Polarização pode fazer Tarcísio e Amorim saírem das urnas menores do que entraram

O quadro é desalentador para Tarcísio Motta, à esquerda, e Rodrigo Amorim, à direita

RICARDO BRUNO

A polarização da política nacional não oferece espaços para postulações intermediárias, cujo ideário não esteja alinhado às posições de Luís Inácio Lula da Silva, à esquerda, e Jair Bolsonaro, à direita.

Ainda que em eleições municipais prevaleçam critérios pragmáticos para definição do voto, lastreados na capacidade objetiva de cada candidato diante dos desafios da cidade, a escolha é quase sempre ponderada levando-se em conta competência e identificação ideológica. Ou seja, um contingente busca o mais preparado entre os aliados de Lula e outro grupamento, entre inscritos no bolsonarismo.

Hipoteticamente, algo poderia quebrar essa lógica binária. Por exemplo, a existência de um candidato comprovadamente eficiente em gestão pública mas eventualmente não alinhado aos dois polos que magnetizam as forças políticas do país. Neste caso, a capacidade individual do candidato poderia ser um fator a desequilibrar o jogo.

Vejamos o quadro das próximas eleições à prefeitura do Rio. Eduardo Paes é detentor de duas potencialidades importantes: é o nome de maior experiência em gestão e o representante de Lula no pleito. Ao revés, Alexandre Ramagem é inequivocamente o oponente mais legítimo, pois ungido por Jair Bolsonaro para enfrentar o atual alcaide.

 Grosso modo, Paes tem a seu favor a gestão e o apoio do presidente da República. Ramagem, a benção do ex-presidente que hoje indiscutivelmente lidera a direita nacional sem concorrência.

No elenco de candidatos, não há nenhum outro que possa se destacar por predicados pessoais no campo da gestão ou por vínculos políticos sólidos a grupos majoritários. Ainda que exibam alguma competência, são integrantes da segunda divisão.

Nesta semana, o Globo confirmou os números da referida polarização. O agregador de pesquisas do jornal mostra Paes com 48,7% (gestão+Lula) das intenções de votos e Ramagem, com 21,7% ( exclusivamente Bolsonaro). Somados, os dois detêm a preferência de 70% do eleitorado.

O quadro é desalentador para Tarcísio Motta, à esquerda, e Rodrigo Amorim, à direita. Ainda que tenham bom desempenho retórico na campanha, estão contidos no seu campo ideológico pelo protagonismo dos dois principais adversários. Não há espaço para crescerem. Ao contrário, na medida em que for mais evidente o vínculo de Paes com Lula e o de Ramagem com Bolsonaro, Tarcísio e Amorim correm o risco de virarem pó, saindo das urnas menores do que entraram.

Amorim tem menos a perder. Nunca foi candidato majoritário de fato. Deseja apenas reforçar a imagem para outras disputas. Tarcísio tem veleidades, fala em segundo turno e outras elucubrações otimistas. Pode se decpcionar.

Em outras eleições, a esquerda lançava três ou quatro candidatos e o mais apetrechado canibalizava os adversários passando ao segundo turno. Nesta, PT, PSB, PDT e PCdoB abdicaram de nomes próprios em favor de Paes. Não há como, portanto, Tarcísio se sobrepor a adversários de seu campo, que, majoritariamente, resolveu seguir com o atual prefeito desde o início.

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