Caso Marielle: Lessa afirma que irmãos Brazão queriam logo devolver armas usadas no crime ‘para o mesmo lugar’

Ele sugere que arma, submetralhadora apontada pelos peritos como utilizada no duplo homicídio, pertencia a algum órgão de segurança específico; ela nunca foi encontrada

O ex-sargento da Polícia Militar, Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, relata em sua delação a preocupação dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, suspeitos de serem os mandantes do crime, em devolver a submetralhadora HK MP5 “para o mesmo lugar” imediatamente. Lessa sugere que a arma, apontada pelos peritos como utilizada no duplo homicídio, pertencia a algum órgão específico, mas não informou qual.

Lessa conta que, no terceiro e último encontro com o sargento reformado da Polícia Militar, Edmilson Oliveira da Silva, o Macalé, e os Brazão, Domingos exigiu a devolução da submetralhadora, segundo apurou a jornalista Vera Araújo, para a coluna Segredos do Crime, do Globo.

Macalé, descrito como o intermediário nas tratativas para o assassinato entre Lessa e os irmãos Brazão, disse que a arma deveria ser jogada fora, mas Domingos insistiu que ela precisava ser devolvida. O encontro ocorreu perto do Hotel Transamérica, na Barra da Tijuca, sem câmeras no local.

Segundo Lessa, a arma foi entregue na favela Rio das Pedras ao ex-assessor de Domingos no TCE-RJ, Robson Calixto Fonseca, o Peixe, poucos dias após o encontro.

Os envolvidos, incluindo Domingos, Chiquinho, Rivaldo Barbosa e Peixe, foram presos na Operação Murder Inc. da Polícia Federal, acusados de serem os mandantes, com Rivaldo descrito como “mentor intelectual”. Todos estão em presídios federais, enquanto Macalé foi assassinado em 2021.

A submetralhadora HK MP5 usada no crime nunca foi encontrada. Investigações indicam que a arma poderia ter sido retirada de um paiol de algum órgão de segurança pública.

Submetralhadoras HK MP5 são utilizadas no Rio por equipes do Bope da PM e da Core da Polícia Civil em operações especiais. Na época do crime, essas armas eram guardadas na Coordenadoria de Fiscalização de Armas e Explosivos (CFAE) da Polícia Civil. A Polícia Federal também possui algumas em seu arsenal.

A delação de Lessa sugere que a arma estava acautelada em algum paiol da polícia. Em conversas gravadas, Domingos mencionou que “Rivaldo tem que dar um jeito”, indicando um possível envolvimento do ex-chefe de Polícia Civil.

Relatórios da Polícia Federal indicam que Erika Andrade de Almeida Araújo, esposa de Rivaldo, poderia estar envolvida em obtenção de vantagens indevidas utilizando agentes públicos para regularização de blindagens de carros.

Investigações adicionais mostram transações bancárias suspeitas vinculadas à empresa de Erika, Armis Consultoria Empresarial Eireli, revelando depósitos significativos relacionados a serviços de blindagem de veículos. Rivaldo Barbosa foi nomeado chefe de Polícia Civil um dia antes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, permanecendo no cargo até o fim de 2018.

A Polícia Civil informou que há 55 submetralhadoras HK MP5 em uso, todas acauteladas e periciadas sem relação com o crime. Quatro armas do modelo foram consideradas extraviadas em 2011, mas uma foi recuperada e periciada. A Corregedoria-Geral de Polícia Civil investiga a conduta de servidores supostamente empregados em serviços particulares por Rivaldo.

Durante as investigações, a Polícia Federal periciou apenas duas submetralhadoras acauteladas no CFAE, baseando-se em laudos da Polícia Civil que descartaram o uso das demais no crime. Os advogados de Domingos Brazão afirmam que o relatório da Polícia Federal se afasta do objeto das investigações, enquanto os advogados de Chiquinho e Rivaldo negam envolvimento deles nos crimes.

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