Conheça praias cariocas que não existem mais

Hoje elas sobrevivem em fotos amareladas ou na saudade de quem teve a sorte de conhecê-las

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Todo bom livreiro sabe que um dos mais vendidos, roubados, plagiados e procurados livros sobre o Rio de Janeiro chama-se “O Rio Antigo do fotógrafo Marc Ferrez – paisagens e tipos humanos do Rio de 1865 a 1918”, lançado em 1984 pela editora Ex-Libris. Além das imagens estonteantes, que nos levam a pensar o que fizeram da nossa cidade, ele tem uma divertida curiosidade: um mapa do Rio de hoje, com um tracejado em cor diferente mostrando as muitas praias que foram aterradas pela marcha do progresso.

Afinal, o  Rio foi moldado de forma marcante por aterros nos séculos XIX e XX, sacrificando praias históricas em prol da expansão urbana, portuária e aeroportuária. Esses locais, hoje cobertos por cimento e asfalto, são parte profunda da memória histórica da cidade – lembranças de um tempo em que a água do mar avançava e por onde onde hoje correm carros, motos e trens.

Selecionamos abaixo algumas delas, que hoje sobrevivem em fotos amareladas ou na saudade de quem teve a sorte de conhecê-las.

Locais, hoje cobertos por cimento e asfalto, são parte profunda da memória histórica da cidade | Reprodução

Praia da Saudade

Originalmente localizada na entrada da Urca, entre a Praia Vermelha e o Hospício Pedro II, a Praia da Saudade era frequentada por pescadores e servia para regatas no início do século XX. Seu nome viria da sensação dos moradores ao verem os navios partindo.

O primeiro aterro foi feito  em 1908, para a construção da Avenida Pasteur e dos pavilhões para a Exposição do Centenário da Abertura dos Portos. Na década de 1930, foi completamente aterrada para a construção do Iate Clube do Rio de Janeiro, encerrando sua existência.

Praia do Retiro Saudoso

A Praia do Retiro Saudoso ficava situada na região portuária do Rio de Janeiro, mais precisamente na área entre os bairros de Santo Cristo e Gamboa. Era uma praia de pequeno porte, com águas calmas e rasas, característica das praias que estavam próximas às margens da baía, e  também  uma área de recreação, especialmente para a população mais pobre, que se utilizava de suas águas para lazer. Foi aterrada durante o processo de expansão portuária na região.

Praia do Russell

Também chamada antiga Praia Dom Pedro I, essa praia ficava na área onde hoje está o Hotel Glória. Em 1869 passou a se chamar Russel, em homenagem ao engenheiro João Frederico Russel ligado a projetos de saneamento da cidade. Foi totalmente sepultada pelo Aterro do Flamengo na década de 1960.

Praia de Maria Angu

A localização exata da praia de Maria Angu e do porto que lá existiu é incerta, com algumas fontes indicando a Rua Gruçaí na Penha e outras a Rua Pirangi em Olaria. Este pequeno porto servia para o transporte de produtos agrícolas para o Centro do Rio, além de ser usado por romeiros que iam à Festa da Penha. A construção da Avenida Brasil, inaugurada em 1946, levou ao aterramento da praia e à sua urbanização.

Porto de Maria Angu | Reprodução

Praia de Santa Luzia

Em frente à Igreja de Santa Luzia, era uma praia popular para banhos até o início do século XX. Em 1905, a construção de garagens para os então popularíssimos clubes de remo marcou o início de sua descaracterização. Ainda persistia parcialmente nos anos 1920, mesmo após o aterro do Morro do Castelo em 1922, mas foi eliminada definitivamente do mapa carioca na década de 1930-40 para ampliação do Aeroporto Santos Dumont e da esplanada do Castelo.

Praias da Gamboa e da Saúde

Essas praias eram tradicionais áreas de pesca, com represas construídas pelos pescadores, originando o nome “Gamboa”. A Praia da Saúde ficava ao lado, ambas fazendo parte de um conjunto de enseadas que margeavam a Baía de Guanabara.

No início do século XX, os aterros para expansão do Porto do Rio encobriram essas praias – substituídas por trapiches, armazéns e vias expressas – descaracterizando completamente a região.

Praia da Ajuda, Praia Dom Manuel e Praia do Peixe

Localizadas no entorno da Cinelândia e Praça XV, essas praias remetem à história colonial, com seus tênues areais em frente a edifícios como o Convento da Ajuda. Foram aterradas no final do século XIX e início do século XX para construção de avenidas como Rio Branco e infraestrutura urbana: como a esplanada do Castelo, o Porto e o acesso à Praça Mauá.

Praia de São Cristóvão e Saco de São Cristóvão

Ficavam entre o morro de São Cristóvão e o morro do Castelo, nas imediações do Rio Carioca. Durante o período colonial e imperial, a área era um ponto de grande atividade portuária. Em 1890, o governo iniciou um ambicioso plano de reforma do Rio.

A Praia e o Saco de São Cristóvão foram aterrados, e seus espaços deram lugar à construção da Avenida Francisco Bicalho, além de terem contribuído para a criação do bairro de Santo Cristo, um dos mais antigos da cidade.

Praia do Caju

O Caju, um dos bairros mais afetados pelo crescimento urbano desordenado da cidade, tinha uma das praias de águas mais limpas do Rio. Foi no litoral do Caju que Dom João VI instalou uma casa de banhos para ele e a família real.

Segundo historiadores, os banhos de Dom João tinham finalidades medicinais, para tratar um ferimento causado por carrapatos. Mas sua derrocada veio bem mais tarde, nos anos 1970, quando os aterros para a construção da Ponte Rio-Niterói ajudaram a descaracterizar de vez  o bairro.

Praia de Boto-Cruz

A Praia de Boto-Cruz estava situada na Ilha do Governador. Durante boa parte do século XX, essa foi uma das mais conhecidas da região, sendo muito frequentada por moradores por ser um lugar tranquilo, com águas calmas, propícias para o lazer da população local.

O desaparecimento da praia começou com o processo de urbanização do bairro, que envolveu o aterro e a construção de novas vias, além da instalação do Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), que ampliou a área do terminal e seus arredores. Durante essas transformações, a Praia de Boto-Cruz foi completamente aterrada.

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