CPI do Crime Organizado recebe 4 anos de declarações fiscais do Master, mas encerra sem análise completa

Comissão revela repasses de R$ 7,3 bilhões do Banco Master a empresas e políticos e pede aprofundamento das investigações por órgãos de controle

A CPI do Crime Organizado do Senado Federal chega ao fim nesta terça-feira (14) sem concluir a análise completa das declarações de imposto de renda do Banco Master, encaminhadas pela Receita Federal, informa o portal g1. Mesmo assim, o material já examinado revela um volume expressivo de movimentações financeiras e serviu de base para o relatório final do senador Alessandro Vieira, que será apresentado e votado no último dia de funcionamento do colegiado.

Entre 2022 e 2025, o banco informou ter repassado R$ 7,3 bilhões a 2.939 pessoas físicas e jurídicas. Diante da dimensão dos valores, o relator defende que órgãos de controle ampliem a apuração sobre as transações.

“A gente vai fazer constar do relatório toda informação a que a gente teve acesso. Aquilo que a gente pôde analisar e documentar plenamente já vai ser apresentado para nossa análise. Aquilo que a gente tem apenas como início de investigação, ou como dado relevante, vai ser referido com a demanda de que se apure mais adiante em maior detalhe”, disse o senador.

Distribuição dos recursos e natureza dos pagamentos

Do total declarado, R$ 6,7 bilhões foram destinados a empresas e R$ 584 milhões a pessoas físicas. Segundo os dados enviados à Receita Federal, os rendimentos decorrentes de aplicações financeiras no banco somaram R$ 3,3 bilhões.

Além disso, o Banco Master informou pagamentos de salários e Participação nos Lucros ou Resultados (PLR), que totalizaram R$ 491 milhões no período analisado.

Procuradas, as empresas e pessoas físicas que receberam os maiores valores afirmaram que prestaram serviços ao banco ou mantinham relações comerciais regulares com a instituição.

Pagamentos a escritórios e figuras públicas

Entre os repasses citados nas investigações está o pagamento de mais de R$ 80 milhões ao escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Em resposta, o escritório afirmou não confirmar as informações e alegou que os dados teriam sido obtidos de forma ilícita.

Também aparecem nas declarações valores destinados a ex-integrantes da equipe econômica federal. O ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles recebeu R$ 18,4 milhões entre 2024 e 2025. Em nota, afirmou que manteve um “contrato de serviços de consultoria sobre macroeconomia e mercado financeiro com o Banco Master, em caráter opinativo”.

Já o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega recebeu R$ 14 milhões no mesmo período. Em 2024, ele acompanhou o banqueiro Daniel Vorcaro em reunião no Palácio do Planalto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que declarou ter se reunido com representantes de diferentes instituições financeiras e afirmou que eventuais irregularidades seriam investigadas.

Outro nome citado é o do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, cujo escritório recebeu R$ 5,9 milhões entre 2023 e 2025. Ele declarou que voltou à advocacia após deixar a Corte e que prestava serviços de consultoria jurídica ao banco.

As declarações também incluem pagamentos a ex-integrantes do governo federal, como Fabio Wajngarten, cuja empresa recebeu R$ 3,8 milhões, e Ronaldo Bento, associado a empresa que recebeu R$ 6,2 milhões.

O escritório do ex-presidente Michel Temer recebeu R$ 10 milhões em 2025. Segundo ele, a contratação ocorreu para uma atividade de mediação jurídica na tentativa de venda do banco ao BRB.

Conexões políticas e empresariais

Os documentos também apontam pagamentos de R$ 12 milhões à BN Financeira, empresa de Bonnie Bonilha, nora do senador Jaques Wagner. O parlamentar aparece ainda como pessoa física com R$ 289 mil em rendimentos, valor que atribuiu a aplicações financeiras.

O presidente do União Brasil, Antônio Rueda, teria recebido R$ 2,1 milhões, segundo os registros. Ele afirmou não comentar dados protegidos por sigilo fiscal.

Entre outros nomes citados estão o ex-governador de Goiás Marconi Perillo, com R$ 14,5 milhões recebidos por sua empresa, e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, cuja empresa recebeu R$ 5,4 milhões. Ambos afirmaram que os contratos foram legais e referentes a serviços prestados.

Empresas ligadas ao Grupo Massa, da família do governador do Paraná, Ratinho Junior, também aparecem nos registros, com repasses que somam R$ 24 milhões entre 2022 e 2025.

Além disso, há pagamentos superiores a R$ 500 milhões a 91 escritórios de advocacia, sendo que ao menos 15 deles receberam valores acima de R$ 10 milhões.

Legalidade e limites da investigação

Especialistas ressaltam que a existência de pagamentos elevados não implica, por si só, irregularidade. O professor de Direito Constitucional da UFF, Gustavo Sampaio, afirmou que a análise deve considerar possíveis conflitos de interesse e a natureza dos serviços prestados.

“O valor em si não faz diferença qualquer, se há pagamento superior a R$1 milhão ou inferior”.

Segundo ele, cada caso precisa ser examinado individualmente.

“Tem que ser analisado caso a caso. Não tem como se fazer uma análise global em torno disso”, afirmou.

O professor também destacou os poderes das CPIs para quebrar sigilos e reunir provas.

“A CPI é um órgão de investigação. Embora o parlamento tenha função típica de legislar e não investigar, a Constituição deu ao parlamento o poder de investigar fatos determinados por um tempo determinado através das comissões parlamentares de inquérito. Se elas não tiverem poder para quebrar sigilo, elas não terão razão para existir”, comentou Sampaio.

Encaminhamentos e próximos passos

O relatório final poderá embasar pedidos de indiciamento e será encaminhado a diferentes órgãos, incluindo o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da República, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União.

Apesar das lacunas na análise dos dados, o documento consolida informações relevantes sobre o funcionamento do Banco Master e suas conexões com diferentes setores da economia e da política.

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