Arma que matou Marielle e Anderson segue desaparecida e gera embate no STF

Duas versões sobre o destino da submetralhadora HK MP5 marcam julgamento e levantam dúvidas sobre coerência da delação de Ronnie Lessa

O paradeiro da submetralhadora HK MP5 usada no assassinato de Marielle Franco continua sendo um dos pontos mais sensíveis do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). O armamento, peça central para a elucidação completa do crime, jamais foi localizado, o que mantém abertas lacunas relevantes no processo.

Durante as sessões, voltaram a ganhar força duas versões distintas sobre o destino da arma. A primeira aponta que o equipamento teria sido serrado e lançado ao mar da Barra da Tijuca, cerca de um ano após o atentado, logo depois da prisão de Ronnie Lessa. Já a segunda, apresentada pelo próprio ex-policial militar em delação premiada, sustenta que a submetralhadora foi devolvida ao suposto mandante logo após a execução.

As duas narrativas são conflitantes e levantam questionamentos sobre qual delas se aproxima da realidade dos fatos.

Condenação anterior impõe cautela na análise das declarações

Condenado em 2021 por ocultação e destruição de provas na operação Submersus, Lessa teve sua credibilidade colocada sob análise. Mesmo assim, em depoimentos prestados no acordo de colaboração e ao STF, afirmou ter recebido a arma de Edmilson da Silva de Oliveira, conhecido como Macalé, apontado como intermediário entre mandantes e executores.

Macalé foi morto em Bangu em 2021, o que impede a confirmação ou contestação direta dessa versão. Segundo Lessa, o armamento teria origem com Robson Calixto da Fonseca, o Peixe, ex-assessor de Domingos Brazão, e depois do crime foi levado para Rio das Pedras, onde teria sido entregue ao ex-PM Marcus Vinicius Reis dos Santos, o Fininho.

É justamente nessa etapa do relato que surgem novas dúvidas dentro do processo.

Ausência de confronto com suposto destinatário levanta questionamentos

Se Fininho foi o responsável por receber a arma, a ausência de um confronto formal com a Polícia Federal sobre o paradeiro da HK MP5 passou a ser um ponto de questionamento entre as defesas. Em um caso em que o objeto material do crime nunca foi apreendido, esclarecer essa fase é considerado fundamental.

Outro elemento citado é a nomeação da esposa de Fininho para um cargo na Assembleia Legislativa do Rio em 2017. Um documento encontrado no gabinete de Domingos Brazão mencionava os nomes do casal. O registro não comprova irregularidades, mas reforça a necessidade de análise dentro do conjunto probatório.

Durante o julgamento, o advogado Marcelo Ferreira, defensor de Rivaldo Barbosa, trouxe à tona uma declaração de Élcio de Queiroz segundo a qual Lessa teria dito que a arma foi destruída e jogada ao mar — versão que diverge da devolução ao mandante.

Coerência da delação é ponto-chave para o julgamento

As contradições não anulam automaticamente a validade da colaboração premiada, já que partes do acordo foram confirmadas por outras provas da investigação. No entanto, a inexistência da arma do crime fragiliza a consistência interna das narrativas apresentadas.

Em processos que envolvem organizações criminosas, a palavra de colaboradores costuma ser essencial, mas sua força depende de coerência, confirmação externa e lógica entre os fatos apresentados.

No caso da HK MP5, as lacunas permanecem abertas. Em um julgamento de grande repercussão nacional, especialistas apontam que cada ponto não esclarecido precisa de análise técnica aprofundada para evitar que dúvidas permaneçam sem resposta.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading