O assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que o Escudo das Américas representa uma tentativa de cercar o Brasil sob o argumento de combater o crime organizado. Segundo ele, a iniciativa liderada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mistura o enfrentamento às facções criminosas com a classificação de grupos como organizações terroristas.
Em entrevista ao canal Tutaméia TV, no YouTube, Amorim criticou a estratégia americana e disse que o objetivo ultrapassa a cooperação em segurança. Para o assessor, o movimento faz parte de uma política de influência e pressão sobre os países latino-americanos.
Amorim vê ameaça à soberania brasileira
“Essa questão do Escudo das Américas põe o Brasil num cerco, cercado com base num argumento falso que é tratar a questão do crime organizado como se fosse terrorismo internacional”, afirmou Amorim.
O assessor declarou que governos americanos anteriores também tentaram ampliar sua influência sobre o Brasil, mas, na avaliação dele, não havia o mesmo grau de ameaça. “Na realidade, é um esquema de dominação absoluta. O problema deles é a China”, disse.
A iniciativa integra a estratégia de Trump para ampliar a cooperação regional contra o tráfico de drogas e as organizações criminosas. Entre as medidas adotadas pelos Estados Unidos estão sanções contra grupos que atuam na América Latina, incluindo facções brasileiras.
Governo Lula rejeita classificar PCC e CV como terroristas
O governo brasileiro se opõe à classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais pelos Estados Unidos.
A avaliação do governo é que esse enquadramento poderia abrir espaço para medidas americanas em território brasileiro e sanções contra empresas nacionais. Especialistas em segurança também alertam que a mudança poderia prejudicar os mecanismos de cooperação internacional utilizados atualmente no combate às facções.
O Escudo das Américas prevê compartilhamento de informações de inteligência e coordenação de operações entre os países participantes. A aliança também apoiou sanções americanas contra 24 grupos criminosos que atuam na região.
Flávio Bolsonaro promete aderir à aliança se vencer Lula
O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência que disputa o segundo turno com Lula, afirmou que pretende incluir o Brasil no Escudo das Américas caso seja eleito.
Na quarta-feira (7), durante conversa com o presidente colombiano Abelardo de la Espriella, Flávio manifestou apoio à iniciativa e defendeu a cooperação entre os países para combater as facções classificadas como narcoterroristas.
“Eu vou com muita vontade e muita honra querer fazer parte também do Escudo das Américas, para fazer uma cooperação com a Colômbia e com os demais países que queiram se unir para combater essas facções narcoterroristas”, declarou.
Aliado de Trump, Flávio defende a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. A proposta contrasta com a posição do governo Lula sobre os possíveis efeitos jurídicos e diplomáticos desse enquadramento.
Aliança reúne 15 países da América Latina e os Estados Unidos
Lançado por Trump em março, na Flórida, o Escudo das Américas reúne Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago.
O Brasil e o México não integram o grupo. A aliança faz parte da estratégia da Casa Branca de ampliar a influência americana no continente e mobilizar governos latino-americanos em torno de uma política externa mais agressiva.
A iniciativa é associada por críticos à retomada de princípios da Doutrina Monroe, formulada no século 19 para afirmar a influência dos Estados Unidos sobre as Américas. Trump passou a utilizar a expressão “doutrina Donroe”, uma combinação de seu sobrenome com o nome da política histórica.
Lula critica pretensões de hegemonia dos Estados Unidos
Em setembro, durante discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Trump afirmou que os Estados Unidos poderiam recorrer ao seu poder militar para proteger interesses nacionais na região.
Lula reagiu ao discurso e declarou que o Brasil não pertence à esfera de influência de nenhuma potência. Na ocasião, o presidente também alertou os países latino-americanos contra o que chamou de “tentações hegemônicas”.
A divergência sobre o Escudo das Américas expõe posições distintas sobre a política de segurança regional: enquanto o governo Lula questiona a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas, Flávio Bolsonaro defende a adesão à aliança liderada por Trump.







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