*Paulo Baía
Existe uma antiga arrogância, quase sempre revestida de sofisticação intelectual ou política, que insiste em olhar para a Cultura POP como se ela ocupasse uma posição secundária, subordinada ou mesmo menor na vida social. Trata-se de uma visão arrogante porque parte da premissa de que os grandes processos de formação humana acontecem exclusivamente nos espaços reconhecidos como legítimos pelas elites culturais. Como se apenas os livros, as universidades, os parlamentos, as palestras, os colóquios, os centros de pesquisa, os grandes jornais, as revistas ou os círculos intelectuais fossem capazes de produzir significados duradouros para a existência coletiva.
Nada parece mais inadequado para compreender o Brasil contemporâneo. Nada parece mais distante da realidade cotidiana. Nada revela maior incapacidade de perceber as transformações culturais que atravessam o século XXI.
A Cultura POP tornou-se uma das mais extraordinárias forças de produção de sentidos do nosso tempo. Ela não apenas acompanha as transformações da sociedade. Ela participa delas. Alimenta-as. Amplifica-as. Organiza afetos, produz pertencimentos, distribui símbolos e oferece narrativas através das quais milhões de pessoas interpretam a realidade e a fazem existir como realidade cotidiana.
Vivemos a época das narrativas compartilhadas. Nunca tantas histórias circularam com tamanha velocidade. Nunca tantas imagens viajaram por tantos territórios. Nunca tantos indivíduos participaram simultaneamente de experiências culturais semelhantes. A Cultura POP tornou-se uma das grandes arquiteturas invisíveis da vida contemporânea. Ela conecta pessoas que jamais se encontrariam. Aproxima universos sociais distintos. Produz referências comuns em uma sociedade marcada pela diversidade e pela pluralidade.
Durante séculos, as instituições tradicionais ocuparam quase sozinhas o papel de orientar a formação das consciências. A família transmitia valores. A escola organizava conhecimentos. As igrejas ofereciam interpretações sobre a existência. Os partidos políticos estruturavam visões de mundo. A televisão e o rádio reforçaram essa engrenagem ao longo do século XX. Essas instituições continuam fundamentais. Contudo, passaram a dividir espaço com um novo e gigantesco sistema de produção simbólica que se manifesta através da música, do audiovisual, das redes digitais, dos podcasts, dos influenciadores digitais, dos festivais culturais, dos eventos esportivos, das manifestações religiosas multitudinárias e das múltiplas experiências coletivas que compõem a vida contemporânea.
A Cultura POP transformou-se numa espécie de universidade invisível das emoções humanas. Ela não distribui diplomas, mas distribui repertórios. Não confere títulos acadêmicos, mas produz referências morais, afetivas e culturais. Não possui currículos formais, mas ensina diariamente milhões de pessoas a interpretar o amor, a perda, a esperança, a identidade, o pertencimento, a solidariedade e a própria ideia de comunidade.
Talvez a melhor maneira de compreender a força da Cultura POP seja imaginá-la como a nova praça pública da contemporaneidade. Não uma praça delimitada por pedras, monumentos e edifícios, mas uma imensa praça simbólica espalhada por cidades, redes digitais, festivais, praias, templos religiosos, estádios, ruas e plataformas tecnológicas. É nela que milhões de pessoas se encontram, ainda que nunca se vejam pessoalmente. É nela que aprendem a sentir coletivamente. É nela que compartilham emoções, referências, medos, desejos e expectativas.
No Brasil, essa realidade adquire contornos particularmente fascinantes. Somos uma sociedade construída por encontros culturais sucessivos. Nossa história não habita apenas os documentos oficiais, os museus, os arquivos públicos e privados ou as bibliotecas. Ela vive nas ruas, nas praças, nos becos, nas vielas, nas ladeiras, nas festas populares, nas procissões, nos terreiros, nas praias, nos palcos, nas arquibancadas, nos templos religiosos, nos saraus, nos festivais e nas rodas que continuam reunindo pessoas em torno da música, da palavra e da celebração.
As rodas de samba constituem uma das expressões mais elegantes dessa experiência coletiva. Em torno de um cavaquinho, de um pandeiro, de um tamborim e de vozes que se alternam entre a melancolia e a celebração, forma-se algo muito maior do que um simples encontro musical. Forma-se uma comunidade temporária de memória e pertencimento. O samba continua sendo uma das mais refinadas interpretações do Brasil. Ele narra alegrias e sofrimentos, derrotas e conquistas, afetos e ausências. Sua força reside justamente na capacidade de transformar a experiência cotidiana em patrimônio coletivo.
Ao lado do samba caminham o pagode, o charme, o funk, o forró, a música axé e tantas outras linguagens que ajudam a compor a paisagem afetiva, cultural, comunitária e social do país. O pagode tornou-se uma gramática emocional compartilhada por milhões de brasileiros. O charme segue celebrando a elegância, a convivência e a valorização da identidade negra, parda, periférica e urbana. O funk consolidou-se como uma das mais vigorosas manifestações da juventude dos subúrbios e das favelas, produzindo linguagem, estética e reconhecimento social para territórios historicamente observados por lentes preconceituosas.
As escolas de samba ocupam um lugar singular na história cultural brasileira. Elas não são apenas organizações carnavalescas. São instituições comunitárias, espaços de sociabilidade, centros de memória e verdadeiras universidades populares da criação artística, cultural e social. Durante todo o ano, milhares de pessoas trabalham coletivamente para produzir espetáculos que sintetizam história, música, dança, artes visuais, literatura e imaginação. Em seus barracões, encontram-se trabalhadores, artistas, idosos, jovens, crianças e lideranças comunitárias unidos por um projeto comum de criação.
Da mesma forma, os blocos carnavalescos espalhados pelas cidades brasileiras transformam ruas e avenidas em territórios de convivência democrática. Durante o carnaval e em diversos outros momentos do calendário cultural brasileiro, milhões de pessoas ocupam os espaços públicos para celebrar uma das mais poderosas expressões da Cultura POP nacional. O bloco não é apenas festa. É encontro. É ocupação simbólica da cidade. É uma forma coletiva de produzir pertencimento.
Os saraus populares representam outra das mais belas experiências culturais do Brasil contemporâneo. Neles, jovens e idosos compartilham versos, memórias, reflexões e narrativas de vida. A palavra circula entre gerações. Um adolescente que acaba de descobrir a poesia encontra-se lado a lado com homens e mulheres que carregam décadas de experiências acumuladas. A literatura abandona qualquer pretensão aristocrática e retorna ao convívio humano, às igrejas, aos centros comunitários, às associações de moradores, aos clubes, aos bairros, aos condomínios, aos conjuntos residenciais e às praças públicas.
As batalhas de poesia ampliam ainda mais essa dinâmica. Em escadarias, estações de trem, praças e ruas, a palavra reaparece como instrumento de criação, crítica e pertencimento. Cada verso é uma interpretação do mundo. Cada rima é uma tentativa de organizar a experiência humana através da linguagem.
As experiências religiosas também participam intensamente desse vasto universo da Cultura POP. As grandes procissões católicas, as romarias, as festas de padroeiros e as peregrinações continuam reunindo multidões em todo o país. Nesses encontros, fé e cultura caminham juntas, produzindo narrativas coletivas capazes de oferecer sentido à vida de milhões de pessoas. O sagrado encontra a celebração comunitária. A tradição encontra a emoção compartilhada. A memória coletiva encontra formas renovadas de expressão.
Ao mesmo tempo, as marchas religiosas, os grandes congressos de fé, os cultos multitudinários e os encontros promovidos por igrejas evangélicas transformaram-se em alguns dos mais impressionantes fenômenos de mobilização coletiva do Brasil contemporâneo. Estádios lotados, avenidas ocupadas por multidões, grandes concentrações urbanas e celebrações musicais de enorme escala revelam uma dimensão frequentemente ignorada por muitos analistas: a experiência religiosa também integra o universo da Cultura POP. Ela produz símbolos, narrativas, emoções compartilhadas, formas de pertencimento coletivo e comunidades de fé que ajudam milhões de pessoas a interpretar suas trajetórias individuais e coletivas.
Os terreiros de Umbanda e as casas de Candomblé ocupam igualmente um lugar de enorme relevância nessa paisagem cultural. Muito além da dimensão religiosa, constituem espaços de preservação da memória africana, indígena e cigana, de transmissão de saberes ancestrais, de acolhimento comunitário e de elaboração simbólica da existência. Seus cantos, suas danças, seus rituais, suas narrativas e suas formas de organização coletiva participam ativamente da construção da diversidade cultural brasileira.
Nesses espaços, a oralidade continua sendo uma forma de sabedoria. A palavra continua sendo uma forma de herança. O encontro continua sendo uma forma de ensinar. Os terreiros e as casas religiosas preservam memórias que atravessaram séculos, sobreviveram à violência da escravidão, enfrentaram preconceitos persistentes e continuam oferecendo ao Brasil uma das mais ricas experiências de convivência cultural.
O sertanejo merece atenção especial. Nenhuma reflexão séria e sensata sobre a Cultura POP brasileira pode ignorar o protagonismo alcançado pelos artistas sertanejos nas últimas décadas. Hoje, eles estão entre os mais vistos, ouvidos e consumidos do país. Seus festivais movimentam cidades inteiras. Seus shows reúnem multidões. Suas canções atravessam fronteiras regionais e alcançam públicos de diferentes gerações.
Esse fenômeno não pode ser explicado apenas pela lógica do mercado. O sertanejo tornou-se uma linguagem emocional compartilhada por milhões de mulheres e homens porque fala de temas universais da experiência humana: amor, saudade, amizade, fé, família, trabalho, perda, reconciliação e esperança. Suas narrativas ajudam indivíduos a interpretar suas próprias trajetórias e oferecem repertórios emocionais que atravessam diferentes regiões do país.
Os grandes festivais sertanejos transformaram-se em verdadeiros rituais contemporâneos de encontro coletivo. Milhares de pessoas percorrem longas distâncias para participar desses eventos. Neles, a música funciona como uma linguagem comum capaz de aproximar pessoas que jamais se encontrariam em circunstâncias ordinárias.
Os festivais de rock também permanecem como importantes espaços de construção de identidades e sentidos coletivos. Reúnem públicos diversos em torno de repertórios musicais que atravessam décadas. Funcionam como grandes encontros geracionais onde memórias individuais se convertem em experiências compartilhadas. Muitas vezes, transformam-se em verdadeiras cidades provisórias erguidas para receber milhares de participantes que compartilham referências culturais, visões de mundo e formas de pertencimento.
As maratonas e corridas de rua merecem igualmente ser observadas como manifestações da Cultura POP contemporânea. Em inúmeras cidades brasileiras, milhares de pessoas ocupam avenidas, parques e espaços urbanos para participar desses eventos. Muito além da prática esportiva, trata-se de experiências coletivas de pertencimento, de reconhecimento mútuo e de valorização do esforço individual inserido numa experiência coletiva.
Corredores profissionais dividem o percurso com iniciantes. Jovens caminham ao lado de idosos. Famílias inteiras transformam a corrida em celebração comunitária. A cidade converte-se temporariamente em palco de uma narrativa compartilhada sobre superação, convivência, disciplina, alegria e festa.
As praias brasileiras oferecem algumas das imagens mais impressionantes desse fenômeno. Milhares de pessoas reunidas diante do mar para assistir a grandes espetáculos musicais e dramatúrgicos produzem cenas que se aproximam de uma estética épica. O oceano torna-se cenário. A música torna-se linguagem comum. A multidão transforma-se numa comunidade provisória unida pela experiência compartilhada.
O mesmo acontece nas grandes praças públicas, nos parques urbanos e nas avenidas ocupadas por festivais e celebrações. Nesses momentos, desaparecem muitas das fronteiras que organizam a vida cotidiana. Pessoas de diferentes classes sociais, origens geográficas, crenças religiosas, orientações culturais e trajetórias individuais compartilham o mesmo espaço simbólico.
Há algo ainda mais fascinante nessas experiências. Quando multidões participam de um grande evento de Cultura POP, os idiomas frequentemente perdem sua importância imediata. Pouco importa se alguém fala português, espanhol, inglês, francês, alemão, italiano, árabe, mandarim ou japonês. A música, o ritmo, a teatralidade, os símbolos e as emoções compartilhadas criam uma linguagem comum.
Milhares de pessoas cantam juntas sem necessariamente compreender todas as palavras. Compreendem os afetos. Compreendem a experiência coletiva. Compreendem o sentimento de pertencimento que nasce daquele encontro. A Cultura POP constrói uma espécie de idioma emocional universal. Ela produz formas de comunicação que ultrapassam fronteiras nacionais, diferenças linguísticas e barreiras culturais.
É justamente por isso que grandes espetáculos conseguem reunir multidões tão heterogêneas. Homens e mulheres de diferentes idades, classes sociais, crenças religiosas e origens geográficas passam a compartilhar uma experiência comum. Durante algumas horas, o sentimento de pertencimento coletivo torna-se mais importante do que as diferenças que normalmente organizam a vida social.
É nesse contexto que figuras como Emicida e Anitta adquirem relevância singular. Ambos representam dimensões distintas da capacidade criativa da cultura brasileira. Emicida tornou-se um dos maiores ícones da Cultura POP produzida nas periferias urbanas, demonstrando que esses territórios são centros de produção de conhecimento, imaginação, inteligência coletiva e elaboração crítica da realidade nacional.
Sua trajetória simboliza a emergência de novos protagonistas culturais capazes de interpretar o Brasil a partir de experiências historicamente marginalizadas. Sua obra mostra que as periferias não são espaços de ausência, mas territórios férteis de criação cultural, invenção estética e produção de sentidos.
Anitta, por sua vez, simboliza a capacidade da cultura brasileira de dialogar com os circuitos globais sem perder completamente suas marcas de origem. Sua trajetória evidencia como a Cultura POP produz pontes entre o local e o global, entre os territórios de origem e os grandes circuitos internacionais da comunicação contemporânea.
Talvez seja justamente essa a grande lição do Brasil contemporâneo. Para compreender o país, não basta observar governos, parlamentos, telejornais, indicadores econômicos e sociais ou discursos institucionais. É preciso observar também os sambas, os pagodes, os funks, os sertanejos, os forrós, a música axé, os festivais de rock, os saraus, as escolas de samba, os blocos carnavalescos, os terreiros, as romarias, os cultos multitudinários, as maratonas, as corridas de rua, os espetáculos realizados nas praias e as multidões que ocupam praças e avenidas.
É nesses lugares que o Brasil sonha, celebra, acredita, recorda, imagina e reinventa continuamente sua própria história.
Porque a Cultura POP não é um apêndice da vida social. Ela é uma das grandes linguagens através das quais uma sociedade conta a si mesma quem foi, quem é e quem deseja se tornar.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ





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