessoal

Para Rodrigo Ignácio, de 52 anos, a âncora é a música. Ele conta que sempre sofreu influência do pai, responsável por preencher a casa com canções de MPB em seu violão. Aos poucos, o instrumento se tornou parte da rotina, até que finalmente ganhou o próprio em um momento delicado da vida. 

“Eu tenho uma questão física, sequela de paralisia cerebral, então tenho dificuldade para caminhar, tenho algumas restrições nesse sentido. A música era algo que eu já me interessava. Como eu tinha que ficar muito parado nessa recuperação das cirurgias, minha avó materna teve essa ideia e me deu um violão de presente”, conta.

Rodrigo com o primeiro violão, quando tinha 4 anos | Arquivo pessoal

No começo, a conexão com a música não tinha qualquer relação com a busca terapêutica, e se tornou uma resultante da prática.

“A música, na verdade, é a minha companheira de vida. Tem uma música que fala: ‘Se não fosse o amigo violão, eu morria de tristeza e de dor’. Não sei se eu chegaria a tanto, mas com certeza o violão é um instrumento bastante importante para mim. Fiquei bastante tempo sem tocar, inclusive, falar desse assunto parece que é um chamado, a música me chamando de novo”, brinca Ignácio.

O psiquiatra Antônio Egídio, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que o efeito calmante dessas atividades não é apenas psicológico, mas também neurobiológico. 

“O cérebro ativa uma rede de mecanismos que favorecem o bem-estar. A concentração na tarefa estimula o córtex pré-frontal, que ajuda a regular emoções e a inibir pensamentos intrusivos, favorecendo um estado de atenção plena. Os gânglios da base e o cerebelo, responsáveis pela coordenação de movimentos e pela automatização de sequências motoras, entram em ação, tornando a atividade fluida e menos cognitivamente exigente — o que diminui a sobrecarga mental”, explica.

Quando o lazer vira renda

A conexão com o simples também pode virar trabalho, sem perder o caráter terapêutico. É o caso da Lais Campos, de 31 anos, que começou a fazer artesanato como uma ponte para se reencontrar e acabou transformando a prática em negócio. Hoje, ela tem uma empresa que vende itens de ginecologia natural, incensaria e criação de peças artesanais sob encomenda.

“Cada vez que eu colocava a minha energia, meu tempo, na arte, compreendia partes de mim que nem Froid ou minha terapeuta explicam. Um pouco antes da pandemia, decidi registrar a Bioabs como empresa, entendendo que isso não faria com que ela deixasse de ser um projeto latino e artesanal, mas sim ganharia uma base mais sólida, uma estrutura, alcançando, assim, mais círculos, mais mulheres”, detalha a empreendedora.

Lais Campos acabou transformando a prática em negócio | Arquivo pessoal

O psicólogo Bruno Chapadeiro, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que essas práticas são formas de autorregulação precisamente porque transcendem o individual. 

“É muito curativo se enquanto adultos, pudermos fomentar nossos próprios sonhos, com companhia e pares, num lugar de vida e não de morte, sem seguir scripts alheios. Para que nós e o outro conosco possa também viver os próprios sonhos. É bom ter companhia, ter par, a gente cuida melhor da gente mesmo. Em resumo: a gente aprende a (auto)cuidar sendo cuidado”, reforça.

O resgate do silêncio

Segundo a professora Alexandra Cleopatre, do departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade do Estado do Rio (Uerj), a sociedade vive um tempo de aceleração que necessita de pausas.

“Você tem um cenário de muito desgaste no próprio viver da cidade. Nesse cenário, as pessoas vão tentando resgatar um mínimo de silêncio, de pausa. As atividades manuais, elas entram nesse cenário porque, de alguma forma, reativam a possibilidade de eu estar ali comigo mesma fazendo alguma coisa. O que instala uma espécie de pausa”, explica.

Esse ponto, destacado pela profissional, é o mesmo já pontuado pelo Saulo. Para o rapaz, que trabalha como jornalista, essas pausas consigo mesmo são fundamentais no dia a dia.

“São momentos de introspecção, como se fosse um tempo para conversar consigo mesmo. Às vezes, a gente faz tanto as coisas no dia a dia que não sabe direito o porquê de fazer aquilo. Esses momentos ajudam a botar as ideias no lugar. Essa é a mudança”, diz.

Alexandra pontua ainda que podemos pensar nessas práticas como de resistência e de ativação comunitária. Para reforçar essa afirmação, ela conta uma história marcante que viveu durante uma viagem de trem na Europa.

“Eu estava viajando, acompanhando meu pai numa viagem de trabalho, e nesse trem uma menina de 13 anos viu que eu estava dobrando origamis. Ela ficou colada em mim, até que conseguiu falar comigo e começamos então a trocar que ela também dobra origami. No meio da conversa que a gente teve, eu perguntei para ela: ‘Você é de onde?’. E ela me disse: ‘Da Ucrânia’. Que é um país que está em guerra. E ela disse: ‘O origami, para mim, é a felicidade’“.

Quando a arte e terapia se encontram

Em muitos casos, práticas como pintura, modelagem, colagem, música, escrita e dança já são usadas por profissionais em consultórios. A arteterapia é uma abordagem terapêutica que utiliza esses recursos artísticos para promover autoconhecimento, expressão emociona, bem-estar e muitos outros benefícios.

Arteterapia usada com crianças | Arquivo pessoal

O arteterapeuta Jardel Augusto Lemos, que trabalha com crianças com deficiência intelectual (DI), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno do Espectro Autista (TEA), explica que o foco não está na técnica ou no resultado estético, mas no processo criativo e naquilo que ele desperta no participante.

“As atividades, elas precisam ser pensadas para cada paciente, para cada habilidade que eu quero trabalhar, alcançar, almejar. Então, você não precisa pensar em atividades muito elaboradas, você precisa conhecer o corpo daquele paciente, conhecer o histórico daquele paciente, conhecer o que aquele paciente gosta de fazer e, a partir dali, pensar habilidades que eu possa ativar com aquelas atividades”, descreve Jardel.

Ele exemplifica como funciona o processo na prática: “Uma criança que tem dificuldade em escrever. Eu vou pintar, vou pintar com o dedinho, com a mão, na parede, no espelho. Eu vou aguçar o corpo dela, eu vou aguçar a memória corporal dela. Eu vou criar momentos de satisfação até ela chegar, por exemplo, no pincel”.

Mendy Ribeiro, social media de 27 anos, conta que o filho Miguel, de 7, começou a fazer a arteterapia quando recebeu o diagnóstico de autismo. No entanto, a relação com pinturas e desenhos está presente na vida dele desde cedo, quando ele começou a se expressar através do lápis de cor. 

Miguel usa a arte para se expressar | Arquivo pessoal

“Ele sempre foi uma criança que gostou muito de arte, desde pequenininho. Sempre se expressou pintando, desenhando… Durante a pandemia, a gente morava numa casa, onde ele acabou pintando todas as paredes. E, como era pandemia, a criança não podia sair, distraía ele. Então, eu vejo que já começou ali, desde sempre pegando pincel, pintando, colorindo”, conta a mãe.

Ao todo, Miguel faz sete tipos diferentes de terapia. Com o tempo, e o uso da arte em alguns desses métodos, Mendy percebeu mudanças na criança. 

“As pequenas coisas que ele faz com as próprias mãos ajudam muito. Ele desenvolve coisas que a gente acha que são simples, mas para crianças autistas não são. Desde sempre, quando ele não falava, eu já via que ele se comunicava pela arte, com desenhos. Eu vejo como tá o humor dele também através disso, se ele está pintando mais calmo, sei que está tranquilo, mas se está pintando de qualquer jeito, vejo que está estressado”, detalha.

A administradora Suzana Martins, de 28 anos, compartilha do mesmo sentimento que Mendy. Ela percebeu que o filho, Pedro Henrique Torrão, de 6 anos, fica mais calmo quando mistura a arte com terapia — ele também tem o diagnóstico de TEA.

“É uma das terapias que mais o acalma. Às vezes, ele chega desregulado e, com todas as técnicas desenvolvidas ali em atendimento, sai uma criança completamente diferente da que entrou. No início, eu imaginava a arteterapia somente como uma atividade para desenvolver motricidade fina na criança e, na verdade, vai muito além de tudo isso. Eu me surpreendi o quanto o Pedro me mostra ser mais capaz a cada sessão”, diz.

Se reconectar

‘A terapia das pequenas coisas’, como alguns chamam, não promete curas milagrosas. Mas, para quem vive os dias no compasso acelerado do mundo, ela oferece algo precioso: a chance de respirar fundo e se reconectar.

“Quando articuladas com acompanhamento profissional, apoio comunitário e mudanças nas condições de vida, elas podem ser recursos valiosos para ampliar a sensação de bem-estar e de controle sobre a própria rotina”, finaliza Chapadeiro.

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