Em janeiro de 1999, o maestro português Armando Prazeres foi assassinado no Rio de Janeiro. O carro que ele dirigia estava abandonado em um dos acessos ao Complexo da Maré, Zona Norte da cidade. A partir do luto, o jornalista Carlos Eduardo Prazeres, filho do músico, criou a Orquestra Maré do Amanhã, um dos maiores projetos de formação musical popular do país, que completou 15 anos em 2025.
Não há como falar da Orquestra Maré do Amanhã sem atravessar a morte de Armando Prazeres. É o que relatam o fundador do projeto e outros envolvidos ouvidos pela Agenda do Poder. O local onde o corpo foi deixado tornou-se ponto de partida simbólico para uma iniciativa que, ao longo dos anos, impactou mais de 17 mil alunos.
O projeto nasceu formalmente em 2010, a partir de um edital da Lei do ISS, mecanismo de financiamento à cultura. À época, Carlos Eduardo havia deixado a orquestra que administrava com o pai. Antes de avançar na história do projeto, é preciso voltar ao maestro.
“O maestro do Papa”

Armando Prazeres nasceu em 1934, na vila de Arouca, em Portugal. De origem humilde, teve o primeiro contato com a música em um seminário católico. A formação o levou a estagiar na Capela Sistina, no Vaticano, e ao Conservatório de Santa Cecília, em Roma, onde aprofundou os estudos musicais.
No Brasil, construiu uma trajetória marcada pela circulação entre espaços consagrados e territórios populares e foi um dos pioneiros na realização de concertos ao ar livre.
Conhecido como “maestro do Papa”, regeu a Orquestra Sinfônica Brasileira acompanhada por um coral de 2 mil vozes na missa campal celebrada por João Paulo II, no Aterro do Flamengo, em 1980.
Naquela década, passou a conduzir a própria orquestra, a Petrobras Pró-Música, formada por 63 músicos. Nesse período, convidou o filho para trabalhar com ele. Carlos Eduardo, então recém-formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), dava aulas de português na Rocinha.
Eu dava aula na Rocinha, sempre gostei disso. Talvez tenha puxado dele. Quando me chamou e a proposta era levar música às favelas, falou a minha linguagem”, recorda.
Carlos abandonou a carreira que havia iniciado para trabalhar com o pai. Juntos, realizaram concertos em diferentes territórios da cidade.
“A gente fez muitas apresentações. Só na Maré foram três concertos, quando ainda era palafita. Rocinha, Vila Valqueire. Alguns com a bateria da Acadêmicos da Rocinha”, diz.
Esse trânsito entre palcos tradicionais e espaços populares não é um fenômeno isolado na história da música de concerto no Brasil.

Segundo o pesquisador Felipe da Costa Trotta, professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), a presença da música de concerto em territórios populares antecede os registros oficiais mais difundidos.
“A música clássica no Brasil tem sido praticada desde o período colonial, executada por músicos que não eram das elites. Era comum, inclusive, a formação musical de pessoas escravizadas para atender à demanda da monarquia e das elites”, explica.
A partir do século XIX, trabalhadores negros livres passaram a ocupar espaço nas bandas militares. Na época, o serviço militar começava a ser uma opção para pessoas de baixa renda e ex-escravizados que buscavam alguma legitimidade e subsistência.
“As bandas militares foram responsáveis, no final do século XIX e início do século XX, por boa parte da produção musical que se fazia nas ruas, nas praças, tanto na seara militar quanto nas festas. Essa negociação entre uma orquestra clássica codificada e a banda sempre aconteceu. E quem transitava muito nesses espaços eram músicos, muitos deles provenientes de extratos mais baixos da população”, diz Trotta.
Ainda assim, o consumo da música de concerto permaneceu associado às elites econômicas e educacionais. A imagem cristalizada da orquestra, músicos em postura rígida, vestimentas formais, maestro à frente e plateia elitizada, consolidou-se como representação dominante.
“Falando de legitimidade, o consumo dessa música é prioritariamente feito pelas elites, e são elas que produzem essas orquestras”, afirma o pesquisador.
A trajetória de Armando Prazeres dialogava com essa contradição: regia grandes orquestras, mas insistia em deslocar a música para fora dos espaços tradicionais.
Primeiro música, segundo a música, terceiro a música
Na dimensão artística, Carlos descreve o pai como irreverente e criativo. “Não era brasileiro, mas tinha um amor pelo Brasil maior do que alguns brasileiros. Criava grupos corais, orquestras, sempre com a ideia de socializar a música”, conta.
No âmbito familiar, a relação de pai e filho era marcada por ausência, mas não há acúmulo de rancor: “Como pessoa, ele nunca foi um pai muito presente. A música era a primeira paixão, a segunda era a música, a terceira continuava sendo a música, quarto vinha a mulher e depois os filhos”, compartilha.
Essa dinâmica fez com que Carlos assumisse, ainda jovem, uma função de cuidado em relação aos irmãos mais novos. O filho caçula, Inácio, era o xodó do maestro, com quem viveu plenamente a paternidade. Armando se dirigia à creche para buscá-lo no dia em que criminosos o sequestraram.
O assassinato
No estacionamento da escola, o maestro estava em seu Kadett quando três homens armados o renderam e sequestraram. Agredido, teve contas bancárias esvaziadas e os bandidos o mataram com um tiro na testa.
No dia do crime, Carlos Eduardo estava em Cabo Frio, na Região dos Lagos, quando recebeu uma ligação do irmão pedindo a placa do carro do pai.
“Ninguém pede placa de carro à toa. Disseram que ele tinha sido sequestrado. Vim para o Rio naquela noite. A gente achava que estavam roubando, sacando dinheiro. Até que disseram que ele apareceria naquela noite. Mas não apareceu”, lembra.
O corpo foi encontrado três dias depois no Instituto Médico Legal. Três dias antes disso, havia sido deixado na Rua Carneiro Campos, em São Cristóvão, onde acabou localizado por policiais do 4º BPM. Um dos envolvidos no crime só seria preso meses depois.
O enterro reuniu cerca de 5 mil pessoas no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, acompanhado por um coral de 500 vozes. “As pessoas choravam como a família. Muitos eram dos grupos de coral que ele criou, cantando as músicas que ele regia”, conta Carlos.
Após a morte do pai, aos 33 anos, ele retomou o trabalho na orquestra que administravam juntos. Permaneceu por sete anos até ficar desempregado. Passou por maus bucados, até que a ideia de criar um novo projeto começou a se formar.
“Eu não sou músico, entendo de administração. Com a orquestra deixando de fazer o que ele fazia, pensei que precisava retomar aquilo”, rememora.

A orquestra que nasceu na Baixa do Sapateiro
Em 2010, Carlos reuniu dois maestros e um professor para tirar o projeto do papel. O primeiro núcleo foi instalado no Ciep Operário Vicente Mariano, na Baixa do Sapateiro, uma das comunidades do Complexo da Maré.
No início, as aulas eram teóricas, com ensino de leitura musical, devido à falta de instrumentos. “Tinha 16 meninos. Seis queriam violoncelo, o resto flauta doce. Cada instrumento custava uma fortuna”, lembra.
Com patrocínios e apoio de colegas, os primeiros instrumentos chegaram. Desde os primeiros meses, o maestro Filipe Kochem acompanhou o projeto. Começou como professor de violino e, após um ano e meio, assumiu a direção artística e a regência.
Hoje, os alunos já viajaram para 14 países, com turnês feitas na Ásia, Europa e América do Sul.
“Viajar passa a ser algo possível. Isso reflete também no interesse por estudar idiomas, por buscar mais conhecimento. Na escola, a disciplina muda bastante. Antes os diretores relatavam dificuldade dos alunos em seguir regras, e isso se altera logo no primeiro ano. As notas também melhoram”, pontua Kochem.

Natural de Petrópolis, Filipe relata que aceitou o convite com entusiasmo e receio. “Eu achei o projeto lindo e naquela época era um pouco do que eu já fazia, mas quando ele falou que era na Maré, eu fiquei com medo. É uma situação da cidade do Rio como um todo”, diz.
Formado por 15 favelas, o Complexo da Maré tornou-se bairro apenas em 1994. Hoje, concentra mais de 140 mil moradores em menos de 4 km². Com esse número de pessoas, é o bairro mais populoso da cidade, e maior que 96% dos municípios do país, segundo dados do projeto Redes da Maré.
“A favela é uma cidade. Muitas pessoas não saem de lá. Teve uma aluna nossa que, quando fomos fazer um concerto no quiosque da Globo, teve uma crise de choro. Ela nunca tinha visto o mar”.
Carlos Eduardo Prazeres
O território atravessou processos de urbanização e convive, até hoje, com conflitos armados. Em uma das operações mais recentes, 121 pessoas morreram durante a megaoperação das polícias Civil e Militar na região da Maré e na Penha.

Em 2025, segundo Filipe, cerca de 35% das aulas e 40% dos ensaios foram cancelados por questões relacionadas ao entorno. “Isso impacta diretamente no preparo para apresentações e no conteúdo”.
Concentração e disciplina
Para o pianista e professor Marcelo Moraes Caetano, a formação orquestral exige condições específicas.
“Cada músico precisa aprender teoria musical, percepção, leitura, contraponto, e no caso do músico de orquestra, ele precisa desenvolver ainda a habilidade de interagir com dezenas de outros músicos, tocando em ritmos, vozes, harmonias diferentes”.
O funcionamento da orquestra se dá com figuras hierárquicas, e as mais importantes são três: o maestro ou o regente, o spalla (o primeiro violino da orquestra) e os chefes de naipes, explica o músico.

Há ainda outro fator. Ainda que não eliminem, esse tipo de iniciativa funciona como barreira no recrutamento dos mais jovens ao crime organizado. É o que diz o advogado criminal e especialista em segurança pública, Marcos Espínola:
”Violência não se combate só com policiais, mas com outras ações sociais como educação, moradia digna, geração de renda”, afirma.
Trajetórias da Orquestra da Maré do Amanhã
No caso da Orquestra da Maré, Pither Bazaga, de 27 anos é o líder do violino. Ele ingressou ainda criança, quando estudava no Ciep Operário Vicente Mariano, motivado pela curiosidade e pelo convívio com colegas.
A adaptação ao instrumento foi gradual. Segundo ele, o violino exige movimentos pouco naturais e provoca desconforto físico nos primeiros meses, até que o corpo se ajusta.
“São muitas possibilidades, tocar para o público, conhecer outros países, ter contato com professores importantes. Uma experiência que não esqueço foi a viagem aos Estados Unidos, quando tivemos aulas com professores históricos da música clássica”, lembra.

Expansão, estrutura e próximos passos
Ao longo dos anos, a Orquestra Maré do Amanhã se expandiu em escala e estrutura. Atualmente, o projeto atende as 26 escolas públicas do Complexo da Maré, além de orquestras mirins e da sede principal.
O funcionamento segue o calendário da rede pública. As atividades começam na educação infantil, com iniciação musical nos Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs), avançam para o ensino de instrumentos no fundamental e seguem para a formação na sede, até a entrada na orquestra principal.
Na Escola Municipal IV Centenário, localizada no Morro do Timbau, as aulas ocorrem nos anos iniciais do ensino fundamental, às quartas-feiras.
Parte dos estudantes ingressa no coral e, posteriormente, passa a frequentar oficinas de instrumentos como violino, viola, violoncelo, contrabaixo e flauta.
Segundo a diretora da unidade, Alessandra Aguiar, os efeitos do aprendizado vão além da técnica musical:
“A gente sabe que nem todas essas crianças vão querer ser músicos no futuro, mas percebe esse protagonismo. Elas precisam cuidar do instrumento, conduzir até o local da aula, ter postura. Aos poucos, a gente vê como vão crescendo”, destaca.
Repertório variado
Para o maestro Filipe, acompanhar a primeira geração de alunos que passaram pelo projeto foi decisivo.
“Hoje aqueles alunos que tinham dez anos estão com 25. A gente acompanhou infância, adolescência e entrada na vida adulta. O que muda mais é a perspectiva. Eles passam a vislumbrar possibilidades que antes não existiam”, conta.
Em concertos marcantes na memória, ficaram as vezes em que o grupo foi à Berlim apresentar para o Papa Francisco. Depois, no palco do Espaço Favela na edição do Rock In Rio em 2019. O repertório, diz ele, oscila num movimento abrangente.

“Tocamos música clássica pro Papa, no Rock in Rio, e música brasileira em Berlim, fizemos música chinesa na China. Eu regi a orquestra sinfônica de lá e a Orquestra Maré do Amanhã juntas, fazendo uma ópera em Pequim”, lembra.
Sem deixar de lado o repertório dos próprios alunos, a Orquestra já fez apresentações com a trilha de Frozen 2 e do famoso seriado Chaves.
Expansão: núcleo na Amazônia
Hoje, a orquestra conta com 40 músicos e um coral com 25 integrantes. Ex-alunos seguiram trajetórias diversas, da música profissional a áreas como Direito e Ciência da Computação. Há casos de jovens aprovados em universidades federais e de músicos que hoje integram orquestras no Brasil e no exterior.
Mais recentemente, ex-alunos passaram a atuar como professores em novos núcleos do projeto, inclusive fora do estado. Esse movimento faz parte de uma estratégia de expansão gradual, que busca consolidar a metodologia desenvolvida ao longo dos últimos 15 anos.

Em seu passo recente, a orquestra abriu um núcleo no município de Oriximiná, distrito de Porto de Trombetas, no Pará. Lá, os professores atendem crianças ribeirinhas.
Para Carlos Eduardo, a continuidade do projeto mantém um vínculo direto com a trajetória do pai.
“É a minha realização. Toda vez que eu penso no meu pai, eu falo assim: está aí, pai. Você está vivo. Embora tenham te matado lá, você aqui está vivo”, expressa.
Associado ao calendário escolar, o projeto entrou em recesso no fim de 2025 e retoma as atividades no próximo ano letivo. A última apresentação do ano foi um concerto de Natal realizado no Jardim Botânico do Rio.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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