Com o apoio de eleitores de Lula e de Bolsonaro, Paes quebra a polarização e se firma na liderança isolada na capital

Por mais que Alexandre Ramagem, à direita, e Tarcísio Motta, à esquerda apelem para retórica de fundo ideológico, o discurso não tem aderência

RICARDO BRUNO

Para além da liderança do pleito, o prefeito Eduardo Paes está produzindo no Rio um feito político relevante, almejado por quase todos que rejeitam a polarização com arma eleitoral em substituição à razão. Diferentemente de outras eleições, a campanha na cidade não se desenvolve sob a lógica do confronto ideológico. Prevalecem critérios objetivos sobre a qualidade de vida na metrópole, regra geral dos pleitos municipais.

A vantagem acachapante do atual prefeito ante os demais competidores mostra uma curiosa confluência de posição entre os simpatizantes de Lula e os adeptos de Bolsonaro. Paes tem o voto de quase a metade dos eleitores do capitão em 2022 (44%), superando Ramagem, que conquistou apenas 23% deste grupamento.  O prefeito é a um só tempo o candidato de lulistas e bolsonaristas – feito nada desprezível em tempos de radicalização.

De centro, com extenso currículo de realizações, o que lhe confere experiência e confiança, o prefeito congrega apoios díspares exatamente porque os eleitores estão mais preocupados com a cidade do que com os embates sobre pautas de costumes controversas. A polarização só interessa aos candidatos que representam os extremos.

Por mais que Alexandre Ramagem, à direita, e Tarcísio Motta, à esquerda apelem para retórica de fundo ideológico, o discurso não tem aderência.  Os cariocas têm recusado este tipo de abordagem, convencidos da necessidade de escolhas que garantam a preservação das conquistas da atual gestão. Não há espaço para aventuras eleitorais como a de Wilson Witzel em 2018. Primeiro porque a eleição municipal não se desenvolve atrelada à disputa presidencial, cujo debate acaba prevalecendo sobre os temas regionais. Mas não só por isto: a amarga experiência da gestão de Witzel, o Breve, funciona também como antídoto a aventuras decorrentes do voto de “manada”.

As frases de efeito de Ramagem, “Paes é soldado de Lula” e de Tarcísio, “Sou o único candidato antifascista”, não têm qualquer eco; perdem-se no vazio da fragilidade dos argumentos que encerram. O eleitor quer saber do transporte público, da saúde e da segurança, questões que impactam diretamente a sua qualidade de vida. A radicalização interessa apenas aos candidatos antípodas, não à sociedade.

O voto evangélico também mostra Eduardo Paes como catalisador de uma certa pacificação política da cidade. O prefeito supera Ramagem no território antes consagrado exclusivamente a nomes ungidos por Jair Bolsonaro. Tem 49 % das intenções de votos dos fiéis das denominações religiosas contra apenas 11% de Ramagem. Em miúdos,  entre evangélicos não há adesão espontânea a candidatos, motivada apenas pela simbologia conservadora que possam representar. Prevalece o juízo a respeito da necessidade de se promover ou assegurar a qualidade de vida na cidade.

Nesta toada, é bastante provável que Alexandre Ramagem não consiga trazer para si integralmente os votos do campo bolsonarista. E Tarcísio Motta vire pó.

No curso da campanha, Ramagem deve ainda crescer, mas ficando aquém da força de Jair Bolsonaro no Rio. Boa parte destes eleitores, prefere Eduardo Paes a seguir o líder num salto no escuro. O trauma do voto em Witzel ainda está presente no inconsciente coletivo do eleitorado.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading