O corregedor do Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro (TRT-RJ), desembargador Alvaro Luiz Carvalho Moreira, afirmou que um dos investigados por desvios de cerca de R$ 15 milhões na Justiça do Trabalho alegava ganhar “fortuna em apostas” para justificar um padrão de vida incompatível com o salário. As declarações foram feitas durante sessão do Órgão Especial do tribunal, na quinta-feira (11), informa o g1.
As informações vieram à tona no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou a Operação Apócrifo, que apura fraudes relacionadas à expedição irregular de alvarás judiciais na 2ª Vara do Trabalho de Nova Iguaçu.
Esquema com uso de token do juiz
Segundo as apurações, o então diretor de secretaria da Vara, Vidal Nobre de Azevedo, é apontado como o responsável pelo esquema. Ele teria utilizado o token — espécie de senha de segurança — do juiz titular, Francisco Antônio de Abreu Magalhães, para emitir alvarás irregulares.
Com isso, valores de ações trabalhistas teriam sido desviados para terceiros sem qualquer vínculo com os processos, sem o conhecimento do magistrado, de acordo com a investigação.
Viagens ao exterior e padrão de vida elevado
De acordo com o corregedor, Azevedo justificava os gastos elevados dizendo obter ganhos expressivos em apostas, algo que, segundo ele, era de conhecimento dentro da Vara.
“O próprio juiz Francisco informou que era voz corrente que o diretor tinha gastos muito elevados. Viajava com a família para o exterior e dizia que ganhava fortuna em apostas”, afirmou Moreira.
Durante a sessão, os desembargadores aprovaram a abertura de um Processo Administrativo Disciplinar em Face de Magistrado (Padmag) para apurar eventual responsabilidade do juiz. O afastamento de Magalhães foi mantido até a conclusão do procedimento.
Confissão e dificuldade para recuperar valores
O corregedor relatou ainda que Azevedo assumiu a responsabilidade pelos desvios. Em mensagem enviada a colegas por WhatsApp, revelada anteriormente, o ex-diretor afirmou que agiu sozinho e isentou o juiz e uma assistente, também afastada, de participação no esquema.
Segundo Moreira, o investigado declarou não possuir mais os cerca de R$ 15 milhões desviados entre 2022 e 2025. “Ele confessou que é culpado, mas disse que não tem mais dinheiro, que gastou tudo. Alegou vício em jogo”, relatou.
Apesar disso, a Polícia Federal avalia que ainda seja possível rastrear parte dos valores. Até o momento, porém, os bloqueios judiciais localizaram apenas quantias consideradas baixas.
Prática de cessão de senhas no tribunal
O corregedor também afirmou que a cessão de senhas e tokens por magistrados a servidores era uma prática comum no TRT-RJ, o que classificou como grave falha administrativa.
“Era uma prática muito utilizada pelos juízes”, disse, alertando para a necessidade de interromper esse procedimento.
No caso de Nova Iguaçu, Moreira classificou a conduta do juiz como negligente e ressaltou as consequências do episódio.
“Advogados querem saber quem vai pagar esses R$ 15 milhões. Essa boa-fé está mais próxima da negligência, porque houve omissão absoluta na administração da Vara”, concluiu.
Procurado pelo g1, Vidal Nobre de Azevedo não respondeu. O juiz Francisco Antônio de Abreu Magalhães afirmou ter colaborado com a investigação e disse que forneceu todas as informações necessárias para a adoção das medidas legais cabíveis.






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