BRB e Master: PF revela reunião na Suíça com Ibaneis, Vorcaro e ex-presidente

Relatório enviado ao STF aponta que Ibaneis Rocha, Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa participaram de encontro em Zurique, em janeiro de 2025

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Uma reunião realizada em Zurique, na Suíça, em janeiro de 2025, tornou-se uma das peças centrais da investigação da Polícia Federal sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). Segundo relatórios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), o encontro reuniu o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), o empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Master à época, e Paulo Henrique Costa, então presidente do banco público.

Para os investigadores, a reunião marcou uma etapa decisiva das negociações que já vinham sendo preparadas desde outubro de 2024. A PF sustenta que Ibaneis participou de decisões estratégicas relacionadas à expansão do BRB e à operação envolvendo o banco de Vorcaro.

As conclusões são contestadas pela defesa do ex-governador, que nega qualquer interferência nas operações da instituição financeira. Os advogados de Paulo Henrique também afirmam que decisões dessa dimensão dependiam de aprovação dos órgãos de governança do banco.

Mensagens revelam articulação para encontro na Suíça

A Polícia Federal reconstruiu parte das negociações a partir de mensagens encontradas nos celulares de Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa, ambos presos.

Uma das conversas consideradas relevantes ocorreu em 20 de janeiro de 2025, quando o então presidente do BRB informou ao empresário que Ibaneis havia solicitado a marcação de uma reunião.

Três dias depois, em 23 de janeiro, os três se encontraram em Zurique. Uma quarta pessoa, identificada nos relatórios apenas como Leonardo, também participou da reunião.

As mensagens indicam que as conversas sobre uma possível aproximação entre as instituições financeiras já estavam em andamento.

Em 26 de janeiro, Vorcaro procurou Paulo Henrique para comentar uma pergunta recebida do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, sobre as negociações.

Na resposta, o então presidente do BRB demonstrou preocupação com a circulação de informações e afirmou que o grupo não havia ampliado o número de pessoas envolvidas na negociação.

Para a PF, o conteúdo das mensagens ajuda a demonstrar a existência de tratativas anteriores à formalização pública da tentativa de aquisição.

Negociação começou a ser preparada em outubro de 2024, diz PF

Os investigadores afirmam que a aproximação entre BRB e Banco Master não começou com a reunião na Suíça.

De acordo com o relatório, em outubro de 2024 o banco público já adotava medidas financeiras consideradas preparatórias para uma futura operação de aquisição.

Naquele período, o BRB colocou ações no mercado com o objetivo de captar até R$ 1 bilhão e ampliar seu capital social.

A Polícia Federal relaciona essa iniciativa à estratégia de expansão da instituição e à possibilidade de integração com o Banco Master.

Os documentos apontam que decisões sobre aumento de capital e reorganização financeira eram discutidas antes da conclusão das etapas formais de governança.

A investigação busca esclarecer se essas movimentações foram realizadas de maneira regular ou se integraram uma estratégia previamente definida para viabilizar o negócio.

BRB comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito

Além da tentativa de aquisição do Banco Master, a Polícia Federal investiga operações bilionárias de compra de carteiras de crédito realizadas pelo BRB.

Segundo os relatórios, entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o banco público adquiriu R$ 9,52 bilhões em carteiras emitidas pelo Master.

Em um intervalo de aproximadamente um ano, o volume acumulado dessas operações chegou a R$ 16,7 bilhões.

As transações passaram a ser examinadas pelos investigadores diante de suspeitas de irregularidades na origem, na composição e na negociação de parte dos créditos.

Relatórios anteriores da PF também apontaram indícios de gestão fraudulenta em operações envolvendo as duas instituições.

A apuração procura identificar responsabilidades individuais, o conhecimento dos envolvidos sobre as operações e os mecanismos utilizados para aprovar as transações.

PF aponta possível interferência de Ibaneis nas decisões do banco

Uma das conclusões mais relevantes do relatório envolve a atuação de Ibaneis Rocha enquanto ocupava o governo do Distrito Federal.

Segundo a Polícia Federal, o então governador teria participado de quatro frentes relacionadas à condução do BRB: articulação com agentes privados, validação de decisões operacionais, definição de estratégias de expansão e autorização de valores destinados ao aumento de capital.

Os investigadores afirmam que decisões estratégicas eram submetidas à apreciação de Ibaneis antes mesmo da análise pelos órgãos formais de governança do banco.

Para a PF, essa dinâmica indica possível interferência política na administração da instituição financeira.

O relatório também utiliza a expressão “captura institucional” para descrever a suspeita de que estruturas decisórias do BRB teriam sido direcionadas a interesses específicos.

Trata-se, porém, de uma conclusão investigativa, contestada pela defesa do ex-governador, e não de uma condenação judicial.

Fundos de investimento entram na investigação

Outro ponto examinado pela Polícia Federal é a participação indireta do Banco Master na estrutura acionária do BRB.

Segundo os investigadores, fundos de investimento identificados como Borneo, Verbier e Delta teriam sido utilizados em operações que dificultavam a identificação dos beneficiários finais.

A suspeita é de que essas estruturas permitiram a participação indireta de interesses ligados ao Master no capital do banco público, sem caracterização formal de controle ou participação qualificada.

A investigação busca esclarecer quem eram os beneficiários das operações e qual era o objetivo das estruturas financeiras utilizadas.

Defesa de Ibaneis nega interferência nas operações

Em nota, a defesa de Ibaneis Rocha rejeitou as conclusões da Polícia Federal e afirmou que o ex-governador não pressionou dirigentes nem interferiu nas negociações conduzidas pelo BRB.

“Ibaneis Rocha não pressionou e tampouco teve qualquer ingerência nas operações realizadas pelo BRB”, declararam os advogados.

A defesa argumenta que Paulo Henrique Costa tinha autonomia para conduzir as tratativas e que o contato com Ibaneis ocorreu em contexto institucional, considerando os cargos ocupados pelos envolvidos.

Os advogados também destacam que o ex-governador não aparece como interlocutor direto nas mensagens trocadas com Daniel Vorcaro.

Segundo a nota, o nome de Ibaneis é mencionado apenas quatro vezes no relatório, o que, na avaliação da defesa, não permite atribuir responsabilidade ao ex-chefe do Executivo distrital.

Ex-presidente do BRB também contesta conclusões

A defesa de Paulo Henrique Costa afirmou que o executivo não tinha poderes para decidir sozinho sobre uma operação da dimensão da tentativa de aquisição do Banco Master.

Os advogados ressaltaram que o BRB possuía Conselho de Administração e mecanismos internos de governança que precisariam autorizar o negócio.

Também lembraram que o Governo do Distrito Federal era o acionista majoritário da instituição financeira.

“Paulo Henrique foi presidente do BRB, não seu dono”, afirmou a defesa.

Os representantes do ex-executivo sustentam que uma eventual negociação irregular não poderia ser concluída sem passar pelos órgãos responsáveis pela aprovação.

Paulo Henrique, segundo seus advogados, permanece confiante de que poderá esclarecer os fatos investigados.

A defesa de Daniel Vorcaro informou que não se manifestaria sobre os novos relatórios.

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