Com o avanço da inteligência artificial generativa, uma nova fronteira começa a ser explorada por chefs de cozinha: a criação de receitas, menus e experiências sensoriais com auxílio do ChatGPT. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, nomes consagrados da gastronomia, como Grant Achatz, já incorporam a ferramenta como parte fundamental do processo criativo em seus restaurantes.
Achatz, chef do restaurante Next, em Chicago, desenvolveu um menu de nove etapas para 2026 em que cada prato será atribuído a um chef fictício. Entre eles, “Jill”, uma personagem inventada pelo próprio Achatz, que teria passado por nomes como Ferran Adrià, Jiro Ono e até Auguste Escoffier — falecido em 1935. O ChatGPT foi alimentado com a biografia fictícia de Jill e passou a sugerir pratos condizentes com suas supostas influências. “Quero que ele faça o máximo possível, exceto realmente preparar o prato”, afirmou o chef.
Essa iniciativa representa um salto em relação ao uso mais comum da IA em restaurantes, voltado para tarefas administrativas como controle de estoque e escalas de funcionários. Agora, ela começa a entrar na seara criativa da cozinha, território que muitos chefs ainda consideram exclusivamente humano.
Aaron Tekulve, do restaurante Surrell, em Seattle, vê vantagens práticas na tecnologia: “Estou aprendendo a maximizar o uso”. Ele destaca a utilidade do ChatGPT para lidar com ingredientes sazonais, otimizando o tempo e a inspiração. Já Jenner Tomaska, do restaurante Esmé, também em Chicago, usa a IA como “parceira de brainstorm”. Ao pedir sugestões para um pastel frito inspirado no estilo de Alain Ducasse com ingredientes locais, obteve ideias como lagostim com missô branco, endro e raiz de aipo. “É um pouco bizarro, porque gosto de discutir essas ideias com pessoas, e estou fazendo isso com algo que, por si só, não existe”, disse.
Outros chefs, porém, se mostram céticos. Dominique Crenn, do Atelier Crenn, em São Francisco, rejeita a presença de IA em sua cozinha. “Cozinhar permanece, em sua essência, uma experiência humana. Não acredito que isso possa ou deva ser replicado por uma máquina”, declarou por e-mail.
Além das limitações filosóficas, há preocupações práticas. O ChatGPT ainda comete erros factuais e depende de grandes quantidades de energia e água para operar. Apesar disso, chefs como Ned Baldwin, do Houseman em Nova York, valorizam a paciência ilimitada do sistema para responder a questões técnicas. Após uma falha em um lote de linguiças, Baldwin recorreu à IA para aprender sobre ligantes e proteínas emulsificantes — algo que, segundo ele, especialistas humanos muitas vezes não explicam abertamente. “O ChatGPT responde felizmente e sem julgamentos”, observou.
A influência da IA também chegou ao design de restaurantes. Tomaska utilizou o gerador de imagens Midjourney para criar louças com ceramistas, a partir de ideias visuais inspiradas em ingredientes. Dave Beran, que abre o restaurante Seline em Santa Monica, usou a mesma ferramenta para desenvolver junto ao arquiteto um ambiente que combinasse o estilo escandinavo com um clima acolhedor e mágico.
Apesar de toda a tecnologia, o produto final ainda depende do toque humano. A IA sugere, inspira e estrutura ideias, mas são os chefs que testam, adaptam e cozinham. “Desde que comecei a usar o ChatGPT, ele se tornou minha principal ferramenta criativa, superando até o Google”, reconheceu Achatz. Seu uso da IA já gerou pratos inspirados em fósseis patagônicos e eventos gastronômicos com roteiro teatral.
Para ele, o chatbot substitui parte do diálogo criativo que costumava ter com seus cozinheiros. “Hoje, esse diálogo simplesmente não existe mais. Mas o ChatGPT está sempre disponível para conversar madrugada adentro”, concluiu.





