Com 94% das urnas apuradas no Peru, Sánchez vira sobre Keiko e disputa segue indefinida

Candidato de esquerda assume vantagem mínima na reta final da apuração, enquanto país enfrenta crise política marcada por sucessivas trocas de presidentes

A disputa pela Presidência do Peru permanece em aberto após uma reviravolta na apuração dos votos do segundo turno das eleições realizadas neste domingo (7). O candidato de esquerda Roberto Sánchez ultrapassou a conservadora Keiko Fujimori nas últimas atualizações da contagem oficial, com 94% das urnas apuradas. A diferença entre os dois permanece extremamente reduzida, mantendo a indefinição sobre o resultado final.

Com base nos dados do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), Sánchez alcançou 50,044% dos votos válidos, enquanto Keiko registrava 49,956% na atualização divulgada às 16h02 (horário de Brasília). A virada ocorreu às 14h58, após horas de liderança da candidata conservadora durante a apuração, informa o g1.

A vantagem apertada já era considerada possível por analistas políticos, uma vez que Sánchez possui maior força eleitoral em áreas rurais, cujos votos costumam ser contabilizados nas etapas finais da contagem. As pesquisas de boca de urna apontavam inicialmente favoritismo para Keiko Fujimori, mas o cenário mudou conforme avançou a totalização dos resultados.

Virada após favoritismo de Keiko

Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, condenado por violações de direitos humanos e corrupção, Keiko chegou ao segundo turno após liderar a primeira votação com 17,2% dos votos válidos. Já Sánchez avançou com 12%, em um pleito marcado pela forte fragmentação partidária.

As urnas foram fechadas às 17h no horário local, sem registros de grandes incidentes. O clima eleitoral, porém, foi acompanhado de forte tensão política, especialmente após o primeiro turno, que ficou marcado por falhas técnicas e denúncias de irregularidades.

O segundo turno reuniu dois projetos políticos distintos em um país que atravessa uma das mais profundas crises institucionais de sua história recente.

Fragmentação política e instabilidade

O cientista político Lucas Berti, pesquisador do Peru no Observatório Político Sul-Americano e coordenador-executivo do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global, avalia que o cenário atual é resultado de um longo processo de desgaste institucional.

“É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem acontecendo nos últimos anos no país. E isso, na medida em que os presidentes eleitos não conseguem governar”, afirmou, segundo o g1.

O primeiro turno evidenciou essa fragmentação. Ao todo, 35 candidatos disputaram a Presidência, número recorde no país. Para especialistas, a multiplicação de legendas e candidaturas reflete a dificuldade de consolidação de forças políticas duradouras.

Nove presidentes em uma década

A instabilidade política peruana é ilustrada pela quantidade de presidentes que passaram pelo poder nos últimos dez anos. Nesse período, o país teve nove chefes de Estado, embora os mandatos presidenciais tenham duração prevista de cinco anos.

Segundo Berti, a presidente que permaneceu mais tempo no cargo recentemente foi Dina Boluarte, que governou por quase três anos antes de perder sustentação política.

O especialista chama atenção para o artigo 113 da Constituição peruana, que permite a destituição presidencial por “incapacidade moral ou física permanente”. A avaliação fica a cargo do Congresso, mecanismo que tem sido utilizado com frequência nas disputas entre Executivo e Legislativo.

Para o pesquisador, essa facilidade para remover presidentes demonstra a fragilidade institucional do país e contribui para a constante instabilidade política.

Democracia sob desconfiança

A crise também afeta a percepção da população sobre as instituições democráticas. De acordo com Berti, os níveis de confiança no governo e no Congresso estão entre os mais baixos da América Latina.

“A credibilidade das instituições é baixíssima se olharmos os últimos 10 anos. E a desconfiança no Congresso passa de 90%”, destacou.

Dados recentes do Latinobarómetro apontam que cerca de 90% dos peruanos têm pouca ou nenhuma confiança no governo e no Parlamento. Apenas uma pequena parcela da população declara satisfação com o funcionamento da democracia no país.

Além disso, pesquisas identificam um crescente sentimento de indiferença em relação à política e aos próprios regimes democráticos. Para especialistas, a facilidade de criação de partidos, a baixa institucionalização das legendas e as frequentes mudanças de filiação dos políticos reforçam a percepção de instabilidade e dificultam a construção de vínculos duradouros entre eleitores e representantes.

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